A ERA DA PIROPOLÍTICA ESTÁ CHEGANDO

09/05/2016
Robert Steuckers
Fonte: https://www.geopolitica.ru/en/article/era-pyropolitics-coming

O que os cientistas políticos querem dizer quando falam sobre “piropolítica”? Há duas fontes a serem exploradas para entender o que querem dizer; primeiro, é necessário investigar todo o mundo da teologia política, incluindo o pensamento de Juan Donoso Cortés sobre o liberalismo, o socialismo e o catolicismo (o último sendo visto como a própria Tradição) e, é claro, deve-se estudar minuciosamente a tese central de Carl Schmitt, que prova que todas as ideias políticas possuem um fundo teológico; segundo, é necessário levar em consideração a percepção de Schmitt da política mundial como uma batalha entre os elementos básicos, como a Terra e a Água. A política real, chamada em alemão genuíno como “das Politische”, é necessariamente atrelada à Terra, continental, e o homem político que é realmente eficiente é um tipo de geômetra romano que organiza o território sob sua jurisdição simplesmente medindo-o.

Após as duas derrotas alemãs, em 1918 e 1945, a Terra não é mais o elemento central da política mundial, sendo substituída pela Água. Assim, nasce a nova dialética subversiva e destruidora da “Land und Meer”, ou Terra e Mar, em que a Água alcança a vitória no final. O diário de Schmitt, “Glossarium”, editado postumamente, insiste com veemência nos efeitos destruidores da “hidropolítica” norte-americana, vitoriosa e conquistadora do mundo. “Pyros” significa “fogo” em grego e representa, de acordo com Michael Marder (citado abaixo), mais um elemento básico, combinando não só a idéia de uma chama voraz e ardente, mas também os correspondentes “luz” e “calor”. Embora Schmitt reduza as possibilidades da política a dois elementos (Terra e Água), isso não significa que o Fogo ou o Ar não existam e não tenham um papel, mesmo que menos perceptível.

“Fogo”, portanto, significa diversos fenômenos: a força ardente da destruição (encontrada em revoluções anti-tradicionais), a “luz-sem-calor” do Iluminismo ou o calor da revolta silenciosa contra as instituições não-tradicionais (abstratas) derivadas dos diversos corpos ideológicos do Iluminismo do século 18.

Quando não mais nenhum território virgem a ser conquistado (vide as ideias de Toynbee) e, consequentemente, organizados de acordo com os princípios bem terrestres dos geômetras romanos, a Terra, como elemento estruturante da verdadeira política é gradualmente substituída não só pela Água, mas também pelo Fogo. A Água, como o elemento emblemático do liberalismo, especialmente do tipo Manchesterista, poder marítimo, ou plutocrático, não conhece fronteiras claras ou uma pausa positiva (aqueles que param no mar afundam e se afogam, diz Schimitt em seu Glossarium). Não há mais um “ócio” (descanso frutífero, introspecção, meditação) possível, apenas o “neg-ócio” (nervosismo febril de atividades materialistas incessantes) sobrevive e cresce. Vivemos, então, em sociedades nas quais apenas a aceleração incessante (“Beschleunigung”) governa e cancela todas as tentativas sensatas de desacelerar as coisas (o irmão de Ernst Jünger, Friedrich-Georg, foi o maior teórico dessa “desaceleração” ou “Entschleunigung”, sendo o verdadeiro pensamento ecológico uma tentativa confusa de trazer de volta o elemento Terra à cena política mundial).

Não obstante, mesmo sendo um elemento sujeito à dominação, a Terra não pode simplesmente ser varrida, mas permanece silenciosa, como se estivesse ferida e hibernando. As forças hidropolíticas, então, buscam de todas as formas destruir de vez a resistente e tácita Terra e, logo, provocar explosões no continente, isto é, mobilizar o Fogo como um coadjuvante, um Fogo que elas mesmas não manipulam, mas deixam as forças mercenárias, empregadas secretamente em países com uma abundância de jovens sem emprego, para realizar o seu trabalho sujo. O ápice do poder marítimo e aéreo pode ser observado com a destruição do Iraque de Saddam Hussein em 2003, sem a cumplicidade de aliados e estrangeiros (do eixo Paris-Berlim-Moscou). A guerra contra o Iraque Baathista não resultou numa completa vitória para os agressores neoconservadores. Os poderes marítimos, como não são poderes terrestres, são relutantes em organizar áreas ocupadas como os geômetras romanos faziam. Dessa forma, para manter os países derrotados e destruídos em um estado de total negligência, os poderes hidropolíticos mobilizam o elemento Fogo, isto é, o terrorismo (com sua estratégia de explodir pessoas e prédios e seu fanatismo religioso ardente – “ardente”, derivado do latim “ardere”, que significa “queimar”). Os recorrentes ataques terroristas contra os mercados públicos xiitas são as mais horrorosas ações nesse retorno da violenta piropolítica. O mesmo padrão de violência totalmente destrutiva será usado mais tarde na Líbia. Quando não há mais habilidades de geômetra disponíveis e quando não há mais vontade de criar um novo Estado para substituir o falido Estado anterior, vemos uma transição à piropolítica. A elite militar baathista terrestre do antigo Iraque também se voltou à piropolítica, criando parcialmente o Estado Islâmico, que se espalhou pela vizinhança enquanto era, ao mesmo tempo, uma revolta contra o caos gerado pela guerra neoconservadora de Bush e uma manipulação das forças secretas hidro/thalassopolíticas de pôr fogo em países indesejáveis e, consequentemente, espalhar o Fogo voraz, terrorista e fanático nos territórios dos seus maiores competidores (para a Europa como um porto de refugiados entre os quais se escondem terroristas, para a Rússia, em que os territórios da Chechênia e do Daguestão estão diretamente relacionados a grupos wahhabitas.)

A piropolítica do Estado Islâmico tem um efeito colateral de ridicularizar a característica de “luz-sem-calor” das ideologias iluministas das elites eurocráticas. A Luz por si só cega e não produz soluções genuínas para os novos problemas que foram induzidos pelo inimigo disfarçado da hidro e da piropolítica. Uma ideologia política determinada exclusivamente por uma luz cegante, tão vazia de sentimentos “calorosos” de segurança, está, obviamente, fadada ao fracasso. Os Estados europeus gradualmente se tornam Estados falidos, pois aderem a ideologias de “luz-apenas”, sendo fracamente desafiados pelos “calorosos” movimentos populistas, como são chamados. A Europa está agora sofrendo uma agressão dupla de duas ameaças: uma dos sistemas ideológicos da “luz-sem-calor” – levando ao que Ernst Jünger definia como “pós-história”, e uma da piropolítica importada do mundo islâmico, previamente incendiado por diversos fatores, entre os quais a total destruição do Iraque de Saddam é o mais determinante. A piropolítica do Estado Islâmico é, não obstante, um problema bem complexo: o seu elemento religioso se rebela de forma selvagem contra a ideologia de “luz-apenas”, super influente e globalmente dominante do Ocidente, e promove uma piropolítica alternativa “baseada no calor”, exatamente como um correspondente europeu também buscaria substituir os distúrbios ideológicos antiquados e desoladores de “luz-apenas” com sistemas políticos de coração mais aberto e mais calorosos. O avatar neoliberal da ideologia de “luz-apenas” deve ser, portanto, substituído por uma solidariedade “calorosa”, isto é, um socialismo que deve perder toda a “frieza” que foi atribuída ao comunismo soviético ou francês por Kostas Papaïoannou, uma voz autocrítica do comunismo durante os anos 60 e 70 na França.

Mas ainda há um aspecto selvagem, destrutivo e inflamável na piropolítica: a chama ardente das explosões e das rajadas de metralhadoras (como em Paris e Bruxelas) e algumas das execuções públicas por fogo na Síria ocupada pelo Estado Islâmico, que visam causar medo na Europa através do efeito de mídia que elas inevitavelmente possuem.

Ninguém consegue aceitar uma rejeição radical e forte sem automaticamente negar a si mesmo e o seu próprio direito de existir. O problema se torna ainda mais agudo, já que todo o sistema criado pela ideologia de “luz-sem-calor” (Habermas) não aceita a polêmica ideia do “inimigo”. Aos olhos dos seguidores de Habermas, nunca há um inimigo; há apenas colegas de discussão. Mas se os colegas se recusam a discutir, o que acontece? Brigas se tornam inevitáveis. A elite dominante, assim como os seguidores do raso e infantil Habermas, fica sem qualquer resposta para o desafio. Terão de ser inevitavelmente substituídos. Este será o difícil trabalho daqueles que sempre se lembraram dos ensinamentos de Schmitt e Freund.

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