10 clássicos para conhecer a música gaúcha

Por Guilherme Fernandes e Maurício Oltramari

O Rio Grande do Sul é conhecido pelo seu tradicionalismo, pela forte valorização dos costumes, ditados, vestimentas e paisagens nativas. Isso torna a cultura gaúcha única e rica em vários aspectos que envolvem também o folclore, a culinária marcante, danças, e especialmente, as músicas.

As músicas gaudérias são populares não só na província Rio-Grandense, como também na Argentina e Uruguai, sendo os três solos o seu berço. Acredita-se que a música tradicional gaúcha tenha sua origem e inspiração na escola literária do parnasianismo, por volta de 1850. Isso se justifica por sua semelhança quando canta temas relacionados à natureza e o ambiente, que, no caso do Rio Grande do Sul, refere-se à paisagens e elementos típicos da região: os pampas, o clima, as expressões faladas em profunda conexão com a vida no campo, o cavalo e o rodeio, e o imaginário da República Rio-Grandense como país independente.

Além disso, uma das principais características da música gaúcha é harmonizar a rima num arranjo acertado com as melodias, criando entre letra, música e dramatização uma dinâmica que valoriza a identidade do povo gaúcho e a alma guerreira e rebelde encarnada na figura do gaúcho. São exaltadas a valentia, a intrepidez, a astúcia e o modo xucro, e não obstante, nobre e generoso, do homem gaudério, e também a beleza, simpatia e delicadeza da prenda. Sendo uma belíssima marca de nossa cultura, a musicalidade original é possivelmente a expressão que mais define e eterniza a Querência Amada.

Assim como o chimarrão, a culinária, as expressões faladas e tantos outros costumes e símbolos, há quem simpatize e tenha abraçado o estilo musical gaudério em todas as regiões do Brasil. Ainda que tenha forte identificação com os países austrais da América do Sul, o nosso estilo musical conseguiu atingir as grandes capitais brasileiras como Curitiba, Florianópolis, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, lugares onde existem inúmeras escolas com aulas de música e dança gaúcha.

Confira 10 músicas que têm sido símbolo do gauchismo nas últimas décadas e, ao mesmo tempo que continuam a fazer sucesso em sua terra de origem, levam para as regiões mais distantes do Brasil e do mundo o nosso ritmo tipicamente austral.

1 – Noel Guarany – Milonga de três Bandeiras

“Velha milonga pampeana
Filha de planícies e ventos
Chiruza de quatro ventos
Da terra americana
Velha milonga paisana
Dos montes e pradarias
Suas mensagens galponeiras
Se trançaram em oração
Ao pé do mesmo fogão
Os gaúchos de três bandeiras”

2 – Mano Lima – Um Homem Fora do Tempo

“É na fumaça que se conhece um taura
É neste mundo que quero mostra quem sou
Se é na guerra que o soldado pega nome
Pois foi na guerra que o gaúcho se criou

Tem o gaúcho da boca pra fora
Mas também tem o que é do coração pra dentro
Se tem o cerne na garganta, é de pau ferro
Por isso berro e, quando canto, me sustento

O homem foge dos seus princípios
E o mundo corre em direção à perversidade
Se vivo peleando solito é porque sou peão de estância
E trago de herança o respeito e a hombridade

Quando a moral se entrega, o homem chega ao seu próprio fim
Mas debaixo da macega se esconde o melhor do capim
Debaixo do meu sombreiro tem um bugre missioneiro peleando dentro de mim”

3 – Luiz Marenco – Batendo Água

“Meu poncho emponcha lonjuras batendo água
E as águas que eu trago nele eram pra mim
Asas de noite em meus ombros sobrando casa
Longe das casa ombreada a barro e capim

Faz tempo que eu não emalo meu poncho inteiro
Nem abro as asas da noite pra um sol de abril
Faz muitos dias que eu venho bancando o tino
Das quatro patas do zaino, pechando o frio

Troca um compasso de orelha a cada pisada
No mesmo tranco da várzea que se encharcou
Topa nas abas sombreras, que em outros ventos
Güentaram as chuvas de agosto que Deus mandou”

4 – Teixeirinha – Querência Amada

“Quem quiser saber quem sou
Olha para o céu azul
E grita junto comigo
Viva o Rio Grande do Sul

O lenço me identifica
Qual a minha procedência
Da província de São Pedro
Padroeiro da querência

Oh, meu Rio Grande
De encantos mil
Disposto a tudo pelo Brasil
Querência amada dos parreirais
Da uva vem o vinho
Do povo vem o carinho
Bondade nunca é demais”

5 – Os Serranos – Bandeira dos Fortes

“Acorda Rio Grande desperta do sono
É descaso que fazem é grande o abandono
Pobreza nos trazem levando a riqueza
Não há pão na mesa perdeste o entono

Te espelha Rio Grande em passado de glória
São dados reais que a história ilustra
Os teus generais e farrapos briosos
Lutaram furiosos a causa era justa

Rio Grande Rio Grande o protesto está feito
Brasília devolva o que temos direito
Rio Grande Rio Grande batemos no peito
Devolvam devolvam o que temos direito

Levanta Rio Grande sacode tua gente
Que se humilha à toa e sofre calada
A causa é boa lutemos por ela
Entre a verde amarela a vermelha estampada
Meu canto Brasil
Está perene de fé
De conciliação e de democracia
Meu canto é a razão de quem vive sangrando
Mas não sei até quando eu suporto a sangria”

6 – César Oliveira e Rogério melo – Milonga Maragata

“Sou herança de Maragato
A velha raça caudilha!
Tenho sangue farroupilha
Galopando em minhas veias
Nos arrancos de trinta e cinco
Andei trilhando coxilhas
Enredado nas flexilhas
Tramando aço em peleias

Chiripá de saco branco
Lenço atado e meia espalda
E uma vicha que se esbalda
Na melena esgadelhada
Na cintura, a carniceira,
Companheira de degola!
E um “quarenta” de argola
Pra garatir a qüerada

Carcaça de puro cerne
Forjada em têmpera quapa
Com a rude estampa farrapa
Plantei tênencia de mau
E a descendência da raça
Semeei no eco do berro
Brincando de tercear ferro
Com chimango e pica-pau

Relampeia ferro branco
Também troveja a garrucha
Nesta milonga gaúcha
Que, por taura não se enleia,
Peleia dando risada!
Porque o macho se conhece
É atrás do “S” da adaga”

7 – Cenair Maicá – Canto dos Livres

“Se meu destino é cantar, eu canto
Meu mundo é mais que chorar, não choro
A vida é mais do que pranto, é um sonho
Com matizes sonoros
Hay os que cantam desditas de amores
Por conveniência agradando os senhores
Mas os que vivem a cantar sem patrão
Tocam nas cordas do seu coração

Quem canta refresca a alma
Cantar adoça o viver
Assim eu vivo cantando
Prá aliviar meu padecer”

8 – Cenair Maicá – Balseiros do Rio Uruguai

“Amanhã eu vou m’embora
pros rumo de Uruguaiana
vou levando na minha balsa
cedro, angico e canjerana.

Quando chegar em São Borja,
dou um pulo a Santo Tomé
só pra ver as correntinas
e bailar um chamamé.

Oba, viva veio a enchente
o Uruguai transbordou
vai dar serviço prá gente.
Vou soltar minha balsa no rio,
vou rever maravilhas
que ninguém descobriu.

Se chegar ao Salto Grande
me despeço deste mundo,
rezo a Deus e a São Miguel e
solto a balsa lá no fundo.
Quem se escapa deste golpe,
chega salvo na Argentina.
Só duvido que se escape do
olhar das correntinas.

Oba, viva veio a enchente
o Uruguai transbordou
vai dar serviço prá gente.
Vou soltar minha balsa no rio,
vou rever maravilhas
que ninguém descobriu.”

9 – Pedro Ortaça – Milonga dos Ancestrais

“Afino as cordas do pinho nesta milonga campeira
Mais xucra que uma tronqueira curtida pelos baguais
Canto sangues ancestrais de onde brotou o rio grande
Enquanto a alma comande meu canto não para mais
É a voz dos pais de meus pais que escuto por onde ande”

10 – Irmãos Bertussi – Sangue de Gaúcho

“Sangue de gaúcho velho, sangue de bravor,
Sangue de gaúcho aiii sempre teve seu valor
Gaúcho que estais me ouvindo sinta no sangue doer
Relembra teus velhos pagos onde o sol te vio nascer
Se és gaúcho da serra ou se for de campo fora
Não te esqueças que é um gaúcho onde o minuano mora

Gaúcho é supersticioso acredita em assombração
Acredita em lobisomem boi tatá e bicho papão
Mas quando é na hora do pega gaúcho tem nome na história
Pois o sangue de nossos bravos cobrem páginas de glória”

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