Leonid Savin – O Poder Político e Militar do Hezbollah

No final de agosto, a organização libanesa Hezbollah disparou dois foguetes contra um veículo blindado israelense na fronteira. Vários soldados israelenses ficaram feridos. Em resposta, tropas israelenses dispararam em território libanês adjacente à fronteira. Os projéteis caíram no chão, sem causar danos a pessoas ou edifícios próximos. O Hezbollah marcou mais uma vitória calorosamente recebida não apenas no Líbano, mas também em outros países. Israel não lançou novos ataques, mas respondeu recuando suas forças armadas a sete quilômetros do interior da fronteira do país. Fontes do Hezbollah confirmaram que seus serviços de inteligência chegaram a visitar bases militares israelenses e bloqueios de estradas abandonados. O cessar-fogo na fronteira com Israel, que o Líbano chama de Palestina ocupada, já dura dias e semanas. Israel recém começou a enviar veículos aéreos não tripulados ao Líbano regularmente, alguns dos quais foram abatidos. O presidente libanês Michel Aoun declarou que usará todos os meios possíveis para destruir objetos israelenses se eles invadirem o território libanês.

O incidente demonstrou um novo reequilíbrio na região. A experiência da guerra de 2006, quando Israel usou tudo contra o Líbano – artilharia, tanques, aviação – para bombardear a infraestrutura de Beirute e do sul do Líbano, só terminando sua agressão depois que os foguetes libaneses começaram a cair nas cidades israelenses, mostrou a Tel-Aviv que o “complexo de inferioridade crônica” de Israel não diminuiu nem um pouco, enquanto seus vizinhos têm a oportunidade de causar danos irreparáveis.

O que é significativo é que, na guerra de 2006, Israel não foi parado pelas forças armadas regulares do Líbano, que têm capacidades seriamente limitadas (também por causa de ligações entre certos políticos libaneses de alto escalão e forças externas), mas pelo Hezbollah – um partido político e organização militar do Líbano. Naquela época, foram necessários aproximadamente 600 combatentes do Hezbollah para repelir o ataque israelense e retaliar, enquanto o exército regular estava envolvido principalmente no combate a incêndios e na manutenção da ordem.

Quando o ISIS se tornou ativo no Oriente Médio, o Líbano também foi afetado, especialmente o norte do país. O Hezbollah ajudou ativamente o exército a eliminar células terroristas, inclusive em áreas sunitas como Trípoli.

Os membros da organização tentam não enfatizar sua afiliação religiosa, mas usam os critérios do patriotismo e de uma prontidão para defender a pátria, de modo que na verdade ele inclui representantes de diferentes religiões, incluindo sunitas e cristãos, embora seu líder, o sheikh Hassan Nasrallah, seja um xiita.

Além disso, como organização militar, o Hezbollah não se restringe ao território do Líbano. O Hezbollah também tem uma presença ativa na Síria e no Iraque, onde está lutando contra organizações terroristas. Na Síria, a coordenação é realizada com forças do governo, conselheiros iranianos e militares russos, e no Iraque, o Hezbollah é perfeitamente integrado à milícia popular composta por xiitas.

O Hezbollah também está presente na América Latina, onde existe uma grande diáspora libanesa. Embora esteja lá, seria mais correto falar sobre a dimensão cultural e política das atividades da organização. No entanto, os políticos americanos regularmente tentam acusar o Hezbollah de ter laços com cartéis latino-americanos de drogas, mas, como costuma acontecer com os EUA, eles não fornecem nenhum tipo de evidência.

Voltando à realidade do Oriente Médio, valeria a pena examinar com mais detalhes as capacidades políticas e militares do Hezbollah. Há um certo equilíbrio no parlamento do país que favorece as atividades de forças patrióticas no país. Isso permite que o Hezbollah desenvolva seu potencial e amplie suas atividades em toda a região.

Toda a estrutura do Hezbollah no Oriente Médio, incluindo aliados comprovados, conta com aproximadamente meio milhão de combatentes experientes, prontos para se mobilizar a qualquer momento. A questão é qual desafio ou ameaça precisará ser resolvido. Deve-se ter em mente que o Hezbollah melhorou bastante sua eficiência de combate durante a guerra na Síria e tem seus próprios desenvolvimentos militares e técnicos. As armas do Hezbollah de dez anos atrás estão em exibição no museu de resistência de Mleeta, onde você pode ver mísseis balísticos e drones de combate. O arsenal do Hezbollah também inclui sistemas de armas estrangeiras. Há uma grande variedade de armas antitanque em exibição, dos Kornet-Es russos, RPG-29s e 9K111 Fagots aos sistemas de mísseis TOW americanos e rifles M40 de 106 mm.

Foram os Kornet-Es russos que destruíram os tanques israelenses de Merkava anteriormente considerados invencíveis.

Só podemos adivinhar quais são os sistemas de armas de ponta que o Hezbollah possui atualmente. Quando há boatos ou rumores de que a organização adquiriu alguma arma nova e eficaz, os representantes do Hezbollah geralmente não confirmam nem negam as declarações. A história mostra, no entanto, que o Hezbollah é muito bom em surpresas. E a mais recente troca de tiros mostrou que a resistência libanesa sabe como lançar ataques cirúrgicos contra seu inimigo.

O museu de Mleeta foi inaugurado em 2010 e é um bom exemplo de como o espírito de resistência e patriotismo é institucionalizado no mais alto nível. De fato, a batalha por corações e mentes não está sendo travada apenas no Líbano, já que vários locais visitados por milhões de turistas estrangeiros, jornalistas e ativistas todos os anos também são de importância internacional. Além de Mleeta, vale mencionar lugares como Qana, Khiam e Maroun al-Ras.

Em Qana, localizada a 12 quilômetros da fronteira com Israel, foi erguido um memorial às vítimas de um ataque aéreo israelense contra um campo de refugiados em 11 de abril de 1996. Os mortos, dos quais havia mais de cem, também incluíam forças da paz da ONU. Cerca de 500 pessoas ficaram feridas. O bombardeio israelense durante a guerra de 2006 também levou a vítimas civis.

Uma prisão perto da cidade de Khiam foi usada por Israel durante a ocupação. Após a libertação do país, foi transformado em museu. Entre as exposições estão instrumentos de tortura que foram usados ​​em palestinos e libaneses.

Um posto de observação perto de Maroun al-Ras, que costumava ser uma base militar na fronteira, agora está aberto a turistas. Oferece vistas dos territórios ocupados por Israel. Foi aqui que ocorreu uma recente troca de tiros.

A tudo isso deve ser adicionada a situação geral na região e no mundo. Se a resistência iemenita, que, em termos militares, não está tão bem equipada quanto o Hezbollah, foi capaz de lançar um ataque eficaz às instalações da petroleira Aramco e derrotar três brigadas na província saudita de Najran no decorrer de um dia, a capacidade de manobra, flexibilidade operacional e poder de fogo do Hezbollah são muito maiores. E o apoio político direto da Síria e do Irã, bem como o apoio indireto da China e da Rússia, estão transformando-o em uma força que não só Israel tem que respeitar, mas também outros atores no Oriente Médio e nos EUA.

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

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