O partido húngaro nacionalista Jobbik procura ideal “eurasiano” de soberania

Fonte: https://www.ibtimes.com/strange-bedfellows-hungarian-far-right-jobbik-party-embraces-muslim-nations-seeks-eurasian-ideal?fbclid=IwAR3dwUbxfLFSaRje8FqQpGS9ECujB9s8zHYIZCjxYcYj206gjKZQ3jZmgOc

Tradução: Franciele Graebin

De Palash Ghosh

A ligação aparentemente estranha entre o nacionalismo europeu e o Islã surgiu mais uma vez recentemente pelos relatos de que Gábor Vona, o presidente do partido húngaro nacionalista Jobbik, elogiou os muçulmanos durante uma visita à Turquia e pediu que seu país reposicione sua política externa em relação ao oriente.

O Morocco World News informou no início de novembro que Vona disse a um público universitário turco que “O Islã é a última esperança para a humanidade na escuridão do globalismo e do liberalismo”. Em uma turnê de discursos em universidades turcas, Vona também salientou os elos étnicos e sanguíneos com os turcos, rememorando o imenso Império Otomano que conquistou a Hungria e se estendeu ao oeste até Viena. “Nós não estamos vindo à Turquia para construir relações diplomáticas e econômicas, mas para nos encontrarmos com nossos irmãos e irmãs turcos,” Vona declarou, de acordo com Islametinfo.fr. Vona exaltou as amizades pessoais que desfrutou com vários muçulmanos por toda sua vida, incluindo um palestino que compareceu ao seu casamento como convidado.

Ele também lançou o desafio fazendo uma nítida distinção entre sua visão sobre política externa e a das nações ocidentais. “O Ocidente não tolera ver meu partido apoiar a Turquia e outros povos turanianos, tais como os azeris, em conflitos internacionais.” (turanianos refere-se a um povo supostamente mítico que se originou em algum lugar da Ásia Central e migrou para o oeste milhares de anos atrás. Muitos nacionalistas turcos acreditam ser descendentes destes povos e sonham em formar um novo império pan-turaniano que se estenda da Ásia para a Europa.)

Além disso, Vona distinguiu-se dos líderes da direita europeia, que geralmente desdenham dos muçulmanos, especialmente os turcos, que agora formam significantes comunidades étnica minoritárias em vários estados da Europa Ocidental. “A África não tem poder… A América do Sul (sofre) de uma identidade confusa devido a suas sociedades muito congestionadas,” disse Vona no site de seu partido. “Considerando tudo isso, resta uma única cultura que procura preservar suas tradições: ela é o mundo islâmico.”

Em um contexto mais amplo, Vona sugeriu que uma sociedade nacionalista, conservadora, fundada em ambos os princípios europeus e asiáticos (eurasianos) incluiria uma soberania ideal, em forte contraste aos países ocidentais liberais, multiculturais e consumistas, que ele enxerga como aprisionados em um declínio sem esperança e talvez irreversível. “Temos impelido… a melhoria das… relações com a Rússia, China, Índia, Ásia Central e o mundo muçulmano,” disse ele em seu site.

Vona declarou que as sociedades conservadoras, tradicionais da Europa Oriental, o Oriente Médio e a Ásia valorizam a família, a fé, o patriotismo e suas culturas antigas, em contraste com o Oeste, particularmente os EUA, que ele acusa de mergulharem em uma decadência moral e espiritual. “Alguns países europeus e especialmente as nações da Ásia ainda preservam muito das tradições universais humanas,” disse ele a um público universitário turco. “Precisamos ser capazes de integrar a essência da mentalidade europeia tanto quanto da asiática. A prática europeia e a abordagem oriental profunda precisam, juntas, nos moldar.”

Vona sugeriu que três estados modernos já incorporam esta confluência de culturas – Rússia, Turquia e sua própria Hungria. “Estas três nações são europeias e asiáticas ao mesmo tempo, por sua história, destino e disposição”, disse ele. “Estas nações estão destinadas a apresentar a alternativa eurasiana.” Vona disse que o turasianismo pode ajudar a criar uma alternativa poderosa para o decadente e debilitado oeste. “Esta é nossa missão comum e a tarefa universal do turasianismo: construir uma ponte entre o Leste e o Oeste, muçulmano e cristão, e lutar juntos para um mundo melhor,” declarou. Devemos mostrar que cristãos e muçulmanos não são inimigos, mas sim, irmãos. Talvez ninguém mais do que nós, húngaros e turcos, sejam capazes de fazer isso; mas nós somos, porque estamos conectados por nosso sangue comum.”

Fundado há apenas 10 anos, o Jobbik – que significa “Movimento para uma Hungria melhor” – também preconiza uma oposição à imigração desenfreada. Nas recentes eleições parlamentares da Hungria, o partido conseguiu um sexto do voto popular, conferindo a eles 47 dos 386 assentos na Assembleia Nacional, fazendo do Jobbik o terceiro maior partido da Hungria (apenas a Frente Nacional da França de Marine Le Pen teve melhor desempenho nas pesquisas dentre os partidos nacionalistas no continente).

Dr. Dieter Dettke, professor adjunto da Universidade de Georgetown em Washington e ex-bolsista do Woodrow Wilson Center, que tem conduzido uma extensa pesquisa sobre o Jobbik, disse ao International Business Times que o núcleo dos apoiadores do partido compreende tanto a geração mais jovem quanto a melhor educada, e que eles são motivados principalmente pelo nacionalismo, bem como pelo desejo de atacar o status quo.

Em seu website, Vona admite que alguns membros de seu partido aderem a visões anti-muçulmanas e anti-imigração, mas não mais do que membros e apoiadores do partido que governa a Hungria, o Fidesz, do Primeiro Ministro Viktor Orban, ou dos socialistas tradicionais, MSZP. Ele também declarou que o Islã é a força mais capaz de resistir ao mundo “unipolar” defendido pelos Estados Unidos. Vona reconheceu que a maioria dos outros partidos nacionalistas da Europa não compartilham de sua paixão pelo Islã. “Obviamente, em países como a Áustria ou a França que estão sofrendo com o problema da imigração, [é] muito difícil [para eles] considerar o mundo islâmico como um aliado na luta contra o globalismo,” disse ele. “Eu posso entender a raiva deles. Mas eles também precisam entender que, baseados no comportamento de [alguns]… a comunidade islâmica inteira de meio bilhão não pode ser julgada.”

Vona também advertiu que ele não está apelando para a conversão em massa dos cristãos ao islamismo, nem necessariamente apoia mais imigração de muçulmanos para a Europa. Em uma entrevista em dezembro de 2010, Vona não expressou apoio nem oposição ao pedido da Turquia de entrar na União Europeia, negado há muito tempo, mas assegurou que não temia suas ramificações, citando que os turcos agora vivenciam uma economia flutuante e forças armadas poderosas. “A imigração precisa ser regulada para assegurar que não terminemos como está a Alemanha, mas, além disso, a filiação turca [na UE] não infligiria nenhum risco a nós, mas o exato oposto,” disse ele. “Na minha opinião, poderíamos ganhar um aliado chave com a Turquia contra alguns grupos europeus sob a influência do lobby americano-israelita. Uma coisa parece certa, a Turquia poderia ser um aliado-chave da Hungria.” (Curiosamente, o próprio Vona quer que a Hungria deixe a UE, descrevendo a dependência financeira de Bruxelas como um tipo de colonialismo e até de “escravização”.)

Vona também estendeu a mão para a nação muçulmana do Irã. Não surpreendentemente, o Jobbik exaltou o antissionismo do Irã enquanto condenou as sanções ocidentais contra o Teerã por seu programa nuclear. “O povo persa e seus líderes são considerados párias pelos olhos do oeste, que serve aos interesses israelitas,” disse Marton Gyongyosi, chefe de política externa do Jobbik. “É por isso que nós somos solidários à pacífica nação do Irã e nos voltamos para ela com o coração aberto.”

O Jobbik está determinado a aumentar o comércio bilateral com o Irã, que despencou de $400 milhões para $40 milhões – uma queda de 90 porcento – desde 2000.

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