Ivan Petrovic – Vinte Anos de Dominação Americana em Kosovo e Metoquia como Continuação da Política Imperialista

Este mês marca exatamente vinte anos desde o início do bombardeio da OTAN sobre a República Federal da Iugoslávia, que causou a ocupação da província sérvia meridional e a criação da chamada República do Kosovo, que, na verdade, era um palco de exibição geoestratégica para as potências do atlantismo, principalmente os EUA.

A fim de compreender a situação atual e as condições em Kosovo e Metoquia, primeiro precisamos voltar alguns séculos e compreender a importância geoestratégica dos Bálcãs e a atitude das grandes potências em relação à região.

Antes de tudo, é preciso entender que os Bálcãs estão na “encruzilhada” – um lugar que liga a Europa à Ásia (Menor) – desde o tempo em que os guerreiros de Alá conduziram suas conquistas para o continente europeu por séculos, aspirando espalhar seu estandarte do crescente sobre as fortalezas cristãs. Durante essas conquistas, a administração otomana dependia de cidadãos locais, assim, uma parte da população balcânica aceitou o papel de vassalo e a fé turca.

Tal era o caso entre todos os povos balcânicos (sérvios, búlgaros, gregos, etc.) e, a princípio, era principalmente a casta dominante que se aproximava dos turcos, principalmente para manter sua posição privilegiada. Ainda assim, os turcos depositaram a maior confiança nos albaneses, a princípio suas tribos islamizadas. Eles serviriam para, nos séculos de ocupação otomana e sob administração turca, “disciplinar” (o que de fato significava aterrorizar) a população cristã não-albanesa.

Portanto, a imagem étnica da Velha Sérvia (incluindo Kosovo e Metoquia) está mudando; isso se reflete especialmente depois da chamada Grande Migração dos Sérvios em 1690 e 1740. Até então, as minorias no Kosovo e Metoquia – os albaneses – estavam se espalhando cada vez mais e expandindo suas terras para áreas sérvias desoladas. Este processo continuou até 1912, quando o exército sérvio, após os séculos de ocupação, libertou Kosovo e Metoquia – o coração do Estado medieval sérvio, cujos aromas da Ortodoxia erguiam-se até o céu, acompanhados pelas preces e cânticos dos padres ortodoxos dos mosteiros de Gracanica, Decani, Nossa Senhora de Ljevis, Santos Arcanjos, Patriarcado de Pec, e outros magníficos edifícios sagrados de importância incomensurável, não só para a espiritualidade e cultura do povo sérvio, mas para o patrimônio mundial em geral.

À medida que a influência turca nos Bálcãs enfraquecia, grandes potências, principalmente a Áustria-Hungria, queriam expandir sua influência para essa parte da Europa. Considerando que o povo sérvio, aos olhos das grandes potências, era um fator de construção da nação, “o povo desperto”, e muitas vezes chamado de “pequenos russos” (por causa do caráter ortodoxo e eslavo), e como parte significativa da população na monarquia austro-húngara era sérvia, então a questão dos sérvios do outro lado do rio Drina ainda estava sob consideração, de modo que a política externa austro-húngara dependia de inimigos confiáveis do povo sérvio, principalmente albaneses. Ao fazer isso, a Áustria-Hungria queria impedir o acesso sérvio ao mar e, ao mesmo tempo, reprimir a influência russa nessas terras. Para esse efeito, a Áustria-Hungria estava alinhada com as grandes potências ocidentais, que ajudaram na medida do possível a formação da identidade albanesa e do Estado albanês.

Apesar da Áustria-Hungria ter se desintegrado após a Primeira Guerra Mundial, a Albânia foi usada no período entre as duas guerras para ajustar estabelecer a relação entre a Itália e a Iugoslávia e, como tal, se deparou com a invasão da Itália fascista pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Após o desmembramento do Reino da Iugoslávia durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a criação da Grande Albânia, sob proteção italiana. Nos anos sangrentos da Segunda Guerra Mundial, os albaneses fizeram a mesma coisa que fizeram durante a era turca: atacar os sérvios e suas propriedades – na verdade, com apoio austro-húngaro. [3]

Todos esses eventos históricos, concluindo com aqueles durante o período do comunismo – a proibição dos sérvios banidos de retornarem ao Kosovo e Metoquia e ao mesmo tempo abrindo as fronteiras para os imigrantes da Albânia – mudaram completamente a composição étnica dessa terra santa sérvia. De tudo o que mencionamos, notamos que os albaneses eram muitas vezes um instrumento nas mãos dos países poderosos, o que viria à tona nos últimos anos do século XX, quando as bandeiras albanesas foram plantadas bem ao lado da americana, revelando a ocupação da província meridional sérvia. Assim, a política imperialista americana tem outra importante área geoestratégica sob seu jugo, não apenas por seus recursos naturais, mas também pela criação de um “arco” em torno da Rússia (crucial e, poder-se-ia dizer, o tradicional oponente do Ocidente) e para novas conquistas no leste.

Durante esses 20 anos, os albaneses, confiando nos EUA, têm se esforçado para abolir até mesmo o menor rascunho que seja do Estado sérvio em Kosovo e Metoquia, além de sabotar todas as ações dos sérvios de Kosovo e Metoquia conduzidos fora das instituições do autoproclamado “Estado” em Pristina. O clímax das ações de ocupação foi, sem dúvida, a proclamação da chamada independência do Kosovo, ocorrida em 17 de fevereiro de 2008, que encorajou ainda mais os albaneses de Kosovo e Metoquia.

Não é por acaso que os EUA foram os primeiros a reconhecer a chamada independência do Kosovo (tão cedo quanto 18 de fevereiro), assim como todos os países influenciados pelos EUA. Ao fazê-lo, confirmou-se mais uma vez que não só o Kosovo está sob proteção americana, mas também todos os países que seguem as políticas dos EUA e executam os seus comandos. Contribuindo para isso está o fato de que os EUA têm bases militares em mais de 70 países, cobrindo mais de um terço de todos os países do mundo. [4]

Aqui temos que salientar que a força militar não é o único meio de ocupação, mas há uma espécie de guerra propagandístico-cultural, que muitas vezes é um método mais perigoso porque parece a “síndrome da rã fervida”, que nem sempre é tão transparente. O melhor exemplo disso é precisamente a Sérvia, onde várias associações e ONGs espalham a política americana; e isso não estava tão presente antes de 5 de outubro de 2000. De acordo com uma pesquisa conduzida pela Telegraf que se refere aos dados da Fundação Nacional para a Democracia dos EUA, a mencionada associação doou mais de 730 mil dólares para organizações na Sérvia.[5] Nos documentos do WikiLeaks, você pode encontrar um despacho da Embaixada dos EUA em Belgrado, onde as atividades das ONGs são mencionadas. [6]

Para piorar a situação, todos os governos têm mais ou menos as mesmas políticas depois de 5 de outubro, o que não é surpreendente se você sabe que os centros ocidentais de poder estiveram ativamente envolvidos na derrubada de Milosevic. Ao fazer isso, a posição da Sérvia em Kosovo e Metoquia está enfraquecendo, já que a política externa americana está intimamente ligada aos interesses albaneses em Kosovo e Metoquia, portanto não é incomum que o Ocidente, em acordo com ONGs “domésticas”, esteja transferindo a culpa para a Sérvia e seu povo pelas guerras dos anos 90. É assim que a luta sérvia pelo Kosovo e Metoquia está sendo prejudicada, dizendo-se que “é uma relíquia do passado” e “um obstáculo” que “se coloca no caminho da Sérvia em direção às integrações euro-atlânticas”.

Vinte anos depois, a posição da Sérvia em Kosovo e Metoquia está visivelmente enfraquecida. A assinatura do Acordo de Bruxelas tem um papel importante nisso, e a “correção de fronteira” foi mencionada muitas vezes em público, o que seria, de acordo com muitos, um reconhecimento de fato da independência do Kosovo, até mesmo pela Sérvia; poderíamos supor o papel dos EUA nessa questão. A única esperança para a Sérvia é que as tropas dos EUA se retirem de Kosovo e Metoquia algum dia, da mesma forma que fizeram no Vietnã e atualmente estão fazendo da Síria.

Isso dependerá de muitos fatores geopolíticos, mas definitivamente abrirá caminho para a libertação de Kosovo e Metoquia. É por isso que, se não por outro motivo, Kosovo e Metoquia devem permanecer em nossos corações e pensamentos, alertando não apenas os políticos de hoje, mas também as futuras gerações, que o destino da Sérvia é inseparável de sua alma, Kosovo e Metoquia, e que haverá um dia em que um soldado sérvio agitará a bandeira da liberdade mais uma vez no lendário Kosovo Polje.

[1] See more in The Influence of Austria-Hungary on the Formation of Albanian Nation, Teodora Toleva, Belgrade, 2016

[2] See more in War after the War, Dmitar Tasic, Belgrade, 2012

[3] This especially refers to the retreat of the Serbian Army and “Albania’s Golgotha” in 1915

[4] See more: https://bigthink.com/strange-maps/the-worlds-five-military-empires

[5] https://www.telegraf.rs/vesti/1029548-istrazujemo-koja-je-americka-nevladina-organizacija-dala-srpskim-nvo-730-000-dolara

[6] wikileaks.org, documents:

08BELGRADE111 (Created 2008-01-29)

07BELGRADE1553 (Created 2007-11-15)

09BELGRADE1166 (Created 2009-10-09)

06BELGRADE489 (Created 2006-03-28)

06BELGRADE1502 (Created 2006-03-28)

06BELGRADE1719 (Created 2006-10-20)

08BELGRADE118 (Created 2008-01-30)

07BELGRADE709 (Created 2007-05-21)

07BELGRADE1744 (Created 2007-12-31)

08ZAGREB181 (Created 2008-03-03)

08BELGRADE450 (Created 2008-05-07)

08BELGRADE744 (Created 2008-07-24)

08BELGRADE773 (Created 2008-07-30)

Ivan Petrovic

Ativista político sérvio, colaborador independente da NR e autor, editor e publicista da revista sérvia "Identidade".

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