Imperialismo gay: gayzificando o mundo pelo capital

Jonathan McCormack
Fonte: http://www.theagonist.org/essays/2019/04/15/essays-mccormack-queering-the-world-for-capital.html

Há — os políticos nos dizem, com os olhos cheios d’água — povos primitivos que ainda estão engatinhando, sem as bênçãos dos nossos valores sexuais ocidentais e esclarecidos. O presidente Trump, assim, prometeu civilizar essas terras atrasadas, travando uma guerra contra a criminalização da homossexualidade. Seu anúncio foi realizado logo após a notícia de que o governo iraniano havia enforcado um homem de 31 anos, considerado culpado pelo sequestro e estupro de dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que toda sodomia é ilegal por lá, muitas agências de notícias incluíram o pedófilo entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Nesse caso, é provável que o governo Trump esteja usando os direitos dos homossexuais como pretexto para ganhar influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação está apenas no adesivo de arco-íris. No entanto, os direitos globais LGBT inserem-se em um projeto maior. Mobilizar toda uma campanha mundial em nome de uma subdivisão relativamente pequena da população pode parecer extravante, mas há uma lógica colonial em curso aqui. A liberdade sexual é meramente o preâmbulo da maior libertação: a do capital.

Gênero, como nos dizem, é uma construção social. Certamente há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que diferentes arranjos sociais afetarão uma variedade de identidades sexuais. O próprio Foucault, queridinho da esquerda [liberal], documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, segundo ele, no século XIX, em meio à medicalização da sexualidade. Nessa época, concluiu, a sodomia deixou de ser considerada um ato e passou a fazer parte da essência mais íntima da personalidade de alguém.

Sem dúvida, existem indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que se envolvem em sodomia, mas — inexplicavelmente — isso não significa que eles construam identidades em torno desses atos — e, se constroem, certamente não o fazem da mesma maneira que os ocidentais. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturalmente determinadas de sexualidade, enquanto arrogantemente presume sua universalidade. É uma homossexualidade de estilo euro-americano que tem pouco a ver com identidades sexuais estrangeiras. E, como Edward Said nos lembra, “imperialismo é exportação de identidade”.

O homem europeu, em algum sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o sujeito puro. E cá está! Ele se encaixa nos moldes de um cosmopolita branco, de classe média e do século 21 — l’homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo no deserto — ouvindo a NPR [National Public Radio] e lendo o Washington Post.

Um membro da Universidade de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Árabe Moderna e História Intelectual, reiterou isso há anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera a Igreja Católica, Massad diz que a pressão pelos direitos dos homossexuais é o resultado de uma campanha “missionária” orquestrada pelo que ele chama de “Internacional Gay”. Em seu livro Desiring Arabs, ele escreve: “É o próprio discurso da Internacional Gay que produz homossexuais, assim como gays e lésbicas onde eles não existem”. Ele enfatiza que “é a publicidade de identidades sócio-sexuais, em vez dos próprios atos sexuais, que provocam a repressão” e que, ao forçar os árabes que praticam sexo homossexual a se tornarem públicos, a “Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais do desejo com o interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem.

Embora concerna ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países. Na Rússia, por exemplo, os bares gays operam abertamente, sem serem perturbados. Paradas gays, no entanto, são proibidas. Não é a homossexualidade em si mesma, mas sua intrusão na vida pública que os russos consideram objetável.

O negócio de emancipação gay global começou oficialmente com o presidente Obama fazendo dos direitos LGBT a pedra angular de sua política externa. Mais de US$ 41 milhões foram para o ‘complexo industrial do glitter’, juntos a uma porção de US$ 700 milhões destinados a grupos marginalizados para apoiar comunidades e causas homossexuais em todo o mundo. Uma quantia substancial foi destinada à crise na África Subsaariana, aparentemente com necessidade urgente de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores — fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza assombrosa e assim por diante — Obama usou estrategicamente a ameaça de interromper a assistência ao desenvolvimento como uma arma para intimidar e forçar os estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois que o presidente de Uganda assinou uma dura lei antigay, por exemplo, o governo Obama rapidamente anunciou que o dinheiro da ajuda seria cortado ou redirecionado

Concomitantemente, o Banco Mundial anunciou que estava adiando um empréstimo de US$ 90 milhões para a Uganda, alegando que a lei afetaria adversamente os programas de saúde que o empréstimo deveria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que “quando as sociedades promulgam leis que impedem que as pessoas produtivas participem plenamente da força de trabalho, as economias sofrem”. A lei de Uganda não impediria ninguém de trabalhar, desde que não se exigisse trabalho envolvendo sodomia.

Isso faz parte de um padrão de subversão da soberania nacional, em nome do que o Papa Francisco chamou de “colonização ideológica”. Não é de admirar que grande parte do Terceiro Mundo considere a imposição de valores sexuais estrangeiros como mais um exemplo de supremacia branca. Na revista The African Holocaust Society, um grupo de estudiosos africanos argumenta que os direitos LGBT são “a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça à nossa gente e à forma como escolhemos determinar, como agentes livres, a nossa realidade africana”.

Em conjunto com as pressões políticas, as corporações têm contribuído incrivelmente para exaltar as dádivas da sodomia. Pode-se argumentar que elas estão simplesmente lucrando com a moda, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social necessariamente resultem em resultados positivos para as empresas.

A verdade é que os direitos dos homossexuais têm sido agressivamente buscados e defendidos pelas grandes empresas. Centenas de empresas globais, em uma estranha reversão de sua habitual neutralidade social, vieram assinar amicus briefs para defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com os dados do Funders for LGBTQ Issues, as doações corporativas respondem por uma parcela considerável do total de doações LGBTQ. Em 2016, esse apoio totalizou US $ 20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais contribuíram com um total de US $ 524 milhões para as causas LGBT em 2015 e 2016, quase um quarto a mais do que no período anterior de dois anos.

Rapazes generosos, esses CEOs.

E pode-se perguntar por que exatamente republicanos bilionários, como o principal doador do Partido Republicano, Paul Singer, estão doando milhões para ativistas gays. Singer, aliás, afirma a BBC, “praticamente inventou fundos abutres”. O financiamento abutre, como descreve o Guardian, acontece quando o país “está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres voltam a exigir milhões de dólares em pagamentos de juros e taxas sobre a dívida original”.

Aqui nos aproximamos da verdade. Os avanços de mudança de sexo, impulsionados pela elite, fomentam indivíduos desnormados que se definem não pela família, nação, afiliação religiosa ou tradição, mas pela autocriação, de acordo com a vontade individual liberada. Com essa base de trabalho, as corporações podem então ganhar o controle da população ditando e manipulando identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados de quaisquer redes culturais maiores.

O objetivo não é criar mais pessoas gays. O casamento entre pessoas do mesmo sexo tem importância simbólica; sua vitória na praça pública valida todas as outras relações sexuais liberadas de restrições familiares e de gravidez. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente eficaz de alcançar o domínio. Os casais homossexuais são apenas a ponta de lança atual mobilizada na produção de novos ideais normativos.

A respeito da função social do Eros libertador, Zygmunt Bauman escreveu que

A grande maioria das pessoas, tanto homens como mulheres, integra-se hoje através da sedução em vez de policiamento, da publicidade em vez de doutrinação, da criação de necessidades em vez de regulamentação normativa.

O erotismo flutuante é, portanto, eminentemente adequado para a tarefa de cuidar do tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculada para “impacto máximo e obsolescência instantânea.”

É uma identidade feita sob medida para o livre mercado. O homocapitalismo global educa e depois exporta essas subjetividades revolucionárias para o exterior.

Em seu famoso ensaio “Capitalismo e Identidade Gay”, o historiador John D’Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e da produção de mercadorias destruiu famílias autossuficientes, enfraqueceu as relações de parentesco e produziu o indivíduo moderno — sem vínculos fortes, história ou comunidade, com o sexo divorciado da função social. Uma vez livres da família como fonte de renda, os indivíduos podiam fugir para o anonimato das grandes cidades, onde novas normas sociais, não dependentes da organização familiar, permitiam o florescimento de identidades homossexuais distintas. O desejo sexual foi então abstraído das obrigações sociais inerentes à criação dos filhos, e o desejo homossexual poderia funcionar como o fator decisivo da identidade de alguém.

A homossexualidade é compatível com a ascensão do capitalismo. Os países que são na verdade socialistas estão aquém de todas as medidas de liberdade política, liberdades civis, liberdade pessoal e direitos LGBT.

Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica impulsionada pelo mercado (escolha expandida do consumidor, descartabilidade e permutabilidade de objetos, concorrência impiedosa) e aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo para o Institute for Queer Theory em Berlin, conclui: “A dessolidariedade social é a precondição histórica do reconhecimento pelo Estado de alguns modos de vida não heterossexuais”.

Além do mais, isso requer um apoio estatal enorme, pois o governo pequeno é incompatível com a “homossexualidade oficial”. Vemos no Ocidente como as agências governamentais tecnocráticas em constante expansão substituíram as instituições intermediárias antiquadas como a Igreja e a família, que costumavam supervisionar e restringir o discurso das normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, é necessária uma intervenção institucional maciça.

A estrutura familiar estável, baseada nas identidades sexuais tradicionais — na transmissão geração a geração do patrimônio, inserida em uma comunidade maior — deve ser desmembrada e reconstruída na imagem do Homem Homo-Neoliberal, de quem os homossexuais — sem filhos, determinados e autônomos — são o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política e da teoria queer, descreve como as novas exigências pós-modernas do fluido de uma economia neoliberal afetam a formação de gênero:

Imaginando um “estilo de vida homossexual” em que os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e autodeterminados, configuram-se gays e lésbicas como modelos neoliberais…

A diversificação e pluralização do que conta como uma forma “normal” ou “aceitável” de sexualidade, desejo, parceria ou família implica que os indivíduos e a população sejam governados de uma maneira que os ajude a integrar a governamentalidade neoliberal em suas práticas e comportamentos cotidianos.

A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência da governamentalidade neoliberal.”

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas, a fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

Atualmente, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposta ininteligível, mesmo para casais do mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir as relações sociais é recebida da tradição e da religião. A idéia de que se pode redefinir o que o casamento significa pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm lógica simbólica nesses lugares. Escrevendo na Enciclopédia da Religião Africana, Molefi Kete Asante, professor da Temple University, atesta que

A filosofia africana em geral é que a vida e a reprodução da vida estão no cerne da sociedade humana. Homens e mulheres têm filhos que ritualizam seus pais e antepassados. No processo de construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nenhuma categoria e nenhum conceito que possa acomodar a homossexualidade como um modo de vida, porque ela não se encaixa na visão segundo a qual os humanos deveriam reproduzir para serem lembrados por toda a eternidade.

Ele prossegue afirmando: “Nada é mais importante do que o ciclo da vida desde o nascituro até os ancestrais; qualquer coisa que quebre esse ciclo, como a homossexualidade como um modo de vida, ameaça o cerne da sociedade e filosofia africanas”.

O Ocidente deseja usurpar essa autoridade e entregá-la aos vastos mecanismos científicos e políticos que brotaram como ervas daninhas sufocantes em nossos próprios países.

À luz da potencial perturbação dos modos ancestrais de vida, declarações chocantes como aquelas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o vice-presidente do parlamento de Gana, tornam-se compreensíveis. Para o apelo de Theresa May para reformar as leis anti-gay, Bagbin respondeu com desdém: “A homossexualidade é pior do que a bomba atômica”, disse ele, acrescentando que “não há como aceitá-la no meu país”.

Essa estratégia para catalisar e reforçar a poluição sociocultural para a governança neoliberal é o que John Milbank chamou de “tirania biopolítica”. Em suas palavras,

A troca e a reprodução heterossexual sempre foram a própria “gramática” da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, portanto, uma sociedade não mais constituída primariamente por parentesco ampliado, mas sim pelo controle estatal e simplesmente pela troca e reprodução monetárias.

Por essa intoxicação, o Ocidente difunde seu próprio conjunto bastante particular de crenças, significados e prioridades sociais para os atos sexuais. Uma vez contratada, ela atacará os laços sociais até que se tornem anêmicos, quebrem e murchem. Organismos governamentais estrangeiros podem então rapidamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura anfitriã.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, significa criar um cosmos inteiramente novo, acessível ao governo neoliberal. Relacionamentos, estruturas econômicas, autocompreensão e até mesmo palavras devem passar por uma radical revalorização. Os novos mestres coloniais usam o chicote da ideologia para refazer o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no final, pode ser o direito natural de uma cultura não ocidental.

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