2013 e a Crise da Nova República

Não é possível resgatar coerentemente o nacionalismo popular no Brasil sem uma correta leitura sobre o significado das jornadas de junho de 2013. Os acontecimentos que explodiram naquela ocasião estabelecem um dos melhores critérios para saber quem está, na verdade, disposto a superar o esquema de poder estabelecido na Nova República ou aqueles que desejam, consciente ou inconscientemente, somente uma reedição camuflada do lulopetismo.

Para os defensores do PT 2.0, o momento da história recente do país que serve de parâmetro para suas ações políticas foi o ”golpe branco” desfechado contra Dilma no processo político de 2015/16. O golpe teria provocado uma ruptura com uma época dourada de democracia e políticas socializantes e nos levado ao domínio de reacionários, direitistas, liberais, agentes da CIA, fanáticos religiosos e fascistas.

Óbvio que essa perspectiva algo radical que desenhei no parágrafo anterior é um ”tipo” que possui diversos matizes. Muitos filopetistas possuem gradações menos risíveis dos governos Lula e Dilma. Muitos deles fazem críticas ao período de hegemonia petralha, e encaram aqueles anos com um olhar bem mais razoável. No entanto, todos estabelecem o golpe branco de 2015/2016 como um divisor de águas entre duas eras.

Essa narrativa não tem espaço para a irrupção popular de 2013. A mitologia ensinada pela cartilha petista ensina que naquele momento vivíamos o auge da tolerância, da distribuição de renda, da democracia política e do sucesso econômico. Assim, os movimentos de rua que se massificaram e ajudaram a corroer os fundamentos do poder lulista só poderiam ter vindo da direita escravocrata orquestrada com uma agência estrangeira que encarava a hegemonia petista um grande perigo para seus interesses.

Já que a instabilidade de 2013/14 corroeu os mediadores do sistema que eram dominados pela máquina eleitoral do PT, o diagnóstico dos protestos não pode ser outro para os militantes do sapo barbudo: as multidões que tomaram as ruas eram eleitores de Bolsonaro com cinco anos de antecedência.

Não basta mais nada para a construção de uma farsa conspiratória capaz de remodelar até a memória dos que se deixam hipnotizar pela sereia PTelha: o governo Dilma seria desenvolvimentista, sua política externa era um perigo para os Estados Unidos da América, a ascensão das classes mais pobres ameaçava a hierarquia social brasileira. O resultado teria sido uma revolução colorida no país, levada adiante pela CIA nas redes sociais e que com a ajuda da Rede Globo colocou milhões nas ruas naquele mês de junho, e que manteve a chama da rebelião acesa pelo menos até março de 2014, usando slogans contra a realização da Copa do Mundo e o impacto das greves do funcionalismo público.

Um mínimo de discernimento já é suficiente para notar o caráter alucinatório desse discurso, que possui erros factuais e de análise graves, e vai na direção contrária ao que os estudos e pesquisas sobre 2013 produzem. Mas as vítimas do delírio não estão preocupados com esses ”detalhes”. Eles se consideram portadores de uma verdade quase que palpável, e que orienta a construção de todo um projeto político.

A verdade é que o momento inaugural de subordinação do Brasil ao consenso neoliberal foi a eleição de Collor. Mais até, foi a derrota de Brizola para Lula no primeiro turno por apenas meio por cento dos votos válidos. Desde então se consolidou no país uma estrutura de disputa dentro dos marcos do liberalismo dominante.

Essa estrutura era centrada em partidos nascidos em São Paulo, nas teses sociológicas da USP, em uma macroeconomia financeirizada, e na adesão aos princípios norteadores da agenda globalista do Partido Democrata ianque [com uma leve, porém não radical, oposição à agenda mais unilateral do novo século americano, do Partido Republicano]. Os marcos dessa arquitetura política incluíam a inserção do Brasil em uma nova divisão internacional da produção e na importação dos padrões de consumo/costumes definidos pelo cosmopolitismo ocidental.

Eis o esquema que foi mantido, com leves modificações, pelos governos eleitos de 1989 para cá. O PT nasceu e cresceu para ser o lado esquerdo desse modelo, sem que no entanto o desafiasse seriamente em suas linhas principais.

2013 foi o ano em que a arquitetura da Nova República foi abalada, sacudida e desafiada pela emergência do povo COMO ATOR POLÍTICO. Esse abalo estrutural da Nova República continua ainda hoje, seja porque a agência do povo é suficiente para mantê-la em xeque, seja porque existem movimentos organizados que dependem da demolição desse sistema para levar adiante seus projetos.

O fato, porém, é que os mediadores do sistema da Nova República, cujo pacto remonta ao governo de Collor, estão na defensiva. Abriram-se novas possibilidades. Delas podem surgir uma condição melhor ou pior para o país. No momento são piores, pois o ”outsider” que surfou melhor a onda e cuja narrativa tem predominado foi imã para o pior dos esgotos da sociedade brasileira.

Mas isso não era uma necessidade escrita em 2013. Poderia ter sido diferente. Poderia ter emergido um nacional-populismo de viés trabalhista, o mesmo que foi derrotado com a consolidação da Nova República.

Uma das razões porque Vargas ainda não voltou é que muitos que dizem que querem vê-lo retornar ainda estão apegados ao ”tempo mítico” anterior a 2013. Muitos sonham na verdade com o ressurgimento da ‘‘pax petista”, que se acotovelava com o PSDB e similares pra executar o mesmo programa neoliberal e globalista que era consenso de todos.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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