Gerardo Mello Mourão – Crime hediondo

Texto publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 1 de maio de 1997.


Heidegger foi eleito bode expiatório pelos neobobos que querem promover-se à custa de sua grandeza


GERARDO MELLO MOURÃO
Os crimes hediondos estão na ordem do dia. A nova cominação alcança o sequestro, o estupro e deverá abranger também o tráfico de drogas, a tortura, a violência física praticada por policiais civis e militares, e casos como o da fogueira humana em que uns meninos vadios assassinaram o inocente índio pataxó adormecido num banco de rua da capital do país. Se é difícil chegar à conclusão judicial sobre a culpa dos criminosos -penosa tarefa dos juízes-, é fácil, porque decorre de noções elementares do próprio direito natural, acessíveis à sensibilidade primária de qualquer pessoa normal, identificar a hediondez dos delitos clamorosos.

Distinguir entre a hediondez do crime e a hediondez dos criminosos é problema para angústias metafísicas do julgador. Ninguém sabe até onde pode chegar a aventura do ato gratuito, aquele ato gratuito das especulações de Gide na novela famosa, “Les Caves du Vatican”, com as experiências de seu herói, o jovem Lafcádio de Baraglioul, que se dedicava ao crime pelo crime, como outros fazem a arte pela arte.

Nesses subterrâneos do Vaticano do romancista, ninguém distingue as fronteiras da consciência moral entre o ato e o fato. São sutilezas aristotélicas para as quais os burocratas oficiais de direitos humanos são incompetentes e desatentos. Mas isso é outra história. É e não é. Pois o crime hediondo, do índio em chamas na noite de Brasília, nos chama a atenção para outro tipo de crimes hediondos, que vêm sendo praticados neste país, onde prospera o jornalismo de denúncia, mas que não conhece ainda aquilo a que Dostoiévski chamava a “literatura de denúncia”. A literatura de denúncia vem dos profetas judeus e dos trágicos gregos. Passa pelos grandes escritores do Ocidente e alcança seus mais altos momentos entre os russos anteriores ao marxismo. Tem expoentes na Espanha, como Cervantes e Fernando de Rojas, com sua obra imortal, a “Celestina”, que, no fundo, denuncia a transformação do mundo num bordel, em que a lei é gozar a vida. “Gozo, luego existo” -diz a Celestina.

A literatura de denúncia foi a primeira voz no mundo a indiciar os réus de crime hediondo. “Hediondo”, como se sabe, vem do latim “hoedus”, que significa “bode”. Hediondo, assim, é aquilo que tem um mau cheiro abominável, um fedor característico. A acusação de hediondo, supondo sempre um mau hálito caprino -a emanação do bode, que identifica o Diabo, o Sujo, o Satanás, na iconografia cristã-, foi atribuída pelos teólogos brutais da Inquisição às doutrinas do Talmud judaico. Bastava o “foetor judaicus”, o “fedor de judeu”, para levar à fogueira o mais santo e honrado filho de Israel.

A expressão, oficial desde a Idade Média nos processos do Santo Ofício, era tão monstruosa que o Papa Pio 12 ordenou sua eliminação dos textos de todos os dicastérios eclesiásticos. E firmou a doutrina de que acusar um ser humano de “foetor” -fedor- constitui o mais grave dos crimes, o mais grave dos pecados -o pecado contra o espírito, o único pecado de qual ninguém pode ser absolvido.

Pois bem. No caderno Mais! deste jornal sério, a Folha, edição de domingo, 20 de abril de 1997, um pobre escritor americano, a quem o editorialista dá o título de filósofo, publica um artigo intitulado “O fedor de Heidegger”.
Nenhuma pessoa de mediana informação cultural, sobretudo depois do livro irrespondível de François Fédier (“La Politique de Heidegger”), tem o direito de atribuir qualquer dolo às relações circunstanciais do límpido pensador alemão com o governo e as idéias de Hitler.

Heidegger foi eleito bode expiatório pelos neobobos que esperam promover-se à custa de sua grandeza. Com maiores razões poderiam referir-se a outros intelectuais na Alemanha e na Itália. O psicanalista Jung foi fundador do Partido Nazista, companheiro de primeira hora de Hitler, e a cruz suástica foi adotada como símbolo nazista por indicação sua.

Max Plank, o pai da Física moderna, era “Partei-genossen” do partido de Hitler. E assim por diante. A lista seria muito grande na Alemanha, na Itália, na Inglaterra e nos EUA.

Joyce e Lawrence assinaram manifestos pró-Mussolini, Ungaretti pediu ao Duce fascista para prefaciar seu primeiro livro de poesia, e o poeta Rilke escrevia, numa de suas Cartas Milanesas, que o criador do fascismo trazia ao mundo a esperança do heroísmo. O próprio Croce, pai do liberalismo dos intelectuais europeus, votou no Parlamento italiano a favor da entrega do poder a Mussolini, depois da Marcha sobre Roma.

A escola a que pertence o desinfeliz autor do artigo do Mais! também denuncia Sócrates, Platão, Plotino e Santo Agostinho como fascistas. Como na insensatez dos dias inaugurais da Revolução dos Cravos, em Portugal, Camões e Fernando Pessoa foram apedrejados como fascistas: o primeiro por haver escrito os “Os Lusíadas” e o segundo por haver assinado manifestos salazaristas. E ainda recentemente, o ex-premiê italiano Andreotti, em entrevista com o Grão-Rabino de Roma, Elio Toffah, perguntou-lhe porque os judeus italianos não se levantaram contra Mussolini. A resposta de Toffah foi imediata: “Porque todos os rabinos da Itália eram fascistas”.

Nem por isso devemos atribuir qualquer “foetor” a esses venerandos rabinos, ou aos nomes exponenciais da cultura do Ocidente, acima mencionados. Muito menos a Martin Heidegger, momento mais alto e mais puro da aventura de pensar de que foi capaz o ser humano neste século.

Gerardo Mello Mourão, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.

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