André Luiz dos Reis – A mídia está descobrindo que Bolsonaro não é populista, nem nacionalista

Uma das marcas da Nova Resistência é fazer, com anos de antecedência, análises sobre os temas e contradições centrais de nossa época, para que depois timidamente as posições de nossas análises sejam repetidas nos veículos midiáticos do establishment. Aconteceu de novo. Estão começando a perceber o que afirmamos há anos: Bolsonaro não tem nada a ver com Trump, Salvini ou Orban. Bolsonaro não é populista, nem nacionalista.

Laura de Carvalho publicou hoje na Folha um artigo muito superior à média de análises que é feita por aí sobre o momento atual da disputa política no Ocidente e em suas margens.

Para quem analisa a situação a partir da Quarta Teoria Política, perspectiva teórica extremamente mais abrangente e profunda do que a esquerda liberal, que é onde a autora se posiciona, não há tantas novidades.

Mas, pela primeira vez, alguém do establishment jornalístico brazuca se propôs a realizar uma análise do que vem sendo chamado de ”populismo de direita” na Europa, comparando-o com o fenômeno Bozó, estabelecendo causalidades e diferenças. E tudo embasado em literatura recente.

Carvalho afirma que o ”populismo de direita” na Europa e EUA [ela inclui Trump na parada, claro] nasce como inimigo do globalismo e da globalização ao mesmo tempo.

É um conservadorismo cultural contra o progressismo, principalmente aquele vinculado à imigração crescente, e também contra as pautas neoliberais implicadas na União Europeia.

O peso principal, diz ela citando pesquisas e livros sobre o tema, está na agenda cultural desse populismo. Mas ele é indissociável de uma crítica ao neoliberalismo. Dois exemplos citados são Orbán e Trump, cujas políticas econômicas se desvinculam explicitamente daquelas que são exigidas pela City e por Nova York.

Já no Brasil parece diferente, se surpreende Laura. Bozó e Guedes não só se aliam com o conservadorismo moral mas também com um neoliberalismo radicalizado, querendo que o país engula uma agenda econômica pinochetista, pra dizer o mínimo, e se possível com Exército na rua para garantir que ninguém proteste contra o fim dos direito sociais e a destruição do Estado.

É uma diferença abissal entre o que acontece na Europa e EUA, em que esses líderes ”populistas” enfrentam os dogmas do liberalismo econômico militante.

Eu não vejo por que a surpresa de Laura: Bozó não é ”populista de direita”. Ele não faz parte de um tímido renascimento do nacionalismo ou da Terceira Teoria Política, como se enganam alguns de seus apoiadores [alô, Accale; alô, FIB]. Essa divergência, que tem consequências amplas, inclusive no terreno geopolítico, desqualifica Bozó como parte desse movimento.

Depois, a economista analisa as causas dessa união esdrúxula entre o conservadorismo moral, o militarismo tacanho, o crime organizado [milícias, jogo ilegal etc.] e o neoliberalismo, e aposta, de modo certeiro, no discurso patrimonialista e udenista representados pela militância anti-corrupção e pelo lava-jatismo criados na esteira da crise de 2015/2016.

Exato: a direita brasileira não é anti-globalista, de fato, ela é udenista e uspiana. O Brasil não está no mesmo ”tempo político” de europeus e ianques. Aqui dentro estamos em uma fenda espaço-temporal que mistura o Brasil dos anos 1950 com o Chile dos anos 1980 e a Argentina dos anos 1990.

Laura se pergunta se é viável para Bozó se manter com uma economia estagnada e que destrói direitos, aumenta desigualdades etc. Se ela estiver correta, diferente da Europa, em que o anti-globalismo tem peso na equação política tão grande ou até maior do que a anti-globalização, em nosso país poderia ser o inverso. A agenda da desigualdade e da economia poderia ser mais poderosa.

Ora, essa é a esperança de lulopetistas e de boa parte do campo da esquerda. Não vou entrar no tema agora, embora já tenha falado dele semanas atrás. Mas resumo com o seguinte:

Não adianta bater na tecla de que a esquerda deve voltar a se digladiar por Justiça Social, formando uma oposição a Bozó em torno de projetos desenvolvimentistas e de distribuição de renda. É necessário, e aqui Laura não entra porque ofenderia seus dogmas progressistas, se aliar ao conservadorismo popular.

A resposta para o pinochetismo udenista e uspiano de Bozó está muito mais na direção de uma versão radicalizada de Orbán e outros ”populistas de direita”, como ela os chama, do que em Mujica, Lula ou outros bananas da esquerda liberal.

Justiça Social, com nacionalismo econômico, adesão aos valores e identidades populares [em vez de abraçar o cosmopolitismo de Londres e San Francisco]. Essa é a solução para o Brasil sair do buraco atual.

Quem tiver coragem para trilhar esse caminho vai resgatar a soberania popular, vai proclamar uma segunda declaração de independência no Brasil.

Enterre Lula, Laura. Precisamos de um Brizola. Precisamos de um Getúlio. Precisamos de populismo. De um populismo fanaticamente anti-liberal.

Laura de Carvalho caiu na real. A real que o Nova Resistência manda há anos.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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