Uma breve análise social da música sertaneja/caipira

Ninguém nega o fato de que o que se chama hoje de música sertaneja é um antro de bolsonaristas. Até mesmo em outras vertentes da música rural, como na cena caipira raiz, esse tipo de pensamento é, infelizmente, hegemônico.

Uma interessante análise histórica e social pode ser feita através do percurso da música sertaneja em disco. O homem rural, que antes narrava-cantava a vida no campo, agora desenraizado, na cidade, também foi urbanizando os temas de suas canções. Num primeiro momento, cantou a saudade do campo, depois voltou-se para dentro de si mesmo, cantando amores perdidos. E, finalmente, resignou-se e voltou-se para fora, num hedonismo vazio. E aqueles que continuaram no campo, foram engolidos pelo capitalismo do agronegócio. Aquele conservadorismo tradicional e religioso do homem simples (agora uma classe média interiorana), transformou-se na típica moralidade libcon. O antigo amor caipira pela liberdade, que não aceitava ser explorado pelos grandes fazendeiros, agora é amor pelo liberalismo, alimentado por uma deformação moderna de seu tradicionalismo.

Ou seja, o homem simples do campo SEMPRE foi conservador nos seus costumes. As camadas mais humildes ainda apresentam essa visão de mundo tradicional que amedronta e escandaliza os progressistas. Já uma parcela dessa população, que atingiu certa prosperidade material e obteve uma relativa ascensão social, ao ser seduzida pelo neoliberalismo, deformou sua visão de mundo nisso que vemos hoje. Nesse grupo encontramos principalmente as classes médias e médias-baixas interioranas e o urbanóide com distantes raízes rurais. Na música, isso se manifestou em duplas louvando a ditadura militar (não por acaso, certa dupla foi responsável pela introdução da cultura estadunidense do caubói), passando pela trilha sonora sertaneja-romântica dos governos Sarney e Collor, até os sertanejos bolso-universitários que só querem saber de festa, pegação, caminhonetes, rodeios e armas. Apesar de, como mencionei acima, a vertente da resistência cultural “caipira raiz” estar infestada por esse tipo bolsonarista (no caso, principalmente idosos), é nesse estilo que ainda reside a esperança de uma mudança não só cultural, mas política. Por ser uma música que ainda tem um mínimo de contato com o campo, ainda há espaço para abordagem de temas como, por exemplo, a reforma agrária e as mazelas das classes baixas rurais. É só notarmos que o próprio MST organiza encontros de violeiros.

Mas uma coisa a “esquerda namastê”, ao analisar essa questão, não percebe: assim como na recente e patética polêmica no RJ com o bloco Cacique de Ramos, o trabalhador não se importa com as frivolidades acadêmicas de dondocas sociólogas e princesos militantes. Há uma muralha entre o proletário do subúrbio (e do campo) e os cirandeiros, que enquanto não for derrubada, continuará elegendo traidores da pátria como Bolsonaro. É preciso falar a língua do povo. E a massa brasileira SEMPRE será conservadora, pois o é metafisicamente, é algo presente no seu nascimento enquanto povo. E jamais será mudado. O que é diferente de alinhamento com pautas liberais-conservadoras, sionistas, americanófilas e anti-patriotas.

Sabe o mais curioso? Essa ala “tolerante” da esquerda, muitas vezes, em suas análises sobre todo esse fenômeno que estou comentando, demonstra um não tão velado preconceito contra o caipira. Não, não se trata apenas de odiar (nesse caso, de modo correto, eu também odeio) um palhaço tipo Gusttavo Lima. É um preconceito que odeia o caipira como um todo, do passado até hoje. Os supostos esclarecidos agindo com preconceito contra o jeca, se parecendo com o “racista” Monteiro Lobato, que eles tanto odeiam. Irônico, não é mesmo?! Eles odeiam o caipira. Odeiam o nordestino simples e o gaúcho tradicional.

Nestes dias, li que “se tem um traço que acompanha toda essa estética desde o início é o deslumbre com a violência, com as armas, com a força bruta”. Esqueceram da misoginia no assassinato da Cabocla Tereza. O que esses comedores de soja chamam de “deslumbre com violência e força bruta”, eu vejo como atributos nobres de um povo, presentes desde sua gênese, apenas guiados para o caminho errado nos tempos modernos. Não há continuidade real entre a bravura e força de nossa essência e a sedução do capitalismo. Além disso, qual o problema em valorizar a força e a luta? Talvez esses floquinhos de neve não saibam que a vida é uma dura batalha e era mais ainda nos tempos que estruturaram espiritualmente o antigo brasileiro. Nesse tal “deslumbre por força” repousa adormecido o heroísmo, o inconformista espírito revolucionário. Houve um tempo em que as esquerdas (inclusive a brasileira) não tinham medo de empregar violência, armas e força bruta para libertar seu povo das prostitutas do imperialismo.

Quando a hora chegar, não existirá resquício de medo em nós, da Nova Resistência – Brasil. E o povo, desperto da alienação, estará ao nosso lado.

Luiz Campos

Membro da NR-MG, leciona História e Filosofia.

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