Bolsonaro mente: é possível, sim, salvar vidas e a economia!

Diferente do que diz o presidente Jair Bolsonaro em suas declarações e notas a respeito da atual crise sanitária que abala o mundo, a contraposição entre Saúde e Economia, ou entre “salvar vidas” e “salvar a economia”, é falsa. Uma série de medidas de teor emergencial podem ser adotadas pelo Estado brasileiro rumo a uma “recondução produtiva” que incremente os setores necessários ao combate à crise ao mesmo tempo em que gera emprego e, consequentemente, renda. 

O artigo abaixo, adaptado de uma thread feita pela economista da Universidade Federal de Minas Gerais, Débora Freira, em sua conta no Twitter, traça alguns panoramas e diretrizes básicas que o Brasil pode (e deve) seguir para minimizar os efeitos do COVID-19 sobre a economia nacional.

A pandemia do Corona vírus no Brasil: demanda emergencial de setores relacionados a saúde e impactos econômicos

1 — Não existe dilema entra salvar a economia ou salvar a vida de pessoas. Deve-se investir, gastar e influenciar a atividade econômica para salvar vidas e, ao mesmo tempo, recuperar a economia a partir de instrumentos que só o poder público possui.

2 — Os setores de saúde, fármacos, produtos de limpeza e equipamentos médicos são essenciais nesse esforço. A propagação do Coronavírus, no mundo, tem deflagrado uma carência emergencial por esses setores. No Brasil, não é diferente.

3 — A escassez de produtos de esterilização como álcool gel, de máscaras e, mais importante, de equipamentos médicos hospitalares, como macas, ventiladores e respiradores, que podem salvar inúmeras vidas, é um dos principais desafios da guerra contra a epidemia.

4 — A necessidade de aumentar a disponibilidade desses serviços e produtos é eminente e deve ser um dos principais focos das ações do Governo. Chamamos estes setores de “emergenciais”. A mudança da produção em direção a estes setores é o que alguns denominam “reconversão produtiva”.

5 — A reconversão produtiva já vem sendo planejada e incentivada em alguns países, ou mesmo ocorrendo por iniciativa própria de setores. Nos EUA, por exemplo, a Ford anunciou nesta terça, uma parceria com a 3M e a GE Healthcare para aumentar a produção de respiradores e máscaras.

6 — Possibilitar e garantir o aumento dessa produção, no atual contexto, requer gasto do poder público.Não deveria haver preocupações com o financiamento destes gastos no CP. Na situação pós-emergencial, a sociedade discutirá o financiamento (endividamento, (-) gastos, tributos).

7 — Além de salvar vidas, o aumento da produção desses setores teria efeitos de renda e emprego, algo muito importante em uma conjuntura de crise/recessão. Importante para contrabalançar o efeito de setores que estão reduzindo a produção.

8 — Vale lembrar que esses setores continuam operando, ainda que em escala reduzida. Assim, para a ampliação da produção, seria de extrema importância o controle rigoroso das condições de trabalho e segurança, para evitar propagação maior do vírus e adoecimento de pessoas.

9 — Para contribuir com esse debate, estimamos um aumento de 10% na produção de 5 setores: saúde pública e privada, produtos farmacêuticos, artigos de limpeza e equipamentos médicos. Estes setores representaram cerca de 5% do PIB da economia brasileira em 2019.

10 — A ampliação de 10% desses setores implica cerca de R$ 60 bilhões (reais em 2020) de aumento nas requisições por essas atividades, ou seja, requereria um gasto de R$ 60 bilhões do Governo. A partir de um modelo de simulação desenvolvido no NEMEA-Cedeplar, estimamos o impacto dessa demanda e produção adicional na economia brasileira. A expansão do PIB, dada uma injeção governamental nesses setores, de R$ 60 bi é de cerca de 0,8%, no emprego, de 1%, e, nas importações, de 0,6%.

11 — Como a estrutura do modelo é linear, os resultados podem ser escalonados: se o impulso nos setores emergenciais for o dobro (R$ 120 bilhões), como se estima ser necessário, estes impactos agregados seriam duplicados.

12 — Em termos de emprego, essa expansão equivaleria a 586 mil novas ocupações, o que seria equivalente a diminuir a taxa de desemprego em 0,55 pontos percentuais (dos atuais 11,2% para 10,65%).

13 — Os impactos setoriais repercutiriam em diversos setores, dado o encadeamento da estrutura produtiva da economia. Conforme a Tabela 2, verificamos o impacto indireto nos setores de comércio, transporte, serviços, eletricidade, químicos, etc.

14 — Esses efeitos suavizariam os impactos negativos na atividade que já estão ocorrendo devido à paralisação de setores específicos. Ainda, suavizaria o potencial impacto recessivo que tem sido projetado para o corrente ano.

15 — Assim, governos (federal, estadual e municipal) devem direcionar recursos extraordinários, urgentemente, de forma a expandir a capacidade de cuidado intensivo, ampliando a oferta de serviços e produtos ligados à saúde, ao mesmo tempo, que garanta medidas restritivas que promovam a desaceleração da velocidade do contágio para minimizar a demanda pelos serviços.

16 — O objetivo deste trabalho foi demonstrar que uma ação integrada e planejada do Governo no enfrentamento ao COVID-19 não requer a contraposição entre Saúde e Economia. Pelo contrário, a junção desses dois objetivos, isto é, salvar vidas e amenizar os impactos econômicos é essencial e só o Governo pode fazer isso. É urgente uma ação coordenada e estratégica do poder público, no Brasil, hoje. Salvar vidas é o que interessa nesse momento.

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Autores da Nota Técnica: Edson Domingues, Débora Freire e Aline Magalhães. Todos professores da UFMG/Cedeplar. A Nota completa pode ser encontrada aqui.

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