As Armas Biológicas do Pentágono (Parte I)

Escrito por Dilyana Gaytandzhieva
O atual cenário pandêmico global é palco de uma grande guerra de narrativas sobre as origens do novo coronavírus. Há aqueles que defendem que trata-se de um vírus natural, que passou para seres humanos por conta dos costumes chineses e outros que a epidemia começou em outro país antes de chegar na China. Há ainda os que dizem que se trata de uma arma biológica, um vírus desenvolvido em laboratório. Segundo alguns, criado pelo governo chinês. Segundo outros, criado pelo governo (ou pelo Deep State) americano.

Em resposta a esses confrontos, surgiu uma nova narrativa que se proclama “neutra” e “científica”. É a que nega a própria possibilidade do novo coronavírus ter sido desenvolvido em laboratório, e que chega ao ponto de rejeitar a possibilidade do uso de agentes virais como armas biológicas. Essa é a oportunidade propícia, portanto, para investigarmos os biolaboratórios do Pentágono e os programas de armas biológicas do governo americano. Nesta primeira parte, abordamos algumas das principais corporações privadas que trabalham com o Pentágono nessa área, bem como alguns dos principais laboratórios e programas, além de seu envolvimento na pandemia do Ebola.

O exército americano regularmente vírus, bactérias e toxinas mortais em violação direta da Convenção da ONU sobre proibição de armas biológicas. Centenas de milhares de pessoas involuntárias são sistematicamente expostas a patógenos perigosos e outras doenças incuráveis. Cientistas de guerra biológica usando cobertura diplomática testam vírus criados pelo homem em laboratórios biológicos do Pentágono em 25 países em todo o mundo. Esses laboratórios biológicos americanos são financiados pela Agência de Redução de Ameaças da Defesa (DTRA) sob um programa militar de 2,1 bilhões de dólares – Programa de Engajamento Biológico Cooperativo (CBEP), e estão localizados em países da antiga União Soviética, como Geórgia e Ucrânia, no Oriente Médio, no Sudeste Asiático e na África.

A Geórgia é um campo de testes para armas biológicas

O Centro Lugar é o laboratório biológico do Pentágono na Geórgia. Está localizado a apenas 17 km da base aérea militar americana Vaziani, na capital Tbilisi. Os biólogos da Unidade de Pesquisa Médica do Exército dos EUA-Geórgia (USAMRU-G), juntamente com empreiteiros privados, são responsáveis pelo programa militar. O Laboratório de Biossegurança Nível 3 é acessível apenas a cidadãos norte-americanos com autorização de segurança. Eles recebem imunidade diplomática sob a égide do Acordo de Cooperação em Defesa EUA-Geórgia de 2002.

O Centro Lugar, na República da Geórgia
O exército americano foi transferido para a base militar Vaziani, a 17km do biolaboratório do Pentágono no Centro Lugar

Informações obtidas do registro federal de contratos dos EUA esclarecem algumas das atividades militares no Centro Lugar – entre elas a pesquisa sobre agentes biológicos (antraz, tularemia) e doenças virais (por exemplo, febre hemorrágica crimeana-congolesa), e a coleta de amostras biológicas para experimentos futuros.

O acordo EUA-Geórgia dá status diplomático a todo o pessoal civil e militar trabalhando no programa do Pentágono na Geórgia

As terceirizadas do Pentágono produzem agentes biológicos sob cobertura diplomática

A Agência de Redução de Ameaças da Defesa (DTRA) terceirizou grande parte do trabalho do programa militar para empresas privadas, que não são responsáveis perante o Congresso, e que podem operar mais livremente e contornar o Estado de Direito. O pessoal civil norte-americano que trabalha no Centro Lugar também recebeu imunidade diplomática, embora não sejam diplomatas. Assim, empresas privadas podem realizar trabalhos, sob cobertura diplomática, para o governo dos EUA sem estarem sob o controle direto do Estado anfitrião – neste caso, a República da Geórgia. Esta prática é frequentemente utilizada pela CIA para dar cobertura aos seus agentes.

Três empresas privadas americanas trabalham no biolaboratório americano em Tbilisi – CH2M Hill, Battelle e Metabiota. Além do Pentágono, estas empresas privadas realizam pesquisas biológicas para a CIA e várias outras agências governamentais.

A CH2M Hill recebeu contratos da DTRA no valor de $341,5 milhões no âmbito do programa do Pentágono para biolaboratórios na Geórgia, Uganda, Tanzânia, Iraque, Afeganistão e Sudeste Asiático. Metade desta soma ($161,1 milhões), sendo alocada ao Centro Lugar, no âmbito do contrato da Geórgia.

Fonte: Atividades do Exército Americano, Programas de Guerra Biológica, vol. II, 1977, p. 82

De acordo com a CH2M Hill, a empresa americana assegurou agentes biológicos e empregou antigos cientistas de guerra biológica no Centro Lugar. Estes são cientistas que trabalham para outra empresa americana envolvida no programa militar na Geórgia – o Instituto Memorial Battelle.

A Battelle, como subcontratada de 59 milhões de dólares do Centro Lugar, tem uma vasta experiência em pesquisa sobre bioagentes, uma vez que a empresa já trabalhou no Programa de Bioarmas dos EUA sob a égide de 11 contratos anteriores com o Exército dos EUA (1952-1966).

A empresa privada realiza trabalhos para os laboratórios biológicos DTRA do Pentágono no Afeganistão, Armênia, Geórgia, Uganda, Tanzânia, Iraque, Afeganistão e Vietnã. A Battelle realiza pesquisas, desenvolvimento, testes e avaliações utilizando produtos químicos altamente tóxicos e agentes biológicos altamente patogênicos para uma ampla gama de agências governamentais dos EUA. Foi premiada com cerca de 2 bilhões de dólares em contratos federais no total e ocupa a 23ª posição na lista das 100 principais contratantes do governo dos EUA.

O Projeto Visão Clara da CIA-Battelle

O Projeto Visão Clara (1997 e 2000), uma investigação conjunta da CIA e do Instituto Memorial Batelle, no âmbito de um contrato adjudicado pela Agência, reconstruiu e testou uma bomba de antraz da era soviética a fim de testar as suas características de disseminação. O objetivo declarado do projeto era avaliar as características de disseminação de bioagentes das bombas. A operação clandestina da CIA-Battelle foi omitida das declarações da Convenção sobre Armas Biológicas dos EUA apresentadas à ONU.

Experiências Ultrassecretas

A Battelle tem operado um biolaboratório ultrassecreto (Centro Nacional de Análise e Contramedidas em Biodefesa – NBACC) em Fort Detrick, Maryland, sob um contrato do Departamento de Segurança Nacional dos EUA (DHS) na última década. A empresa recebeu um contrato federal de $344,4 milhões (2006 – 2016) e outro contrato de $17,3 milhões (2015 -2026) do DHS.

O NBACC é classificado como uma instalação ultrassecreta dos EUA

Entre as experiências secretas, realizadas pela Battelle no NBACC, estão: Avaliação da tecnologia de disseminação de pós; Avaliação do perigo representado pelas toxinas aerossolizadas e Avaliação da virulência do B. Pseudomallei (Melioidose) em função das partículas de aerossol em primatas não humanos. A Melioidose tem o potencial de ser desenvolvida como arma biológica, por isso é classificada como uma categoria B. Agente de Bioterrorismo. O B. Pseudomallei foi estudado pelos EUA como uma arma biológica potencial no passado.

Além das experiências militares no Centro Lugar na Geórgia, a Battelle já produziu agentes de bioterrorismo no Laboratório Ultrassecreto Nível 4 de Biossegurança do NBACC em Fort Detrick, nos EUA. Uma apresentação do NBACC lista 16 prioridades de pesquisa para o laboratório. Entre elas, caracterizar patógenos clássicos, emergentes e geneticamente modificados segundo seu potencial de BTA (agente de ameaça biológica); avaliar a natureza da indução de doenças não tradicionais, novas e não endêmicas a partir do potencial de BTA e expandir a capacidade de teste de desafios em aerossol para primatas não humanos.

Produção de patógenos no laboratório do NBACC

A empresa americana Metabiota Inc. recebeu contratos federais de 18,4 milhões de dólares no âmbito do programa DTRA do Pentágono na Geórgia e na Ucrânia para serviços de consultoria científica e técnica. Os serviços da Metabiota incluem pesquisa global de ameaças biológicas de campo, descoberta de patógenos, resposta a surtos e ensaios clínicos.

A Metabiota Inc. tinha sido contratada pelo Pentágono para realizar trabalhos para o DTRA antes e durante a crise do ebola na África Ocidental e recebeu 3,1 milhões de dólares (2012-2015) para trabalhos em Serra Leoa – um dos países no epicentro do surto do Ebola.

A Metabiota trabalhou em um projeto do Pentágono no epicentro da crise do Ebola, onde se situavam três biolaboratórios dos EUA

Um relatório de 17 de julho de 2014, elaborado pelo Consórcio da Febre Hemorrágica Viral, acusou a Metabiota Inc. de não cumprir um acordo existente sobre como relatar os resultados dos testes e por sabotar os cientistas serra-leoneses que lá trabalham. O relatório também levantou a possibilidade da Metabiota estar cultivando células sanguíneas no laboratório, algo que o relatório dizia ser perigoso, além de diagnosticar equivocadamente os pacientes saudáveis. Todas essas acusações foram negadas pela Metabiota.

O Centro Lugar, 2011; Andrew C. Weber (na direita) – Secretário-Assistente de Defesa dos EUA (2009-2014), Vice-Coordenador do Departamento de Defesa para Resposta ao Ebola (2014-2015), e atualmente funcionário da Metabiota

Esta é a primeira parte de uma série. Continue lendo aqui.

Fonte: Arms Watch

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