O Criticismo Secular de Michel Houellebecq

Fonte: https://www.telospress.com/the-secular-criticism-of-michel-houellebecq/

Tradução: Marina Naves

Por Vincent Lloyd

A violência de 13 de Novembro de 2015 em Paris foi encontrada com uma avalanche de luto e solidariedade ao redor do mundo. Sentimentos semelhantes seguiram o ataque em Charlie Hebdo meses depois. Paris é uma cidade icônica e amada; ver sangue e buracos de bala nas suas ruas causou dor. Em uma era de mediação pessoal, quando esperam que nós exponhamos nossos sentimentos sobre eventos mundiais quase que em tempo real por meio de tweets e postagens no Facebook, é uma pergunta aberta o quanto os sentimentos são sentidos — apesar de que eles são certamente performados. O afeto circula com velocidade sempre crescente, mas tal afeto é cada vez mais raso, mais como um jeito compartilhado de falar do que qualquer coisa que tenha a ver com interioridade. Isso não significa que emoções mediadas são insignificantes.

Enquanto a crítica de tal lamentação pública muda, jeitos compartilhados de falar sobre o mundo leva a jeitos compartilhados de ver o mundo e pode, por último, legitimar jeitos violentos de agir no mundo.

É tentador ler as provocações do iconoclástico escritor francês Michel Houellebecq catalisando a circulação do afeto. Especificamente, os retratos aparentemente intolerantes de Houellebecq sobre o Islã alimentaria a islamofobia bem como o sentimento muçulmano anti-ocidental quando as palavras do escritor movem de qualquer nuance literária para um discurso público mais amplo. Certamente, Houellebecq encarou ações legais na França precisamente por essa razão, e os ataques em Charlie Hebdo ocorreram no dia em que o mais novo livro de Houellebecq, Submissão, estava para ser apresentada na capa do jornal satírico. Em uma era em que mediação em massa fez a vida pública cada vez mais sobre evocar sentimentos, o trabalho de Houellebecq consistemente evoca o tipo “errado” — que, pode-se dizer, é o tipo não liberal.

Essa história do afeto perigoso de Houellebecq é particularmente um quebra-cabeça se alguém realmente ler seu trabalho, em especial Submissão. Ele é um livro em que o afeto está surpreendentemente ausente. De fato, essa é a premissa do livro: europeus brancos estão cada vez mais isolados e desconectados um do outro e de suas próprias humanidades e cada vez menos capazes de sentir. O narrador e protagonista exemplifica essa alienação. Professor de literatura francesa, ele perdeu contato com seus pais (sua mãe eventualmente é enterrada como indigente), ele mal fala com seus colegas, vive em uma vizinhança chinesa onde ele não conhece os vizinhos, e seus encontros eróticos são sem prazer, com prostitutas que ele encontra online. Incapaz de sentir paixão, o narrador — como todos os narradores de Houellebecq — é racional e cínico. Ele aprecia o tanto que a sabedoria é burguesa, vazia e convencional, mas ele amplamente a segue mesmo assim.

Ele é, portanto, racional, que é dizer que ele faz o que deve ser feito, mesmo quando ele percebe que isso significa viver um clichê. Longe de ser incendiário, o objetivo de Houellebecq, ao que parece, é oferecer um modelo de crítica secular, e performar o criticismo secular. Religiões e ideologias são tidas como absurdo. O Islã é ridicularizado em especial, mas isso é provavelmente porque Houellebecq vê a cristandade europeia como tão exaustivamente morta e impotente.

Houellebecq reconhece o status quo secularizado como secularista, uma ideologia que privilegia conforto bondade e bem cuidada diferença, e até enquanto o narrador participa desse mundo burguês, a narração o zomba. O narrador de Houellebecq, como a crítica secular de Edward Said, mantém-se à parte de qualquer cultura ou tradição particular. Onde Said exalta o exílio físico como a posição privilegiada do crítico, Houellebecq favorece o exílio afetivo, vivendo entre a cultura e agindo como outros, mas não tendo os seus sentimentos. A crítica secular de Said é uma humanista. Forçosamente distanciado da cultura, ele a deseja e aprecia mais fortemente até quando ela desafia o jeito que o nacionalismo, racismo, religião ou outras ideologias distorcem aquela cultura. O modelo de criticismo secular de Houellebecq é anti-humanista. O crítico não deseja; ou, melhor, deseja apenas o êxtase que tiraria ele do mundo. Ideologias são expostas porque ligações passionais são recusadas, deixando-as absurdas; para Said, é a paixão à uma distância impossível que fomenta o inquérito crítico.

Submissão não é o melhor livro de Houellebecq. Ele tem poucas inovações estilísticas em comparação com os seus textos mais velhos, além de reciclar os seus temas, mas ele mostra, sim, uma história e um cenário intrigante. O que aconteceria se, em um futuro não tão distante, os partidos muçulmanos na Europa ganhassem poder suficiente para governar? Houellebecq responde que o Islã poderia muito bem se tornar palatável, até mesmo desejado, pelas elites brancas europeias. Em Submissão, o centro-esquerda e o centro-direita franceses aderem ao poder de um partido islamista moderado, e alguns intelectuais secularistas, incluindo o narrador de Houellebecq, convertem ao Islã. Qual é o apelo do Islã? Em um mundo de alienação secularista, a vida religiosa islâmica oferece ordem e beleza. Em um mundo que fetichiza liberdade em todos os piores jeitos, o Islã mostra o encanto da submissão. Mais significantemente, o Islã torna possível que se sinta novamente por integrar crentes em uma comunidade com uma tradição e valores compartilhados. A forma específica que o Islã moderado toma, na imaginação de Houellebecq, parece bastante com as propostas “Red Tory” e “Blue Labour” que recentemente crescem e são revividas nas tradições sociais democráticas cristãs da Inglaterra. O estado central se enfraquece, autoridades sociais e regionais se fortificam, a unidade familiar é cada vez mais valorizada, e organizações religiosas sem lucro são encorajadas a expandir, variegando espaço social entre indivíduo e o estado.

Enquanto o narrador de Houellebecq, no final, se converte ao Islã, ele o faz por razões materiais: ele deve se converter para manter seu posto de professor universitário. O leitor não é deixado com a impressão de que o criticismo secular é abandonado. De fato, é um intelectual nietzschiano francês que por fim persuade o narrador a se converter com um pouco práticas, um pouco racionais considerações. A conclusão do livro, com conversão, dramatiza os perigos enfrentados pelo crítico secular. Os desejos do crítico ficam insatisfeitos pelo mundo, mas a empresa crítica por si mesma, no livro, oferece satisfação que supera até mesmo o transcendente. Quando a alienação surge do privilégio dos confortos da burguesia europeia, tal crítica intelectual pode satisfazer. Mas quando a alienação é causada por uma injustiça sistêmica, — racismo, machismo, islamofobia, e outros — a alienação necessária envolve tumulto afetivo ao invés de apatia. Isso é a crítica secular de Said em seu ápice: não simplesmente desejando o aceitamento, mas enraivecida, assustada, desesperada, atordoada, entristecida e esperançosa ao mesmo tempo, alimentando não apenas a produção intelectual, mas também o engajamento social.

O tumulto afetivo e a preocupação mundial podem levar a um rápido abraço satisfações imediatas — novas categorias de identidade e políticas reduzidas a re-tweets — o que mascara ao invés de desenraizar a injustiça. No fim do dia, Houellebecq e Said devem ser lidos juntos. Ser humano significa não estar em casa no mundo, e perceber nossa humanidade significa sofrer com o desafio de tocar o poder criativo da inquietude, cansada de respostas fáceis.

Tópicos: Islã, Michel Houellebecq, livro, teoria política, política, pós-secularismo, religião, Submissão.

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