Andrea Virga – Índios e Identidade: Mesmo Inimigo Mesma Barricada

(2019)

A questão indígena voltou internacionalmente à pauta com força nos últimos anos, especialmente graças às depredações que o governo Bolsonaro tem empreendido contra os espaços vitais dos povos indígenas. Nesse tema, não são poucos os supostos nacionalistas que, surpreendentemente, cerram fileiras com as forças da exploração e do desenraizamento contra os indígenas das Américas. É necessário repetir ad nauseam, que o inimigo dos nacionalistas e soberanistas também é o inimigo dos povos indígenas. Mesmo inimigo, mesma causa.

Nos últimos meses, os indígenas americanos, vulgarmente chamados “índios”, parecem ter voltado “à moda”. Em março, o novo presidente do México, o populista de esquerda Andrés Manuel López Obrador, começou a exigir um pedido de desculpas da Espanha e do Papa pela conquista ocorrida cinco séculos antes. Por outro lado, seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, havia se distinguido por uma abordagem completamente oposta, fortemente antagônica aos povos indígenas do Brasil, culpados de viver há milênios em territórios ricos em recursos naturais. Mais tarde, em outubro, realizou-se o Sínodo da Amazônia, com uma controvérsia contígua sobre a aculturação, intensificada pela exibição de algumas estátuas da Pachamama em uma igreja romana. Finalmente, chegamos aos recentes acontecimentos na Bolívia, com a derrubada subversiva do Presidente Evo Morales, o primeiro presidente indígena eleito na América do Sul.

Em todos estes casos, a discussão do tema no debate local, para variar, deixou a desejar. À esquerda, estão agarrados ao mito roussseauniano do bom selvagem, mas isso não deve nos surpreender, dada a tendência de certos pensamentos neoiluministas de brincar com tipos ideais que não correspondem à realidade, como os rebeldes sírios moderados e o capitalismo ético. Os governos pós-coloniais independentes, ligando-nos ao primeiro exemplo, têm falhas mais graves para com os nativos do que a Igreja ou a Coroa espanhola, que se comprometeram desde o início, embora muitas vezes em vão, a proteger as populações nativas da ganância feroz dos colonizadores e conquistadores. Nem – para dizer a verdade – havia realmente necessidade de um sínodo especial para a região amazônica, agora que as novas fronteiras da evangelização são a África e a Ásia Oriental.

Tendo retirado estas pedras dos sapatos, o mundo colorido das direitas, mais ou menos soberanistas, deu ocasião para confirmar a miséria geral e a subalternidade intelectual que caracteriza a maioria silenciosa há mais de meio século, como já denunciado por Adriano Romualdi e Julius Evola. Segundo alguns personagens, a colonização das Américas teria sido o trabalho filantrópico de governos desinteressados e diligentes ONGs ávidas, como novos Prometeus, de levar aos selvagens pagãos, até então dedicados ao massacre uns dos outros, o fogo da civilização ocidental, consistente em Bíblia, fuzil e aguardente. Esta é uma imagem perfeitamente sobreponível à retórica que emana da Casa Branca, independentemente de quem lá vive naquele período de quatro anos. A esquerda globalista substitui a referida tríade por direitos humanos, sodomia e drogas, mas é uma variante mais formal do que substancial.

É uma imagem profundamente racista, mas de um racismo, afinal, plenamente aprovado e, de fato, promovido por qualquer eventual Comissão Segre. Aleksandr Dugin explica bem (A Quarta Teoria Política, p. 50): “a ideologia do progresso é, em si mesma, racista. O pressuposto de que o presente é melhor e mais satisfatório que o passado, e as constantes garantias de que o futuro será ainda melhor que o presente, são uma discriminação contra o passado e o presente, e humilham todos aqueles que viveram no passado”. O direitista que considera os índios atrasados e pagãos está, portanto, inconscientemente cavando sua própria sepultura, aceitando este discurso, que por sua vez legitima as acusações de atraso que recebe dos esquerdistas e o cancelamento de seu próprio pequeno negócio pelas forças cegas do mercado global.

Entre outras coisas, estas são acusações que muitas vezes e de boa vontade não resistem ao escrutínio da história. As populações andinas, adoradoras do Sol (Inti) e da Mãe Terra (Pachamama), deram origem a várias e complexas realidades políticas, culminando em um Império (o Império Inca) capaz de governar imensos territórios, com uma rede de estradas de montanha e ousadas construções ciclópicas, ainda hoje surpreendentes – em uma época na qual grandes regiões do norte e leste da Europa ainda se encontravam cravejadas, no máximo, de cabanas e igrejas de madeira, que quebravam a monotonia de imensas florestas virgens. Em particular, o mapuche do Chile, um orgulhoso povo guerreiro, hoje na vanguarda dos protestos contra o neopinochetista Piñera, foi capaz de resistir ao domínio estrangeiro durante séculos.

Corretamente, os nacionalistas ibero-americanos, mesmo os não indigenistas, sempre reivindicaram com orgulho a sua herança mista. Basta mencionar o mexicano José Vasconcelos, admirador dos fascismos europeus e teórico da raza cósmica mestiça, ou a saudação “Anauê” de origem tupi e feita por integralistas brasileiros. E ainda hoje, no Peru, o Partido Nacionalista é o etnocacerista dos irmãos militares Antauro e Ollanta Humala, imbuído com o objetivo de opor o Sangue quechua contra o Ouro dos gringos e do clã Fujimori. E na Bolívia, há muito pouco de marxista no socialismo comunitário do Movimiento Al Socialismo, nascido da síntese entre o falangismo de esquerda (e azuis ainda são as bandeiras de Evo Morales!) e o sindicalismo indígena. Não é por acaso que tem sofrido oposição dos irrelevantes marxistas locais: os maoístas do Sendero Luminoso, massacradores de camponeses, e os trotskoides subversivos, eternos idiotas úteis.

O filósofo argentino Alberto Buela (Hispanoamérica Contra o Ocidente, p. 13) diz bem então: “devemos buscar nossa identidade na ‘mistura entre católico e indígena’. Quando falamos de ‘católico’ não estamos nos referindo a uma categoria confessional, mas ao traço distintivo que caracteriza a Weltanschauung do homem europeu desembarcado nas terras do Sul”. É precisamente o catolicismo, historicamente, que sempre conviveu com sobrevivências e costumes pagãos, especialmente nas zonas rurais, fiéis à perspectiva paulina do omnia probate, bonum tenete. E da mesma forma que no nosso Sul, onde 2000 anos não foram suficientes para apagar todos os resíduos pré-cristãos, isso acontece nos Andes e na Amazônia. Aliás, exatamente nestas regiões, em países indolatinos e socialistas como Bolívia, Venezuela, Nicarágua, Equador, algumas das mais rigorosas leis contra o crime do aborto estão resistindo, apesar da pressão dos liberais, tanto dentro como fora.

Por esta razão, os evangelizadores de hoje, agora cada vez mais a reboque dos evangélicos, rasgam um sorriso na sua ingenuidade. Onde não teve sucesso o melhor do catolicismo contrarreformista, o dos jesuítas e das missões – muitas vezes na linha da frente defendendo os nativos dos abusos dos brancos – será que eles pensam que a frágil Igreja pós-conciliar pode ter sucesso, mesmo aquela conservadora esposada pelas viúvas de Ratzinger, ou pelos órfãos de Wojtyla – em cuja presença santa teve lugar o infame encontro ecumênico de Assis? Ou será que estes tradicionalistas do sábado (mais que do domingo) abraçaram aquele ecumenismo que negam por palavras, acabando por admitir que as Bíblias mutiladas e iconoclastas das seitas protestantes são melhores e preferíveis do que o catolicismo sincrético e popular, que venera a Pachamama com o nome da Virgem de Candelária (e vice-versa)?

Os nossos soberanos, fiéis cipaios de Trump, chegam ao ponto de trair a sua própria identidade europeia profunda, para agradar aos sacerdotes do american way of life, mas ainda têm o que aprender. Seus mestres, na ignóbil arte de engraxar sapatos (quando lhes convém) com a língua, ainda estão no ultramar, mas um pouco mais ao sul. Depois do autoproclamado Carnéades Guaidó, e do vice-presidente nacional-militar-católico de grau 33, Hamilton Mourão, a Bolívia nos oferece outro desses personagens, que tentam branquear sua pele brônzea com o detergente da lealdade ao imperialismo com estrelas e listras. A autoproclamada presidente Jeanine Áñez, com cabelos louros tingidos em suas feições mestiças, reavivou a Bíblia (tão fetichizada pelos netos de Lutero e Calvino) contra – em suas próprias palavras – os “ritos satânicos” dos índios, que fariam bem em estar – em suas próprias palavras – “no Altiplano ou no Chaco”, não na cidade. Nestes “negros da casa grande”, a serviço do Tio Sam e do FMI, reemerge de modo papagaiado o mesmo desprezo professado pelas elites globalistas às tradições e culturas dos povos – que, onde não podem ser adocicadas para criar souvenirs do mercado turístico, constituem obstáculos irritantes à livre circulação do capital.

As pessoas à direita podem bem seguir o seu Capitão nesta estrada, até terem sua intemperança perdoada por populistas indisciplinados e serem considerados pelo Patrão como cãezinhos confiáveis, aos quais podem (talvez) atirar ossos e migalhas. Ou parar de macaquear as palavras de ordem do Pentágono e entender que na luta pela soberania nacional, todos os povos são irmãos, e que o simples slogan “Senhores da nossa casa” se aplica a todas as latitudes.

Andrea Virga

Historiador, PhD em história política e autor do livro Cuba: Dio patria socialismo.

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