A Itália, o Covid-19 e o futuro da Europa

A pandemia não interrompeu a nova guerra fria em curso entre o Ocidente e o Oriente e a Itália se tornou o epicentro desse capítulo.

Por Emanuel Pietrobon

A Itália é agora o segundo país por número de contágios e vítimas da Covid-19, logo atrás da China. As notícias do 22 de março, 18 horas, são um boletim de guerra: 46.638 pessoas atualmente recuperadas, 5.476 mortos, 7.024 feridos. O mundo se mobilizou pelo Belo País, mesmo que simbolicamente: estátuas e palácios foram iluminados com o tricolor italiano, do Rio de Janeiro a Alepo. Outros países, como a China, deixaram o inventário do simbolismo, da fraternidade à distância, para se empenhar na linha de frente na luta contra o Covid-19.

A China é, sem dúvidas, o país que mais ajudou a Itália nos últimos dois meses, seja através de conspícuas doações, seja dando prioridade à nossa demanda de bens higiênico-sanitários e hospitalares. Só na última semana, a Cruz Vermelha Chinesa transportou mais de 30 toneladas de ajuda humanitária e medicinal.

No domingo, porém, foi a vez da Rússia: o presidente Vladimir Putin instruiu seu ministro da defesa, Sergei Shoigu, para que organizasse em um curtíssimo tempo uma imponente missão humanitária com destino à Itália. Giuseppe Conte chamou, o Kremlin respondeu: positivo. Uma só missão, mas de dimensões significativas: nove aviões II-76 destinados ao transporte de uma equipe de 180 pessoas, entre epidemiólogos, virólogos e pessoal médico genérico, além de 2 toneladas de ajuda de vários tipos, instrumentos de ponta para a desinfestação urbana-viária.

O protagonismo russo-chinês não passou batido para Washington, e nos últimos dias a Casa Branca começou a dedicar maior atenção ao (até agora) negligenciado aliado. A notícia não teve grande resposta midiática, mas na semana passada um carregamento aéreo DC8 vindo dos EUA aterrissou em Verona. O avião continha um hospital de campanha, médicos e 20 toneladas de ajuda: tudo gratuito, tudo gentilmente oferecido por uma organização evangélica, a Samaritan’s Pursue. Domingo, em meio ao cenário da chegada do primeiro II-76 russo na Itália, um outro avião norte-americano carregado de ajuda aterrissava em Aviano e mais ajuda chegará nos próximos dias, de acordo com o Pentágono e a Secretaria de Estado.

É uma corrida para ver quem ajuda mais, mas por trás do humanitarismo de fachada se esconde o enésimo braço de ferro geopolítico entre Washington e Pequim, e Roma é a vítima que vem arrastada à força pela corrente, como sempre, incapaz de uma escolha de campo autônoma; eterna indecisa, perenemente covarde. Quando a crise acabar, a Itália não poderá mais se permitir qualquer tipo de cortesia pelos chineses. Não poderá dizer sim à Nova Via da Seda e continuar a refutar o 5G, não será possível alternar visitas entre Washington e Pequim. A Itália é o elo fraco da União Europeia, mas enquanto a Rússia abandonou há tempos o propósito de utilizar o Belo País como um cavalo de Troia, após a reviravolta ultra-atlantista da Lega Nord e o nada obtido no julho do ano passado em Roma, a China parece haver decidido tentar tudo por tudo, explorando ao máximo a presença do Movimento 5 Estrelas e de Luigi di Maio no Ministério dos Assuntos Exteriores.

Entre a China e a Itália se encontra um importantíssimo mediador, o Vaticano, que, como nunca no pós-Bento XVI, acreditou na necessidade histórica de conduzir um diálogo com o império celeste, normalizar as relações bilaterais e pôr fim à perseguição e facilitar a transmigração da Igreja Católica na Ásia. É sabido entre os especialistas no assunto que a diplomacia da Santa Sé teve um papel relevante ao dar apoio ao governo durante a assinatura do tratado de participação na Nova Via da Seda, que aconteceu no ano passado.

Se a Itália não tivesse decidido ligar-se à China, dificilmente seria visto tanto ativismo filo-italiano nesse período – essa é a dura verdade – Xi teria respondido aos pedidos de ajuda do palácio Chigi, mas talvez haveria menos doações e mais vendas. O mesmo Trump provavelmente não teria enviado um hospital de campanha e ajuda de 20 toneladas para fazer frente ao perigo chinês.

A Itália é o eterno elo fraco da Europa, vítima de um tratamento ignominioso por parte dos parceiros europeus, entre sequestros de máscaras, anulamentos de envios de suprimentos e ataques contra as bolsas e empresas dos setores estratégicos. A China gostaria de aproveitar a ocasião para aumentar a sua própria influência sobre o Belo País, os EUA ambicionam evitar qualquer infiltração chinesa ulterior no Velho Continente e poderiam até soprar com sucesso sobre o euroceticismo, à luz da chocante postura antagonista e egoísta que todos os países da União Europeia vêm assumindo.

Em todo caso, terminada a crise, a Itália não poderá mais se voltar às chancelarias de todo o planeta em busca de ajuda. A Itália pertence ao bloco euro-atlântico, assim é desde o fim da Segunda Guerra Mundial e se trata de um posicionamento dificilmente mutável, e a prova disso são as ameaças veladas feitas ao nosso executivo nos últimos tempos, por parte do secretário de Estado Mike Pompeo e do influente estrategista Edward Luttwak.

Mas, já que a Itália é um elo fraco, um jogador tradicionalmente voltado ao jogo duplo e a trocar de lado, à mudança de fronte de última hora, o seu posicionamento geopolítico pode não ser assim tão imóvel. Uma classe política longimirante e realmente dedicada à defesa do interesse nacional deve ter em consideração a contínua negligência da União Europeia e também as ajudas quiméricas dos EUA, alternadas com ameaças, pois os aliados se veem em momentos de crise, as alianças devem ser estabilizadas para se ter a certeza de um apoio em situações emergenciais.

A epidemia do Covid-19 é uma situação emergencial, uma crise humanitária, e a Itália, nesse momento de escuridão, recebeu mais ajuda da China, Rússia, Cuba, Egito e Venezuela que de qualquer outro país aliado europeu. E será justamente a Europa, ou melhor, a União Europeia, o argumento central da próxima transmissão. Quais efeitos podem ter o Covid-19 sobre a manutenção do sonho europeu? Quais as consequências para os baluartes da União Europeia, ou seja, a Alemanha e a França? De que modo o Covid-19 pode redesenhar os equilíbrios continentais e mundiais?

Deixe uma resposta