O Simbolismo da Cachaça

Por Hugo Maas

O Ser dos Povos se materializa em suas particularidades culturais. Sendo a cultura a forma como os seres humanos se adaptam ao seu entorno, as diferenças que surgem, diversas reações a meios ambientes semelhantes, denunciam essas individualidades: um ser que se particularizou e se fez Ser.

Estas manifestações são mais fortes, mais resistentes e duradouras, exatamente naquelas formas onde manifestamos nossa humanidade: a alegria, a consciência de estar vivo. Estas formas são as danças, as comidas, as festas, os jogos e os passatempos, as bebidas etc.

Essa criação de manifestações originais são então o testemunho, não só da existência de um Ser particular, mas da força desse Ser.

As bebidas, ligadas às festas e às comemorações, são um testemunho muito forte.
Baseada em nossa primeira, e duradoura, atividade econômica, que nos sustentou por séculos, da cana-de-açúcar inventamos a cachaça. É ela o primeiro destilado criado nas Américas. Serviu como moeda de troca nos escambos com a África. Tributos sobre ela foram a principal fonte de recursos para a reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755. Inúmeras vezes proibida – concorria com as bebidas importadas –, mostrou a força da sociedade brasileira e seguiu sendo largamente produzida, comercializada e consumida.

É o destilado mais sofisticado do mundo. Capaz de uma variedade incrivelmente única de características organolépticas. Pode ser consumida logo após ser destilada, a “pinga”, algo raro; outros destilados necessitam ser processados antes. Pode ser produzida industrialmente por destilação continuada ou artesanalmente em pequenas destilarias: são mais de 40.000 produtores. Tem dezenas de madeiras para ser envelhecida, o que permite uma infinidade de sabores e combinações. É um campo aberto ao artista.

Consta que existem mais de 2.000 designativos para nominá-la: é a palavra com mais sinônimos da língua portuguesa! Seu parente mais próximo, o rum, não é feito do sumo da cana, a garapa, produto valioso, mas dos subprodutos desprezados da produção de açúcar. Frutos de diferentes sociedades: uma guiada pela Vida, a outra pelo Mercado.

A prova da superior qualidade da cachaça está no projeto de um talentoso destilador francês, que após a falência da produção açucareira na Martinica, decide produzir um rum de alta qualidade, o chamado “rum agrícola”. Após longa pesquisa e esforço descobre a fermentação a partir da garapa. Na verdade produziu uma cachaça! O melhor rum do mundo é uma cachaça! E com a desvantagem de só usar o carvalho francês para envelhecimento. Perdeu a umburana, o bálsamo, a grápia, a canela-sassafrás, o jequitibá etc…

Associada às classes populares sempre foi depreciada pela classe anti-Nacional. O característico ódio ao Povo até aí se manifesta. Quem imagina um escocês depreciando o uísque, um russo menosprezando a vodka, um japonês rebaixando o saquê?

Brindemos nossas alegrias, nossas vitórias e conquistas com a nossa bebida nacional. Com a caipirinha, antigo remédio para a gripe; com o quentão, no frio das Festas Juninas. Herdamos, e somos responsáveis pelo que a Nação fez para nossa alegria e gozo. Patriotismo é isto: amar o que é nosso!

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