A evolução da guerra e sua atualidade

Prof. Dr Miguel Ángel Barrios (Argentina)
Texto original: https://dossiergeopolitico.com/2019/05/15/la-evolucion-de-la-guerra-y-su-actualidad-en-el-caso-venezolano/
Tradução: Núcleo de Teoria e Tradução – Nova Resistência (BR)

As guerras, que acontecem em todo o mundo desde os tempos antigos, são eventos sangrentos e recorrentes ao longo da história. No entanto, a forma de fazer a guerra e seus objetivos mudaram ao longo do tempo. Uma de suas classificações mais conhecidas é a ideia de quatro gerações da guerra moderna descrita pelo paleo-conservador americano William Lind e outros quatro militares dos EUA [1], em seu artigo conjunto de 1989 intitulado “A mudança da face da guerra: em direção à quarta geração” [2]. Mais tarde, William Lind publicou um artigo aprofundando essa compreensão das guerras, intitulado “Compreendendo a Guerra de Quarta Geração” [3]. Vamos ver como essas quatro gerações da guerra moderna foram compreendidas.

Primeira geração
Segundo Lind, esta geração abrange o período entre 1648 e 1860 e consiste na guerra de linhas e colunas táticas, com armas de fogo e exércitos profissionais do Estado. Além disso, segundo Lind, foi criada uma cultura militar de ordem, e aqui estão vários elementos que distinguem um soldado de um civil, como uniformes e gradações.

Segunda geração
Esta geração faz parte da revolução industrial e do poder de fogo. Lind exemplifica isso com o período da primeira guerra mundial (1914-1918), uma guerra baseada na capacidade industrial e nos transportes, bem como na criação massiva de trincheiras para proteger os soldados do poder de fogo. Lind também aponta que esta geração continua a manter a ordem nos processos e procedimentos em que a obediência é mais importante que a iniciativa. O objetivo principal da luta ainda é o exército inimigo.

Terceira geração
É uma resposta à guerra de posições que se baseia na guerra de manobra (por meio de blindados e aviões), isto é, na guerra relâmpago exemplificada no exército alemão da Segunda Guerra Mundial. De acordo com Lind, a terceira geração não é baseada no poder de fogo e no desgaste, mas na velocidade, surpresa e deslocamento mental e físico. Além disso, procura envolver e colapsar em vez de contato direto, por exemplo, por meio de um ataque explosivo contra as comunicações do inimigo para isolar suas forças e bloquear uma resposta conjunta sustentada. Nesse sentido, a superioridade tecnológica é crucial para o sucesso.

Quarta geração
Segundo Lind, dada a existência de uma grande superioridade tecnológica, a oposição armada só pode se descentralizar e difundir (até esconder). Além disso, os estados perdem seu monopólio sobre a guerra e as guerras não são apenas entre Estados, mas também contra atores não estatais, como grupos terroristas e guerrilheiros. Neste novo contexto estratégico, a vitória não está no campo de batalha, porque tais eventos não acontecem mais como nas três primeiras gerações. Agora a vitória é alcançada pela influência e convencimento da sociedade (opinião pública) de um país objetivo, isto é, o objetivo principal é conquistar o apoio das pessoas e não matar soldados inimigos. E essa influência é alcançada através da propaganda (de ambos os lados) e de ataques terroristas, no caso de atores não-estatais, para instilar o medo em uma sociedade objetiva e, assim, condicioná-la às demandas por meio do terror.

Guerras híbridas e de quarta geração
Atualmente há um grande debate mundial sobre as guerras híbridas, isto é, aquelas guerras assimétricas que misturam elementos regulares e irregulares, cujo objetivo principal não é o triunfo militar na batalha, mas a influência e convicção social em um país alvo. O objetivo é conquistar a mente, e para isso é necessário conhecer com precisão a sociedade-alvo e suas vulnerabilidades.

Assim, as novas formas de fazer a guerra combinam elementos de revoluções coloridas e guerra não convencional, isto é, o uso de intermediários para realizar protestos sociais que influenciam um país objetivo ou diretamente o uso de intermediários armados para liderar para um cenário de guerra civil em um país alvo. A atual estratégia de ação requer, portanto, a criação artificial de caos controlado em um país alvo.

Estados Unidos e Venezuela
Um dos casos mais representativos do espaço sul-americano atualmente é a Venezuela, já que aí se observa como os Estados Unidos têm apoiado a oposição anti-Chavez em seus crescentes protestos sociais e armados para desestabilizar o país, a fim de derrubar o atual governo de Nicolás Maduro.

Nesse cenário, uma invasão militar convencional dos Estados Unidos para efetuar uma mudança de governo na Venezuela teria um custo muito alto, não no sentido militar, já que a Venezuela é inferior em todos os níveis militares tecnológicos e até numéricos, mas em um sentido de opinião pública, isto é, da influência americana no mundo. Sua credibilidade seria ainda mais prejudicada e sua economia estaria presa em uma guerra dispendiosa, da qual emergir vitoriosa seria a única maneira de salvar a bandeira. No entanto, à luz do que aconteceu no Afeganistão e no Iraque desde 2001 e 2003, respectivamente, o exército dos EUA não pode derrotar uma força assimétrica no campo de batalha, mas só pode vencer quando puder convencer…

Assim, realizar uma invasão direta provocaria, em todo o espaço latino-americano, uma rejeição social contra um novo episódio que expõe o retorno da Doutrina Monroe aos corredores de Washington. E tal rejeição significaria uma recusa em ser convencido pelas palavras americanas.

Por outro lado, podemos ver que nas operações dos EUA não só há um objetivo de mudança de regime, semelhante aos muitos que foram realizados ao longo do século XX em nossa América, mas também o objetivo é a criação de um caos regional, semelhante às cenas do Oriente Médio que causaram a destruição da Síria e do Iraque, bem como do Afeganistão, e a fuga de milhões de pessoas que se tornaram refugiadas. O caso mais representativo é a Síria, com milhões de refugiados espalhados pelos países vizinhos do Líbano, Turquia e Jordânia.

Isso nos leva a pensar que o governo de Washington não apenas tenta derrubar o governo de Nicolás Maduro, mas dar um golpe letal na América do Sul e provocar outra de suas intermináveis guerras…

Como resultado, não estamos testemunhando uma simples luta ideológica entre os chavistas e os liberais ocidentais, mas também uma luta geopolítica na qual os Estados Unidos, em vista de seu retrocesso mundial, também querem reordenar seu espaço geopolítico imediato sob a nova Doutrina Monroe e que precisa alinhar todos os países com Washington. Se não for assim, então tentarão mergulhar Nossa América em um caos interminável de ódio ideológico externamente implantado.

[1] Colonel Keith Nightengale (USA), Captain John F. Schmitt (USMC), Colonel Joseph W. Sutton (USA), and Lieutenant Colonel Gary I. Wilson (USMCR).
[2] Fonte: https://globalguerrillas.typepad.com/lind/the-changing-face-of-war-into-the-fourth-generation.html
[3] Fonte: https://original.antiwar.com/lind/2004/01/15/understanding-fourth-generation-war/

Miguel Ángel Barrios

O professor Miguel Ángel Barrios é Diretor Acadêmico do Dossiê Geopolítico. Dr em Educação - Dr em Ciência Política - Autor de mais de quinze trabalhos sobre Política Latino-Americana e reconhecido pela crítica especializada como uma das referências em pensamento latino-americano.

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