Haya de la Torre e a armadilha do indigenismo

Por Marcelo Gullo
16/01/2018

Fonte: https://www.geopolitica.ru/es/article/haya-de-la-torre-y-la-trampa-del-indigenismo?sfns=mo&fbclid=IwAR3UytVhr3LsQWr3OumoohVkExApGx6QgUB2KsQFDOPMDq-TKzLLuKSZ40w

Durante os primeiros meses de 1931, enquanto os quadros apristas [A] organizavam o partido e difundiam o pensamento aprista, Haya de la Torre multiplicava, de Berlim a Londres, a sua ofensiva escrita e, seu grande amigo, o argentino Gabriel del Mazo [B], pagou de seu próprio bolso a edição, em Buenos Aires, de um novo livro de Haya intitulado “Ideario y acción aprista” (Ideário e ação aprista). Pouco depois, é editado, em Lima, “Teoría y Táctica del Aprismo” (Teoria e tática do Aprismo). Ambos opúsculos reúnem, sem se aprofundar, artigos já publicados por Haya.

Dos dois livros, no entanto, apenas “Teoría y Táctica del Aprismo” contém um artigo novo, tanto no sentido de que não havia sido ainda publicado antes como no sentido de que nele se desenvolve uma temática sobre a qual Haya nunca havia tratado com profundidade. O artigo leva como título “El problema del Indio” (O problema do índio). Este artigo, como veremos, não só teve uma importância fundamental do ponto de vista do desenvolvimento ideológico do Aprismo, mas também uma importância estratégica, pois, com ele, Haya se opôs frontalmente a uma das principais linhas de ação política diagramada pela Internacional Comunista para a América Latina.

“Haya de la Torre se baseia no pensamento de Manuel González Prada [C], que denomina simbolicamente como seu “mestre”, para desenvolver a postura doutrinária do Aprismo frente ao – como era denominado nessa época – problema do índio.”

Cremos que Gonzáles Prada foi um dos mais francos pensadores de seu tempo – um tempo caracterizado pelo peso profundo dos preconceitos raciais na análise social e política – em promover uma nova maneira de enfocar o problema do indigenismo. Gonzáles Prada abordou o problema indígena pela primeira vez em 1904, com um brilhante artigo que intitulou “Nuestros Indios” (Nossos índios). Esse artigo foi incluído, mais tarde, na segunda edição de seu livro “Horas de Lucha” (Horas de luta).

No artigo em questão, Gonzáles Prada parte do princípio [D] de que o índio não é uma raça biológica, mas uma raça social. E essa será a premissa fundamental sobre a qual se baseará mais tarde Haya de la Torre para construir a postura doutrinária do Aprismo sobre o problema indígena. Gonzáles Prada explica que “…por raça biológica se entende o homem com seus caracteres somáticos, cor da pele, ângulo facial, textura, forma dos olhos, etc. Mas, do ponto de vista social, a raça é dada pela sua inserção, pelo seu papel na sociedade” [1]. Para Gonzáles Prada, “…quando um índio se enriquece, branqueia-se… atua como um branco e quando um branco perde seu capital, indigeniza-se porque o tratam como pobre, como um explorado, exploram-no e é como um índio. ”

Seguindo assim de forma evidente González Prada, o que Haya de la Torre defende:

“A CAUSA DO ÍNDIO É CAUSA SOCIAL, NÃO RACIAL. A causa do indígena peruano – assim como a do equatoriano, boliviano, argentino, como do indígena de toda a América – é causa sagrada, não porque o índio seja índio, ou seja, porque não é branco, mas porque o índio, em sua grande maioria, é explorado. Nosso indigenismo não é o simplista e sentimental conceito racial que frente a estúpida afirmação burguesa da inferioridade de raças opõe em um amargo grito de revanche a afirmação contrária de que toda raça de cor é superior à branca… González Prada escreveu: ‘A questão do índio, mais que uma questão racial, é social’… Não é a cor que limita o problema. Há índios por sangue, como Felipillo o traidor, que são carrascos de seus irmãos de raça. Quantas vezes nisso que no Peru é chamado de Parlamento, nos ministérios e tribunais, não se sentaram e se sentam homens de pele de cobre e de consciência terrível! …. Nas minhas viagens pela serra peruana, eu vi às vezes caciques de raça indígena, carrascos implacáveis, monstros sanguinários, sádicos… despedaçando as carnes dos servos e xingando-os em quéchua… Nossa luta pelo indígena peruano e americano é, portanto, uma luta contra o latifúndio; não é simples luta de cor, pois há milhões de brancos oprimidos no mundo e homens de pele de cobre oprimem sanguinariamente no Peru e na América…”[2]”.

Em seguida, Haya desenvolve a relação entre o problema do índio e o imperialismo. Defende, então, como princípio fundamental que não se pode entender o problema do índio como um problema isolado e que, colocá-lo desse modo, é uma armadilha do imperialismo. O problema do índio não se pode resolver mediante a luta isolada do indígena, pois não haverá solução ao problema indígena sem a vitória contra o imperialismo – que só se pode conseguir pela estruturação de uma frente de luta que agrupe em seu seio todos os setores sociais por ele afetados – e a construção da unidade política dos povos indo-americanos em um único estado federal.

Da argumentação feita por Haya se depreende que, para ele, a luta pela verdadeira reivindicação do indígena tem um aspecto tático, consistente com a luta pela reforma agrária, contra o latifúndio e o latifundiário e um aspecto estratégico: a luta contra o imperialismo pela unidade indo-americana. Haya também adverte que, ainda que o imperialismo coloque o problema indígena como um problema racial, os mesmos indígenas não devem colocá-lo dessa forma, pois devem compreender que seu problema é parte de um problema maior. É nesse sentido que ele argumenta:

“O imperialismo em nossos países tem seu aliado no latifundiário, cuja classe é dona do poder político e conta com a exploração de nossas classes trabalhadoras, especialmente de nossos trabalhadores indígenas para torná-los seus melhores instrumentos de exploração. O imperialismo, inimigo de nossos países, é o pior inimigo do índio. O cristianismo saxão conseguiu infiltrar muito profundamente na classe dominante dos países em que domina, especialmente nos Estados Unidos, um incurável desprezo racial pelos homens de cor, negros ou índios [E]. É indiscutível que entre a imensa maioria dos saxões prevalece essa ideia.

E sendo nossas raças, segundo eles, ´raças inferiores´, deduz-se certa justificação ‘moral’ para a exploração, opressão e servilismo de nossos trabalhadores, não só porque são trabalhadores, mas porque na sua grande maioria não são brancos, ou, simplesmente, porque não são saxões.

O imperialismo, assim, traz consigo um novo e grandíssimo perigo para nossos indígenas… É por isso que o nosso movimento anti-imperialista deve ter os índios nas vanguardas…, mas não se pode separar o problema indígena do imperialismo… O problema do índio, seja no Peru ou em qualquer país americano, é problema econômico, é problema de justiça social e esta não pode se realizar enquanto o imperialismo ameaçar a soberania política de nossos países e sua liberdade econômica. Por isso, todo empenho de libertação social em nossos países está relacionado com o grande problema geral imposto pelo imperialismo. Não há problemas isolados, mas aspectos de um grande e comum. Por isso não se pode haver lutas isoladas, mas partes de um todo, secções de um grande partido, divisões de um grande exército, filas de uma grande frente: da frente única dos trabalhadores manuais e intelectuais da América: contra o imperialismo ianque, pela unidade dos povos da América, para a realização da justiça social. [3]”

A importância política da postura que Haya de la Torre adota frente ao problema indígena se compreende melhor tendo em vista que, em junho de 1929, a Primeira Conferência Comunista Latino-Americana de Buenos Aires determinou que, na América Latina, era necessário “…abandonar o espírito fetichista das fronteiras atuais” [4] não para criar uma Pátria Grande latino-americana, mas para possibilitar a criação de novas repúblicas de base étnica. Nesse sentido, a Primeira Conferência Comunista Latino-Americana de Buenos Aires ordenava os militantes comunistas peruanos a lutar pela instauração de uma república quéchua e uma república aimará totalmente independentes, o que equivalia a propor a fragmentação territorial do Peru em três Estados. Similar proposta foi feita pela Conferência Comunista de Buenos Aires para a República da Bolívia, à qual se propunha fragmentá-la em nada menos que treze Estados. É preciso notar também que, em fevereiro de 1930, Eudocio Ravines – antigo militante aprista convertido ao comunismo – chegou clandestinamente a Lima com instruções muito concretas para que os militantes comunistas cumprissem com a resolução de Buenos Aires.

Por outro lado, resulta fundamental – para poder contextualizar a real importância da posição tomada por Haya frente ao tema do indigenismo – levar em consideração que, poucos dias após a morte de Mariátegui [F], cujo óbito foi em 6 de abril de 1930, chegou a Lima, como relata Ricardo Martínez de la Torre, uma extensa mensagem da Internacional Comunista, na qual se ampliava a discussão realizada em Buenos Aires. Essa mensagem – que dava por acertadas as instruções conferidas aos militantes comunistas para que trabalhassem pela criação das repúblicas quéchua e aimará – afirmava:

“No transcurso do último ano vocês iniciaram um certo trabalho de esclarecimento ideológico… Vocês deram um passo. Liquidando as débeis organizações do APRA no Peru e no exterior… (mas)… Criar um partido socialista que teria uma base mais ampla que o partido comunista… (proposta feita por José Carlos Mariátegui) é, no fundo, voltar por um desvio e sob outro rótulo ao aprismo, a um partido de várias clásses… a um Kuomintang [G] mais perigoso que o APRA… A ideia de dotar o partido de um programa mínimo, separado de um programa máximo, é anti-leninista, anti-marxista… A luta ideológica contra o APRA é então uma das condições primárias para verter uma claridade absoluta sobre a consciência do proletariado peruano, claridade indispensável se quiserem evitar que o seu trabalho ulterior não resulte na esterilidade da sobrevivência da ideologia aprista no movimento operário.

O processo de liquidação do APRA, tanto no exterior quanto no Peru, já está seriamente adiantado, graças à ação política que vocês empregaram… não é duvidoso que, apesar do êxito da propaganda de vocês, o APRA conserve ainda na massa certa autoridade e mantenha certas ilusões. Vocês devem então continuar e desenvolver a sua ação contra o APRA, especialmente no seio das organizações e das massas operárias… A primeira tarefa do seu grupo é, portanto, formar um partido comunista, liquidando a ideologia do APRA…”[5]

As instruções dadas pela Internacional Comunista aos militantes comunistas do Peru em especial e a todos os da América Latina em geral não podiam ser mais precisas: era necessário liquidar da consciência popular a ideia de um partido policlassista que lutasse pela unificação da América Latina, ou seja, pela construção da Pátria Grande. Ao nacionalismo continental, proposto pelo Aprismo, a Internacional Comunista opunha o nacionalismo étnico indígena. À unificação da Nação Indoamericana, proposta pelo Aprismo, a Internacional opunha, sob a aparente defesa das massas indígenas exploradas, a fragmentação territorial dos Estados já existentes para dar lugar ao nascimento de dezenas de novas pequenas repúblicas. O indigenismo – isto é, a causa do índio entendida como uma causa racial e não como uma causa social -, proposto pela Internacional Comunista aprofundava inexoravelmente, dessa forma, a balcanização produzida logo após a guerra da independência. Contra essa proposta indigenista, Haya escreveu seu artigo “El problema del Indio”, que constituiu, a nosso ver, a peça fundamental de seu livro “Teoría y Táctica del Aprismo”, feito, praticamente, em plena campanha eleitoral de 1931.

Notas do tradutor:

[A]. APRA: Aliança Popular Revolucionária Americana, ou PAP, Partido Aprista Peruano, é um partido de centro-esquerda e membro da Internacional Socialista, fundado em 1924 por Haya de la Torre. A ideologia do APRA se fundava sobre os seguintes pontos: luta contra o imperialismo; busca da unidade política da América Latina; nacionalização de terras e indústrias, internacionalização do Canal do Panamá; solidariedade com todos os povos e classes oprimidas do mundo.

[B]. Gabriel del Mazo (1920-1923) foi um dirigente estudantil reformista, engenheiro, político e parlamentar radical argentino. Foi vice-presidente da Universidade Nacional de La Plata e membro da Unión Civica Radical.

[C]. Manuel González Prada (1844-1918) foi um pensador, ensaísta, anarquista e poeta peruano.

[D]. No texto original encontra-se o termo apotegma axial.

[E]. No texto original encontra-se o termo cobrizos, isto é, de pele cor de cobre.

[F]. José Carlos Mariátegui La Chira (1894-1930) foi um escritor, jornalista e pensador político peruano. Um dos principais pensadores marxistas latino-americanos, foi fundador do Partido Socialista Peruano 1928.

[G]. Kuomintang, conhecido também como Partido Nacionalista Chinês, é o maior partido político em Taiwan, e foi adversário do Partido Comunista Chinês, liderado por Mao Zedong, durante a Guerra Civil Chinesa, tendo perdido-a e se exilando em Taiwan.

Referências:

[1]. GUIBOVICH DEL CARPIO, Lorgio, Pensamiento antropológico de Haya de la Torre y el indigenismo en el Perú, Lima, 1988, Ed. Palma, p. 23.

[2]. HAYA DE LA TORRE, Víctor Raúl, Obras Completas, Lima, Ed. Juan Mujica Baca, 1985., Tomo 1, págs. 182, 183 y 187.

[3]. Ibíd., págs. 190 y 191.

[4]. BASADRE, Jorge, Historia de la República del Perú, Lima, ed. La República, 199, p. 3064.

[5]. MARTINEZ DE LA TORRE, Ricardo, Apuntes para una interpretación marxista de la historia del Perú., Lima, Ed. Universidad de San Marcos, 1974., págs. 497, 498, 501, 505 y 506.

Marcelo Gullo

Doutor em Ciência Política pela Universidade do Salvador. Mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra. Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Nacional de Rosário. Professor da Universidade Nacional de Lanús e da Escola Superior de Guerra.

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