COMÉRCIO INTERNACIONAL E GLOBALIZAÇÃO: SÃO OS BENEFÍCIOS VERDADEIRAMENTE MÚTUOS?

Fonte: https://economicquestions.org/international-trade-globalization-benefits-truly-mutual/

Tradução: Ana Siman

A euforia em torno do comércio internacional e o consenso geral a respeito do inevitável sustento do capitalismo entre os países do sul global deve-se, pelo menos em parte, à ausência de uma alternativa após o colapso da União Soviética. A política do capitalismo, com sua dinâmica expansionista, assumiu um avatar verdadeiramente “global” ao adotar agressivamente uma agenda de globalização neoliberal. Assim, vemos muito entusiasmo em torno dos inúmeros tratados comerciais que governos de todo o mundo assinam, alegando que eles estimulariam o crescimento econômico e criariam empregos. No entanto, um exame crítico das principais teorias do comércio revela vários insights sobre por que houve uma hegemonia do pensamento quando se trata de atitudes em torno da globalização.

A ideia de que o comércio e a globalização “livres” implicam benefícios mútuos e prosperidade para todas as partes envolvidas é simplesmente aceita como senso comum. As principais teorias do comércio argumentam que, se as nações se envolverem em trocas internacionais, todas as partes estarão em boa situação. Embora essa suposição aparentemente inócua seja baseada em uma cosmovisão irrealista, ela tem implicações profundas quando traduzida em prática. Este artigo fornece uma compreensão básica de algumas das áreas que as teorias da economia internacional convencional convenientemente ignoram.

É pertinente que façamos uma pausa e questionemos criticamente o que nos é dito, ensinado e feito acreditar – pois nada que seja promovido com tanta fanfarra pelas elites econômicas pode ser livre de custos. Quando se trata de tratados de comércio, o diabo frequentemente encontra-se nos detalhes, que freqüentemente revelam políticas que levam a uma maior imensação da classe trabalhadora e do campesinato, especialmente no Sul do planeta. Primeiro, é extremamente importante entender o comércio em uma perspectiva histórica e como ele mudou com diferentes épocas dentro do capitalismo. O comércio Norte-Sul, em muitos casos, foi primeiro uma tragédia colonial (a colonização britânica da Índia, por exemplo) e agora se tornou uma farsa neocolonial. Isso se manifesta na miríade de maneiras pelas quais as multinacionais moldam as esferas das ações públicas e privadas, desde a apropriação de terras até a homogeneização dos padrões de consumo.

Em segundo lugar, as teorias do comércio internacional descaradamente desconsideram as relações de poder assimétricas que existem na economia política global. Apesar da classificação dicotômica das nações com base no grau de desenvolvimento, as teorias do comércio freqüentemente assumem que as transações entre duas nações desiguais tendem a beneficiar ambas. Embora seja ingênuo descartar quaisquer benefícios do processo, é essencial perguntarmos quem enquadra essas políticas comerciais e quais setores da sociedade recebem a maior parte dos benefícios.

Em terceiro lugar, as teorias tradicionais costumam classificar o trabalho e o capital como homogêneos e agrupá-los como fatores de produção. Na realidade, como é óbvio, o trabalho e o capital estão longe de serem homogêneos. Um leitor crítico que analisa essas suposições errôneas, sobre as quais a maioria das teorias repousa, poderia facilmente concluir que se adequariam melhor ao comércio inter-regional, numa base extremamente local, do que uma base internacional! As variações nos fatores em nível local seriam significativamente menores do que as variações e desequilíbrios que existem em uma escala mais ampla.

Quarto, eu diria que as teorias do comércio cometem uma grave injustiça em seu tratamento do trabalho, o que mostra a natureza de classe da maioria das teorias e as políticas subsequentes que são influenciadas por ela. A mão-de-obra barata é muitas vezes saudada como uma virtude do sul global – e isso é projetado como um convite aberto para a criação de fábricas exploradoras de capital global em nome da competitividade industrial. Assim, a narrativa hegemônica em torno do potencial do comércio é essencialmente desumanizante por natureza. Tais tendências que foram persistentes desde a promoção vigorosa da economia matemática dissociaram amplamente a disciplina do ramo mais amplo da ciência social.

Quinto, existe um diagnóstico sistematicamente errôneo da relação de poder entre capital e trabalho. Isto é talvez mais evidente nas assimetrias observadas na globalização do capital e na globalização do trabalho. Enquanto o primeiro tem sido em grande parte internacionalmente móvel, o último não foi assim. Embora isso possa ser parcialmente explicado pela existência do estado e seus limites territoriais, seria insensato descartar a dinâmica de classe dessa mobilidade transnacional assimétrica.

Por último, os efeitos posteriores da acumulação (primitiva) foram completamente ignorados nas principais teorias. A presença de dotações regionais que criam uma terra fértil para o capital estrangeiro e o subsequente convite das chamadas corporações criadoras de emprego ignoram o deslocamento dos meios de subsistência do campesinato. Essa desapropriação que Marx chamou de acumulação primitiva tem sido excessiva no Sul. No entanto, a compensação e a reabilitação oferecidas aos despossuídos foram em grande parte inadequadas. Isso levanta questões maiores sobre o que realmente é o desenvolvimento e  a quais interesses ele serve.

Assim, é importante que vejamos através da neblina e entendamos as bases e implicações das principais teorias sobre o comércio, e quem elas realmente favorecem. O que é ensinado nas salas de aula molda em grande parte as convicções e a visão de mundo de um grande número de alunos. Há uma necessidade premente de promover e desenvolver correntes alternativas de pensamento que são “sociais” em meio à reação contemporânea contra a globalização capitalista. É necessário que uma perspectiva interdisciplinar da globalização em geral e do comércio internacional, em particular, seja cultivada em instituições acadêmicas do Norte e do Sul Global. Só então poderemos desfazer a hegemonia da narrativa “globalização beneficia a todos”.

Aabid Firdausi é indiano e aluno de mestrado no Departamento de Economia da Universidade de Kerala. Seu interesse é entender a dinâmica socio-espacial do capitalismo a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

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