Paul Cockshott – Brexit, imigração e exploração

Fonte: https://paulcockshott.wordpress.com/2016/06/27/brexit-imigration-and-exploitation/?fbclid=IwAR33NkscJWwNH-utyasvWemE9hcdI7bg0gEfnUCvvxEI-5oGnpbCFG6kwgU

As migrações em massa possuem um impacto positivo ou negativo sobre as condições laborais? Elas são boas ou ruins para os trabalhadores? Segundo a narrativa hegemônica as migrações em massa são ditas “boas para a economia”, mas nunca nos é dito exatamente o que isso significa. Em paralelo, a esquerda insiste em defender um “mundo sem fronteiras” e que o capital é contra as migrações. O economista Paul Cockshott aborda diretamente essa questão neste texto traduzido por nós, e demonstra: a imigração possui um efeito negativo para o trabalhador, e por isso ela é promovida pelas forças do capital.

Um dos principais debates durante a campanha do referendo foi sobre se a imigração exercia ou não uma pressão descendente sobre os salários. Isto foi discutido de forma proeminente durante os debates na TV e se as pesquisas da Ashcroft merecem crédito, a segunda razão mais importante dada pelos eleitores pró-Brexit para a sua escolha de voto era o fato de que sair da EU era “a melhor oportunidade para o Reino Unido recuperar o controle sobre a imigração e as suas próprias fronteiras”.

Entre os apoiantes trabalhistas e conservadores que votaram a favor do Brexit, a consideração mais importante foi: “O princípio de que as decisões sobre o Reino Unido devem ser tomadas no Reino Unido”.

Desde o resultado do referendo, os meios de comunicação social estão cheios de eleitores que se queixam da ignorância e xenofobia dos eleitores da classe trabalhadora do Norte, que deram o controle das fronteiras como motivo para votar contra a UE. Mas os receios expressos sobre os efeitos da imigração proveniente do interior da UE eram apenas preconceitos ignorantes, ou refletiriam algo real?

A campanha anti-Brexit, durante os debates televisivos, enfatizou a contribuição dos trabalhadores imigrantes para a economia e particularmente para o NHS, salientando que eles eram trabalhadores duros que pagavam impostos e contribuíam para o tesouro nacional. Mas isso era completamente irrelevante. Não se reduz as preocupações das pessoas dizendo que os imigrantes da UE trabalham arduamente. Trabalhadores duros que aceitam receber baixos salários provavelmente parecerão ameaças maiores do que pessoas mais relaxadas.

Será que a concorrência com a mão-de-obra imigrante tende a reduzir os salários reais?

Para testar isto, registrei a taxa de exploração no Reino Unido em relação ao número de pessoas que entram no país todos os anos. A taxa de exploração mede quantos pence de lucro e juros cada trabalhador gera para o seu empregador. Por exemplo, se a taxa de exploração é de 70%, isso que significa que, para cada 1 libra recebida pelos trabalhadores, eles geram 70 pence de lucro para seus empregadores.

Aqui está um gráfico de dispersão mostrando a relação entre imigração e exploração no Reino Unido desde 1970.

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Cada ano é mostrado como um ponto com a posição X sendo o número de imigrantes nesse ano, e a posição Y sendo o lucro em libras produzido por cada libra paga em salários. É bastante claro que nos anos em que a imigração é alta, a exploração é alta. O ano com a menor taxa de exploração de 53 pence/libra teve 200.000 imigrantes, o ano com a maior exploração, 89 pence/libra, teve 589.000 imigrantes. No geral, a correlação entre imigração e exploração foi de 75%.

A correlação mede qual porcentagem da variação de uma coisa que é explicada por outra. Isto mostra que 75% da variação na exploração ano a ano, é explicada pela variação na imigração ano a ano.

Agora, a explicação estatística não implica necessariamente causalidade. Se tivermos uma teoria causal ligada a fenômenos, então a correlação fornece evidências confirmatórias para a teoria, mas você precisa primeiro de um modelo causal.

Bem, há uma teoria que explica porque devemos esperar isto. Ela foi exposta no capítulo do Capital de Marx que trata da lei de acumulação de capital. Ele descreveu um processo pelo qual períodos de rápida acumulação de capital reduziriam o desemprego, aumentariam os salários e reduziriam a exploração. Isso, disse ele, provocaria uma reação. Uma acumulação mais lenta, então, aumentaria o desemprego e permitiria que a exploração aumentasse. Basicamente, quanto mais competição os trabalhadores tivessem daquilo que Marx chamava de Exército de Reserva do Trabalho, maior seria a taxa de exploração e vice-versa.

O que a decisão de Tony Blair de permitir a livre circulação de trabalhadores dos da UE fez foi aumentar drasticamente a dimensão do efetivo exército de reserva de trabalhadores que competem com os trabalhadores daqui. Isso aumentou necessariamente os lucros às custas dos salários. Quando militantes anti-Brexit entre trabalhistas e conservadores fingem que isto não estava acontecendo, pura e simplesmente não se acreditou neles, o que constitui uma razão fundamental para o fracasso da campanha anti-Brexit.

Os países que permitem uma imigração fácil podem compensar a tendência de queda da taxa de lucro.

A imigração impulsiona a população trabalhadora de três maneiras:

1 – Ela compensa direta e imediatamente uma baixa taxa de natalidade. Este não é um problema no Reino Unido, mas é na Alemanha.

2 – A taxa de atividade dos imigrantes é alta porque eles estão desproporcionalmente em idade laboral.

3 – As famílias de imigrantes tendem a ter taxas de natalidade mais elevadas do que a população estabelecida dos países capitalistas desenvolvidos, de modo que compensam indiretamente a baixa taxa de natalidade dos primeiros.

Um crescimento mais rápido da população aumenta a taxa de lucro através de dois mecanismos distintos. Por um lado, uma expansão mais rápida da força de trabalho aumenta a concorrência por empregos e permite aumentar a taxa de exploração. Em segundo lugar, uma população crescente absorve o capital acumulado, impedindo, ou pelo menos desacelerando, o aumento da relação capital/trabalho.

O que vemos no Reino Unido não é alguma idiossincrasia, mas uma tendência geral do capitalismo. A rentabilidade e a exploração são ajudadas por forças de trabalho em rápido crescimento.

O efeito de uma população em rápido crescimento é mais notório se compararmos uma economia capitalista emergente como a África do Sul com uma economia madura como o Japão.

À esquerda vê-se a tendência da taxa de lucro na África do Sul, à direita a população. A linha sólida à esquerda é a taxa de lucro prevista, obtida pela comparação da acumulação de capital com o crescimento da força de trabalho. A taxa de lucro real é a linha pontilhada. Veja como o alto crescimento populacional dá uma alta taxa de lucro previsto, que é alcançada alguns anos mais tarde. Nesses países, o capital acumulado a cada ano é insuficiente para acompanhar o crescimento da população, de modo que a relação capital/trabalho cai. Uma razão capital/trabalho mais baixa dá origem a uma taxa de lucro mais elevada.

Em última análise, é o sexo que impulsiona o capitalismo. A elevada taxa de lucro no capitalismo sul-africano é impulsionada pela produtividade sexual muito maior das mulheres sul-africanas. A fertilidade sul-africana ainda era de 2,5 em 2008 contra apenas 1,3 no Japão. Mas a África do Sul já está no caminho da maturidade capitalista. A sua taxa de fecundidade em 2008 foi apenas metade da sua taxa de fecundidade quarenta anos antes. Em outros países africanos, a transição demográfica está apenas começando. Na Nigéria, a fecundidade em 2008 foi de 5,7 filhos enormes por mulher, na Zâmbia 5,8, na Tanzânia 5,6. A África Equatorial é, no início do século XXI, a última melhor esperança de rentabilidade do capitalismo.

Agora compare com o Japão onde a fertilidade é tão baixa que a população está encolhendo e você vê o que isso faz com as taxas de lucro à esquerda.

Exploração e lucratividade dependem de forças de trabalho em rápida expansão. O fato de a esquerda adotar a cantilena blairita de que a imigração não degrada a posição social dos eleitores da classe trabalhadora é ceder uma economia política realista à UKIP.

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