Breves linhas sobre a Guerra, o Trabalho e o Meio-Ambiente

Por Lucas Leiroz

No passado, os socialistas imaginavam que a tecnologia libertaria o homem da necessidade do trabalho. A história mostrou que estavam errados.

A tecnologia não apenas não aboliu o trabalho como também o brutalizou. E de igual forma, o progresso implicou no desenvolvimento dos conflitos armados.

Antes da revolução agrícola, os diferentes grupos humanos caçavam e colhiam para sobreviver, vivendo na maior parte das vezes como povos nômades e que constantemente se enfrentavam pela posse dos escassos recursos nos territórios onde passavam.

Com o surgimento da agricultura e da vida sedentária, foi possível o advento das civilizações, que, organizadas sob a égide do Estado-Império, passaram a constituir suas forças armadas para a defesa de seus recursos e territórios.

Esse modelo de organização humana perdurou ao longo da maior parte da história e possibilitou as bases materiais e imateriais para os estágios posteriores da civilização.

As modificações internas desse modelo implicaram paralelamente no desenvolvimento econômico-laboral e nas relações inter-civilizacionais (até então movidas principalmente pela guerra).

O protagonismo civilizacional europeu alcança seu apogeu com os Tratados de Paz de Vestfália, que criam a civilização pluriestatal europeia, dentro da qual era válido o Direito Público Europeu e fora da qual não havia o Direito, mas a guerra de extermínio.

Esse ordenamento consolida, por fim, um longo caminho que vinha sendo trilhado na civilização europeia desde o advento dos Estados Nacionais e das conquistas ultramarinas, que desmantelaram toda a estrutura social desestatizante do medievo e possibilitaram o progresso da burguesia e a gestação do capitalismo.

Mas foi apenas com a Revolução Industrial, no final do século XVIII, que testemunhamos uma mudança estrutural nas organizações humanas. Com o surgimento da indústria, foi modificada toda a lógica do trabalho, que perdeu seu caráter pretérito e assumiu a sua face fabril e manufatureira.

O estágio do progresso técnico que mais produziu efeitos brutais na sociedade foi justamente a industrialização extrema dos últimos 200 anos, cujos resultados foram as Guerras Mundiais, que inauguraram a lógica produtiva fabril em campo de batalha, i.e., a capacidade industrial de extermínio; a Guerra Total.

Tal qual o trabalho perde sua lógica artesanal, agrícola e mercantil em prol de uma linha de produção manufaturada e estritamente vinculada às grandes cidades, a guerra deixa de ser uma atividade aristocrática, circunscrita por um código cavalheiresco de soldados irmãos para se converter gradativamente no espetáculo do extermínio indiscriminado.

A Mobilização Total é um fenômeno das fábricas e das trincheiras. A fábrica é precisamente o microcosmo da sociedade moderna. Tudo nesta sociedade é uma réplica da fábrica. A escola, a vida política, a segurança e a guerra são baseadas no modelo industrial.

Mas a tecnologia não é estática e seu progresso trouxe uma deterioração dessa condição, tanto para operários quanto para soldados.

Com o advento da pós-modernidade esse fenômeno é elevado a um grau inimaginável de insegurança coletiva. A lógica de fábrica é substituída pelo fenômeno da uberização, que extingue o controle policial coercitivo e impõe aos obreiros um controle invisível e mil vezes mais eficiente: o controle da máquina.

O operário deixa de ser funcionário para ser um número. Ele não mais se submete ao controle direto pela coação física, mas crê realmente ser livre, autônomo e estar engajado em um “empreendimento”, quando, em verdade, é controlado pela máquina.

É um sistema mil vezes mais eficiente para o capitalismo em sua fase contemporânea. Não há mais a aglomeração de trabalhadores por horas dentro de uma fábrica, então não há mais a identidade operária e a força coletiva capaz de manejar a violência de massa e impulsionar mudanças sociais. Tudo está pulverizado e virtualmente controlado. O capitalismo já não mais precisa produzir – hoje produzimos apenas lixo. Precisa apenas controlar e lucrar.

Mas, voltando à guerra, essa ótica também se aplica. Na maioria dos casos, já não é mais vantajoso atacar um país inimigo, mobilizar forças inteiras de combate, desgastar milhares de soldados e repetir os morticínios instantâneos de outrora.

Muito mais vale a mobilização virtual de forças, os ataques cibernéticos, os bloqueios econômicos, as sanções internacionais e a formação velada de milícias locais nos países-alvos da oligarquia financeira mundial.

Toda a estrutura industrial é substituída pela estrutura financista-tecnológica pós-moderna. Da mesma forma que o proletariado, enquanto classe social, é um grupo é extinção e gradativa substituição pelas hordas precariadas, as chamadas “nações periféricas”, que compõe basicamente o outrora mundo colonial, agora são verdadeiros Estados-zumbis, que, sob a ficção jusinternacionalista da soberania estatal, usufruem de uma soberania relativa e controlada, já não mais – na maioria dos casos – fisicamente como antes, mas virtualmente pelos mecanismos internacionais de “governança”.

Toda a histórica do capitalismo é a história do desenvolvimento técnico e de suas implicâncias para o trabalho e a guerra.

O Ocidente não invadiu fisicamente a Ucrânia, a Líbia, a Síria, a Venezuela ou a China. Em vez disso, financiou, mobilizou e manejou o Maidan, a Primavera Árabe, a atual crise venezuelana e os nascituros protestos em Hong Kong.

Chegamos à era do Uber, dos drones e do dinheiro eletrônico, mas também à era das revoluções coloridas, dos motins “marcados em rede social” e do terrorismo – uma face um tanto mais brutal desse fenômeno.

Talvez já tenhamos chegado à grande Weltburgerkrieg, à Guerra Civil Mundial, que virtual e anonimamente mata a longo prazo e causa mais danos do que qualquer modalidade anterior de guerra.

Podemos já falar em uma uberização da guerra. Uma guerra virtual, que mata pessoas e derruba governos de forma quase invisível. É a nova ótica do trabalho aplicada à guerra.

E, em paralelo a tudo isso, não podemos deixar de mencionar a questão ambiental, cuja gravidade cresce em paralelo ao avanço do capitalismo em cada uma de suas fases.

Hoje presenciamos a fase mais brutal do capitalismo não apenas em relação ao trabalho e à guerra, mas também e principalmente em relação ao meio-ambiente, constantemente agredido e falsamente protegido pelo discurso do desenvolvimento sustentável.

Mais uma vez, a ótica fabril da agressão ambiental aberta é substituída por um modelo mais sutil e perigoso de agressão, no qual o meio-ambiente é deteriorado sob a máscara de um mecanismo internacional de proteção.

Trabalhadores no empreendedorismo. Estados creem na soberania. Ambientalistas creem no progresso sustentável. E em verdade os trabalhadores são controlados, as nações invadidas e o meio-ambiente agredido mais e mais.

Somente uma quarta via revolucionária pode lidar corretamente com a questão da técnica, visto que todas as demais teorias já demonstraram seu fracasso no último Século.

A Quarta Teoria Política é a esperança dos trabalhadores, das nações insubordinadas e do Meio-Ambiente.

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