P. Kishore Saval – As artes não liberais

Tradução: Marina Naves

Por milhares de anos, as artes liberais não foram liberais, e é por isso que elas são cada vez menos bem-vindas em nosso tempo. Um estudo honesto do passado é inquietante em uma era liberal porque uma pessoa que aprende a venerar tradições culturais antigas, de Homero ao barroco, pode vir a venerar os valores aos quais essas tradições se devoravam. Esses valores são uma repressão direta à substância do liberalismo. 

“Liberalismo” aqui não se refere à distinção moderna americana entre liberais e conservadores, ambos sendo liberais em todo aspecto importante. Liberalismo é uma ideia governante dedicada à prioridade do indivíduo autônomo e cheio de direitos — um indivíduo definido contra, ao invés de constituído por, uma comunidade e suas tradições herdadas. Nos primeiros séculos do liberalismo, o comprometimento com essa ideia do indivíduo pareceu ter liberado uma criatividade imensa e ter alcançado benefícios reais. Mas poucos falham em perceber que sociedades liberais estão no fim de sua vitalidade e energia criativa.  Agora se tornou aparente para muitos que o liberalismo não funciona — que ele degradou nossa liberdade espiritual, empobreceu o mundo do sentido e nos desumanizou frente ao poder do dinheiro. Contudo, o liberalismo também nos impede de achar nosso caminho para fora da bagunça que ele criou. Ele tem apenas alguns séculos e ainda assim essa recente forma de governo está sendo tratada como uma condição eterna da humanidade, e da qual não pode haver dissidência ou alternativa. Quando tentamos diagnosticar nosso transtorno, nós apenas podemos fazê-lo por meio de uma história prejudicial que falsifica o passado, e, portanto, impede qualquer verdadeiro entendimento do presente. Nesse contexto, a destruição de uma autêntica tradição de artes liberais não é difícil de entender.

Muitos vão dizer que nosso declínio cultural não é um resultado do liberalismo ele mesmo, mas do seu último e mais decadente estágio, que pode ser chamado de “neoliberalismo”. Essa afirmação é correta em partes. No ponto mais alto do liberalismo, monumentos, teatros, jardins, estações de trem e casas de ópera apareceram em rica profusão. A filosofia de Hegel e a música de Beethoven ofereceram uma nova missão para o indivíduo e para o estado. Até nos Estados Unidos pós-New Deal, o liberalismo promoveu arte e obras públicas em enorme escala. Mas desde os anos 1970, o liberalismo entrou em seu estágio plutocrata e movido a finanças. Em uma era de finanças e plutocracia, o liberalismo é mais comprometido com cortar fundos do que com construir; com a desconstrução do que com a cultura; com o ataque reprovador à criatividade ao invés da sua promoção e celebração.

Estaríamos errados, entretanto, se víssemos nosso neoliberalismo dominado pelas finanças como uma perversão da ordem liberal, e se presumirmos que podemos simplesmente voltar para os dias criativos do liberalismo. O neoliberalismo plutocrata não é uma perversão do liberalismo, mas um estágio decadente do ordem liberal que não mais reconhece nenhum rival. A afirmação de Francis Fukuyama que o liberalismo havia triunfado e nos levado ao “fim da história” foi um sinal de que a ordem liberal não mais precisava legitimar o seu poder. Apenas em tal estágio, quando a natureza do liberalismo é obscurecida pela seu conflito com visões passadas, e quando a ordem liberal não mais precisa justificar-se contra alternativas, é que a natureza sem propósito e desumanizante do liberalismo completamente se revela.

Liberalismo sem adversários

O liberalismo parece ter objetivos criativos apenas quando precisa lutar por legitimidade. No começo, seus novos monumentos assinalaram a rejeição do ideal barroco, que havia dado uma união aristocrática e eclesiástica à cultura. As novas obras públicas do liberalismo tinham que estabelecer a validade de uma nova ordem baseada em uma concepção diferente de vida. A arquitetura e a arte autônomas, não mais ligadas a fim religiosos e reais, tiveram que ter fim em si mesmas. Até na era da Guerra fria, a cultura burguesa e ocidental teve que se colocar contra a alternativa soviética.

Mas quando o liberalismo sente que sua posição é segura, a era das obras públicas, e até mesmo da cultura, chega ao fim. A “autonomia” das artes as degradam e as tornam uma especialização vazia e tecnocrática, e a era liberal não tem que lutar pela legitimidade por meio da construção de monumentos públicos. Pelo contrário, o neoliberalismo retira os fundos da infraestrutura e da cultura, enquanto os intelectuais “criticam” a própria ideia de ordem. Mais importante ainda, a tarefa de de tirar fundos e de criticar precisa que sejam suprimidas e apagadas visões alternativas do passado.

O “fim da história” não significa o fim da ideologia, mas sim o triunfo da ideologia liberal. Para criar a fantasia que estar-se disposto a destruir todos os altos objetivos é, em verdade, uma eterna condição da humanidade, é necessário manter um esquecimento histórico ativo. Em nossa era, o liberalismo deve não apenas falsificar tudo do passado que é considerado “não liberal”, mas também falsificar seu próprio passado liberal, na qual a ideologia teve que lutar por legitimidade contra outras visões de ordem.

O liberalismo agora apenas permite duas visões sobre o passado. Na visão “Whig”, que começou com gênios como Edward Gibbon e Thomas Babington Macaulay — mas que agora sobrevive na degradada forma de escritores como Steven Pinker — a história é afirmada como o desdobramento de nossa inevitável marcha rumo ao liberalismo e à racionalidade. Na crítica liberal tardia ou “pós-moderna”, ao contrário, o status quo é apoiado indiretamente por meio de ataques ao passado — até mesmo o passado liberal — em uma maneira que apenas beneficia as elites da ordem existente.

O liberalismo Whig conta uma história simples: era uma vez em que a humanidade vivia na era da crueldade, superstição e servidão. As mentes eram escravizadas pela Igreja e pela aristocracia. Mas um dia, por causa do Renascentismo, o Iluminismo, ou o que você quiser, nós nos libertamos da nossa imaturidade e nos colocamos no caminho para nos tornarmos a sociedade racional, iluminada e liberal que somos hoje.

Enquanto isso, a crítica pós-moderna liberal é centrada na “desconstrução”. Ela propõe que as tradições do passado são ideologias em serviço do poder. O objetivo da educação liberal pós-moderna é desmascarar essas ideologias. Como todas as estratégias liberais, essa crítica promete liberdade mas entrega coerção, nesse caso por meio da negação de qualquer alternativa ao liberalismo, até quando o rejeita.

Histórias liberais dominam universidades, porque nossas universidades são as aias da plutocracia. É possível ainda duvidar disso quando estudantes nos Estados Unidos se graduam como escravos de uma dívida com as instituições que recebem fundos das de oligarcas? Ainda assim, a supremacia dos plutocratas não é menos poderosa na ostensiva “anticapitalista” ou esquerdista enclave dos departamentos de humanidades que involuntariamente se tornam agentes da própria coisa que eles dizem lutar contra e desprezar. Os ataques de Michel Foucault às instituições e regimes estatais de “policiamento” e “vigilância” estão em conformidade com o desmantelamento do setor público pela elite, e as críticas do capitalismo fordista, como a de Theodor Adorno e da escola de Frankfurt, estão fundamentalmente em acordo com a destruição do legado do  New Deal por Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Bill Clinton, e todo o resto.

As elites neoliberais financeiras e os professores “radicais” das humanidades não são opostos entre si, mas sim manifestam o mesmo espírito da era. Quer seja intencional ou não, ambos avançam os objetivos da plutocracia. Plutocratas se opõem a qualquer hierarquia que ameace sua própria supremacia. O ataque pós-moderno às hierarquias e tradições do passado é, portanto, não mais “anticapitalista” do que a economia supply-side. Pelo contrário, é um instrumento na eliminação das reais alternativas ao neoliberalismo.

A redução da memória histórica a uma memória Whig por outro lado e a crítica pós-moderna por outro previne uma séria e honesta apreciação do passado. A História agora ou é afirmada como desdobramento do inevitável triunfo do liberalismo, ou atacada para o benefício da atual ordem liberal. Sob poucas circunstâncias, no entanto, o passado pode ser afirmado para qualquer coisa que desafie os pressupostos liberais.

Ao recusar a honestidade sobre seu passado, o liberalismo se revela como sendo uma ideia governante sem conteúdo: é agora livre, mas apenas para se afirmar. Uma vez que o liberalismo derrota outras ordens e tentativas de estabelecer seus próprios altos objetivos, ele percebe que não tem altos metas para promover. A única coisa que na qual o liberalismo infalivelmente avança é  na força destrutiva do poder. O liberalismo afirma se centrar nos indivíduos autônomos definidos por direitos, particularmente o direito à satisfação de desejos que apenas o indivíduo pode determinar. Mas esse princípio de autonomia e direitos necessariamente significa a recusa dos fins: fins que não são da escolha dos indivíduos e demandam a renúncia do desejo. O poder então deve destruir todas as hierarquias voltadas aos fins. Isso é nada menos do que a inversão dos valores que por milênios produziram o legado das artes liberais.

A redução de toda hierarquia de fins ao poder como base para direitos é central para uma obra fundamental do liberalismo: o Leviatã de Thomas Hobbes.  Enquanto a Política de Aristóteles toma afirmações sérias para organizar uma sociedade em torno de fins e propósitos mais altos, Hobbes afirma expor todas essas reivindicações a propósitos e fins como meros pretextos para o exercício do poder. É a guerra de tudo contra todos emergindo do desejo de poder que dá à luz à ideia dos direitos individuais. Cada indivíduo em um estado de natureza governado apenas pelo desejo de poder tem um direito ilimitado, o que ameaça os desejos ilimitados de todo mundo.

A ideia de que todas as hierarquias são enraizadas apenas em poder é implícita a qualquer investigação histórica e cultural em nosso tempo. Não apenas a monarquia, a aristocracia e a Igreja, mas também a arte, a beleza e todos os altos ideais são postos sob as lentes por liberais e escrutinados por sua relação com o poder. Em escolas e universidades, desmascarar o elemento do poder nas tradições do passado é considerado um requerimento da educação, bem como um elemento necessário para o “pensamento crítico”. Contudo, a redução da hierarquia ao poder já impõe uma metafísica liberal sobre nossa investigação. Estudar a hierarquia não liberal pela perspectiva do poder tendenciosamente pressupõe como seu ponto de começo o primeiro princípio do liberalismo.

Os limites do poder

Um estudo honesto do passado não imporia a estrutura liberal a hierarquias não liberais que pretende investigar. Um estudo honesto do passado reconheceria uma distinção que tem sido central para a humanidade ocidental por milênios antes do liberalismo: a distinção entre poder e autoridade. O Papa Gelásio, do século quinto, escreveu: “aquilo que governa o mundo é duplo: a autoridade sagrada (auctoritas) dos pontífices e o poder dos reis”. Ali, na observação de Gelásio, há uma misteriosa dispensa cujo brilho manifesta uma das mais importantes divisões da nossa civilização.

A ideia de autoridade vem da Roma clássica, que declarou que o poder pertencia ao povo, e a autoridade ao Senado. Quando Augusto se tornou imperador de Roma, ele minimizou a afirmação do poder e reservou para si próprio a mais alta auctoritas: “Eu superei a todos em  auctoritas”, diz Augusto em sua Res Gestae, “embora eu não possuísse mais poder oficial do que os outros que foram meus colegas em diversas magistraturas”.

O que é essa “autoridade” cujas demandas são tão pouco inteligíveis para nós? Paul Zanker, o grande historiador do legado de Augusto nas artes, explica que a autoridade é uma forma de liderança em que obras públicas, reavivamento moral e respeito pela tradição  estão envolvidas em uma ideia hierárquica. Hannah Arendt, uma das poucas pensadoras recentes a reconhecer a importância do conceito de autoridade, escreve: “A autoridade é a fonte da obediência voluntária”.

A autoridade é repugnante para o liberalismo porque a antítese de um indivíduo autônomo e portador de direitos é alguém que usa sua liberdade para renunciá-la pelo bem de um valor mais nobre do que tanto o poder quanto a aquisição de direitos. Reconhecendo a autoridade, o indivíduo permite que algo maior do que si próprio penetre e ponha ordem em sua vida. Diferente do poder, a autoridade não pode ser inteiramente controlada ou desejada pelo ego humano. Interesses poderosos podem tentar manipular a autoridade, mas a tradição e o comprometimento a um reino sagrado e transcendente impõem limite a tal manipulação. Contudo, uma vez que os sujeitos humanos descartaram completamente a reverência pela autoridade em troca do desejo pelo poder, as suas susceptibilidade à manipulação dos poderosos é quase ilimitada.

A afirmação de Augusto de que ele havia renunciado ao poder em favor da autoridade não foi completamente verdadeira, é claro. Suas pretensões à autoridade muitas vezes mascarou o uso de força bruta, coerção e violência do tipo mais sangrento. Ele se gaba em Res Gestae sobre quantas crianças de reis derrotados foram ostentadas em triunfos. Não foi injustamente que Edward Gibbon o chamou de “tirano sutil”. Enquanto estamos ligados a essa vida terrestre, nós nunca vamos achar uma autoridade pura da liga do poder. Mas apesar das reivindicações de Augusto à autoridade contenham mentiras misturadas com verdades, é a nossa tarefa não apenas desmascarar as mentiras, mas também achar o elemento de verdade nelas.

Augusto reivindicou a autoridade ao invés do poder para si mesmo para restabelecer a conexão entre os trabalhos públicos e o renovação espiritual, entre a tradição e a missão cívica. A negligência com a infraestrutura pública era notória durante os últimos dias da oligárquica República Romana. “Desde a primeira grande crise interna do período de Gracchan”, diz Zanker, “os reparos necessários nos templos e construções públicas, especialmente o desenvolvimento de uma infraestrutura razoável e um plano de cidade foram completamente negligenciados”.  A negligência com o setor público e a privatização da esfera pública atormentou a República romana tardia do mesmo modo que o faz com os Estados Unidos (e muito do Ocidente) hoje. O impulso construtor durante a República Romana era devotado primariamente às villas e outras expressões de luxúria privada do que à glória pública.

No Império Romano a autoridade ligava o regime público com o contínuo compromisso de renovar, reconstruir e reordenar o espaço público. Uma ideia dessas é uma ameaça moral direta ao nosso tempo de austeridade neoliberal. Nosso neoliberalismo plutocrata é devotado, como devemos dizer, não às obras públicas, mas aos cortes de fundos do reino público.Não deveria nos surpreender, portanto, que em nossa era o senso augustiano de autoridade é estigmatizado como “não liberal”. O mais venerado historiador do reino de Augusto no período pós-guerra, Ronald Syme, retratou-o como um proto-fascista nas linhas de Mussolini ou Hitler. Em departamentos de literatura, a grande épica imperial de Virgílio, a Eneida, é muitas vezes absurdamente ensinada como uma obra “subversiva” desenhada para minar o projeto de império.

Autoridade espiritual e o desenvolvimento de personalidade

Na declaração do Papa Gelásio, uma dimensão espiritual de autoridade emerge excedendo até mesmo a auctoritas de Augusto. Essa dimensão espiritual da autoridade não é originalmente de Gelásio mas está enraizada nos evangelhos cristãos. No cerne do do Cristianismo está o mistério do que é chamado de “encarnação”: o fato de que Deus se torna um homem que se submete voluntariamente ao sofrimento ao invés do exercício do poder e coerção para vencer o mal do mundo e alcançar a vontade de Deus. A encarnação de Cristo reflete a verdade, não de que Deus não tenha poder para vencer o mal, mas de que o mal não pode ser vencido pelo poder. 

A ideia de que a vida espiritual da cristandade obteve sua autoridade por meio de um pessoa humana e histórica estabeleceu a personalidade humana como um elemento indispensável da civilização européia. A experiência da vocação é ponto central dessa idéia espiritual de personalidade. “A vocação é, por definição, um chamado”, diz Denis de Rougemont, “e requer que outro te chame”. O projeto liberal é centrado na ideia secular de liberdade e autonomia, mas a autonomia destrói a vocação. Nós não podemos chamarmos a nós mesmos, e portanto nossa autonomia aniquila a possibilidade de destino individual e, com isso, um autêntico senso de personalidade.

Quem pode afirmar honestamente que a promessa do liberalismo de autonomia promoveu o completo desenvolvimento da personalidade? O desmantelamento da hierarquia e da autoridade deveria ter libertado a individualidade, mas ao invés disso, acabou desencadeando  um regime de padronização e burocracia. Antes do triunfo do liberalismo, a negação da personalidade humana era vista como uma calamidade pior do que a morte na história e literatura européias. Romeu e Julieta, São Francisco, Joana D’Arc ou Tristão e Isolda não temiam a morte: eles temiam a perda da vocação criativa única que era pessoalmente e intransferivelmente deles. Enquanto isso, em nosso tempo, a corporação, uma entidade impessoal, ganhou os direitos das pessoas, enquanto a personalidade está em todo lugar, desvalorizada por nossa cultura fraca e empresarial.

A importância do lugar

A destruição da personalidade em nossa era também é resultado da supremacia desenfreada da finança, que subordina a vocação pessoal ao poder impessoal do poder. Friedrich Nietzsche diz que a grande divisão na cultura européia está entre aristocratas e padres. Mas um conflito igualmente decisivo em nossa história tem sido entre elites fundiárias e as financeiras. O liberalismo desde os seus primeiros dias tem sido assegurado pelo poder do dinheiro e tem se colocado contra a aristocracia, o regime monárquico hereditário e contra a Igreja Católica.

O argumento liberal contra a elitismo detentor de terra é de que ele leva ao declínio da iniciativa e da inovação. Os liberais argumentam que as elites fundiárias são tão seguras de sua posição que rapidamente perdem a energia e o desejo por criatividade.  Na sua lentidão e inércia, a aristocracia latifundiária impede a possibilidade de mobilidade social. Todas essas críticas financeiras contra a ordem fundiária estão corretas.

O argumento feito em nove das elites fundiárias, no entanto, é de que a conexão com a terra enraíza uma classe governante em um lugar e em uma cultura particulares. A terra cria um senso de compromisso não apenas consigo mesmo, mas com as próximas gerações. Uma conexão concreta entre os vivos e os mortos criada pela ideia de herança territorial é um marco sobre a especulação desenfreada do dinheiro, que não precisa estar enraizado em nenhuma tradição ou lugar específico. Essas defesas da elite fundiária também estão certa.

Tanto o elitismo financeiro quanto o fundiário foram essenciais para o desenvolvimento da civilização. Muitas das maiores conquistas na história européia — da arquitetura gótica à Renascença e por aí em diante — não teriam sido possíveis sem o desenvolvimento de uma vida comercial e do crescimento das cidades do século décimo em diante. Não há dúvidas de que as conquistas da cultura européia pareceram ter sido maiores onde a vida comercial era mais forte — quer seja em Veneza, Pisa, Bruges, Ghent, Ipres, Florença ou  Milão. Contudo, essas cidades comerciais obtiveram muitos dos seus valores por meio da Igreja e da aristocracia feudal. O crescimento do comércio na Idade Média também viu a ascensão das ordens mendicantes, tais como os franciscanos e os dominicanos, e o príncipe da Renascença urbana tentou imitar o cavaleiro feudal em muitas maneiras.

A discórdia produtiva entre o elitismo financeiro e o fundiário persistiu até mesmo na sociedade burguesa que precedeu nossa era empresarial. Tanto os burgueses quanto os empresários obtiveram seu poder por meio do dinheiro; mas porque os antigos burgueses foram donos e não apenas empresários, eles eram conscientes de um elo entre gerações, como Thomas Mann deixa claro em seu livro Os Buddenbrooks. A conexão entre dinheiro e tradição também caracterizou os primeiros capitalistas da Renascença. “Os grandes Médicis, quando eles subordinaram o poder do Estado a si mesmos” diz Jacob Burckhardt, “ sabiam que fazendo isso eles assumiram a obrigação pública de construir”.  Os capitalistas da  Renascença subordinaram a finança ao desenvolvimento humano, e enraizaram seu compromisso público em tradições humanistas. Perdendo suas conexões com a propriedade, no entanto, uma era empresarial também perdeu seu enraizamento tanto em um lugar específico quanto em uma tradição significativa. 

A fértil tensão do passado entre o elitismo fundiário e o financeiro assegurou um equilíbrio precário entre tradição e inovação. A destruição ideológica de todas as ideias aristocráticas do passado apenas atrapalha esse equilíbrio e acelera a anarquia plutocrática com o pretexto da libertação. Entretanto, ao articular essa consideração, eu não estou argumentando pelo reavivamento da aristocracia fundiária. Pelo contrário, eu estou argumentando por uma apreciação honesta da nossa história.  A perda de um elitismo enraizado em um lugar concreto e em suas tradições, bem como sua substituição por uma elite global que não vê distinção entre dinheiro e propriedade, veio com um custo social. Avaliar esse custo é nosso dever em uma era de vácuo cultural e dominação plutocrata.

As artes não liberais

Desde que nos recusemos a avaliar esses custos, nós continuaremos nos encontrando perplexos pelo mundo em que habitamos. Muitos se surpreendem com o fato de que em nossa era de decadência liberal os direitos do indivíduo foram dados às corporações, enquanto a autonomia liberal tem cedido ao domínio do capital sem rosto. Mas onde está a surpresa? Nós deveríamos ter percebido por agora que o indivíduo autônomo e cheio de direitos do liberalismo não existe. Ele não é uma personalidade concreta, ancorada em um lugar e em uma tradição, orientado a um destino único, mas sim uma abstração sem raízes e impessoal, assegurada pela redução de cada realidade humana ao poder. É alguma surpresa o fato de que os poderes impessoais do nosso tempo devam preencher esse vazio espaço reservado?

Com uma abstração tão irreal no centro de uma ordem governante, dúvidas profundas sobre a viabilidade do liberalismo em longo prazo são inevitáveis. No seu período mais produtivo, o liberalismo obteve sua energia prometeica de uma revolta contra as hierarquias prévias. Mas o liberalismo não pôde viver para sempre nas energias espirituais emprestadas das quais ele diz querer se libertar. 

Quando o liberalismo precisa aceitar de verdade as consequência de estabelecer-se em seus princípios, ele se encontra incapaz de cumprir com suas promessas.  O liberalismo promete autonomia, mas traz a subordinação ao poder. Ele promete a individualidade, mas traz a degradação da personalidade. Ele promete liberdade, mas leva a uma busca por acumulação privada que mina a legitimidade das suas grandes obras públicas.

Portanto, um estudo mais verdadeiro das artes liberais é indispensável. Milênios de história e cultura oferecendo alternativas ao projeto liberal podem nos ajudar a avaliar o custo humano das nossas próprias sociedades. Mas para tal estudo ser possível, nós devemos escutar as vozes do passado quando elas afirmam seus próprios valores. Nós não devemos estigmatizar toda hierarquia e autoridade que desafiam nossas próprias ideias como “não liberais”. O objetivo desse estudo não deve ser nos congratular, mas sim reconhecer os limites das nossas suposições.

Um estudo honesto do passado não será fácil, pois os poderes do nosso tempo estão contra isso. As artes liberais não colapsaram apenas por causa do filistinismo. Elas colapsaram porque uma era de decadência liberal demanda a ativa destruição da memória histórica. Uma recuperação das tradições que eu descrevo iria, portanto, ser mais do que apenas um incômodo ao liberal: ela seria um ato de rebeldia contra a ordem atual.

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