A Ascensão do Sionismo Cristão – A Investida do Cristianismo Evangélico à Palestina

A Investida Cristão-Evangélica à Palestina Baseada em uma Interpretação Literal da Bíblia, Ausente de Genuíno Conteúdo Religioso
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou que a embaixada dos EUA na Palestina ocupada fosse transferida de Tel Aviv para Jerusalém, provocando distúrbios em todo o mundo muçulmano, apesar das advertências dadas a ele por sua própria equipe de segurança nacional. A oração de abertura da nova embaixada foi proferida pelo reverendo evangélico Robert Jeffress. A oração de encerramento, por sua vez, foi realizada pelo também reverendo evangélico John C. Hagee, em 14 de maio de 2018, no 70º aniversário da criação da entidade sionista comumente conhecida como Israel. Não foi surpreendente ver pastores evangélicos desempenhando um papel tão importante neste evento, pois 81% dos cristãos evangélicos votaram em Trump.

Mas quem são os cristãos evangélicos? O evangelicalismo é uma seita puritana do Cristianismo, caracterizada por uma espiritualidade superficial e que toma uma interpretação literal das escrituras cristãs, semelhante aos wahhabis do islamismo sunita. Além de seus esforços tanto em atacar os ideais considerados mais à esquerda dentro do espectro político americano quanto em apoiar o neoliberalismo local, os evangélicos também defendem uma política externa radical que sempre tenta justificar a ingerência de seu país sobre os demais, especialmente na Palestina. Essa interpretação puritana do Cristianismo, nos Estados Unidos, contemplou a criação de uma forte rede de mega igrejas, escolas e universidades evangélicas, além da criação de uma quase onipresença nas mídias de rádio, televisão e, também, em novos meios de comunicação de massa, como aplicativos e mídias sociais.

Os analistas políticos americanos ficaram extremamente confusos tentando entender o motivo pelo qual Trump causaria uma imensa provocação mundo afora simplesmente para reconhecer Jerusalém como “a capital eterna de Israel”. A resposta, na verdade, é bastante simples e direta.

A chave de interpretação disso está no que é estabelecido na crença evangélica, que eleva o sionismo a um status dogmático. Sendo o vice-presidente americano, Mike Pence, não apenas um mero partícipe da seita evangélica, mas um dos membros mais fervorosos e comprometidos de tal sionismo cristão.
O estudioso Daniel G Hummel afirma que: “O sionismo cristão tem uma longa história na política americana, mas nunca havia conquistado o púlpito da Casa Branca. As administrações passadas usavam frequentemente uma linguagem bíblica genérica em referência a Israel, mas nunca a teologia evangélica do sionismo cristão esteve tão próxima do aparato de elaboração de políticas do Poder Executivo. Ao identificar-se com o sionismo cristão enquanto está no cargo, Pence compromete a busca contínua do governo Trump por um acordo para resolver o conflito israelo-palestino, bem como corrói a alegação dos EUA de que podem ser um “intermediário honesto”, [isento] no Oriente Médio.”

Os evangélicos acreditam que haverá uma grande tribulação em que, no final, Nosso Senhor Jesus Cristo derrotará o mal, mas depois de desastres naturais, guerras e o Anticristo devastarem o mundo. Depois dessas tribulações, os evangélicos acreditam que o povo da aliança mosaica, incluindo os judeus, se converterá. Eles acreditam que, com os judeus reivindicando as terras sagradas para si mesmos, eles estão aproximando o mundo da segunda vinda de Cristo e, portanto, desempenham um papel fundamental na profecia cristã.

Em janeiro, quando Pence visitou Israel e falou no Knesset (parlamento israelense cujo prédio foi construído pela família Rothschild), os chefes das igrejas cristãs estabelecidas na Palestina recusaram-se a encontrar-se com ele durante sua viagem, revelando um imenso distanciamento entre os evangélicos e os cristãos da Terra Santa, praticantes de vertentes tradicionais do Cristianismo. O arcebispo Atallah Hanna, chefe da diocese Sebastia da Igreja Ortodoxa Grega em Jerusalém, declarou: “Os cristãos evangélicos são o equivalente a fantoches a serviço do empreendimento sionista. Eles são inimigos dos verdadeiros valores cristãos. Quando eles vêm para a Palestina, não visitam a Igreja do Santo Sepulcro ou a Igreja da Natividade, mas sim [comunidades judaicas] localizadas nas terras roubadas de nosso povo, como um sinal de solidariedade com [Israel].”

Essa abissal desconexão entre os cristãos da Terra Santa e os evangélicos demonstram que em busca de uma profecia equivocada, estes estão dispostos a negligenciar hipocritamente as principais virtudes que apregoam, como o amor ao próximo e a unidade da Igreja de Jesus Cristo, enquanto os cristãos palestinos continuam a experimentar os piores tipos de apartheid, discriminação e injustiça cotidianamente. Essa experiência não se reduz apenas aos palestinos muçulmanos, mas também à considerável parcela de cristãos habitantes na região, que sofrem dia após dia com a perseguição do expansionismo sionista.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Dar al-Kalima, na cidade ocupada de Beit Jala, na Cisjordânia, descobriu que: “A pressão da ocupação israelense e suas restrições contínuas, políticas discriminatórias, prisões arbitrárias, confisco de terras, etc, aumentaram o senso geral de desesperança entre os cristãos palestinos.” E que essas condições colocaram os cristãos da Palestina em “uma situação desesperadora em que eles não podem mais vislumbrar um futuro para seus filhos ou para si mesmos.”

[No Brasil]
Embora possa parecer que a mudança da embaixada americana seja um incidente isolado, não surpreende que a eleição de outubro de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil faça com que a embaixada brasileira também se mude para Jerusalém. Bolsonaro foi batizado por um pastor evangélico no rio Jordão em 2016, local onde Nosso Senhor, segundo as Escrituras, também foi batizado. Esse feito o levou a obter o apoio da poderosa minoria evangélica do Brasil, que acredita-se ser pelo menos 27% da população. Portanto, não é de surpreender que uma de suas primeiras declarações depois de se tornar Presidente foi anunciar a realocação da Embaixada Brasileira para Jerusalém: “Como dito anteriormente durante nossa campanha, pretendemos transferir a Embaixada Brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Israel é um Estado soberano e nós devemos respeitar isso ”, afirmou Bolsonaro logo após eleito, n’um claro alinhamento com a política internacional de Trump, o que reforça a sua imagem como um “Trump Tropical ”.

Em outra declaração chocante, ele ameaçou fechar a embaixada da Palestina na capital brasileira, dizendo: “A Palestina é um país? A Palestina não é um país, então não deve haver embaixada aqui ”, e que“ não negociamos com terroristas ”. Com tal agressão à Palestina, não é surpreendente que as autoridades israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tenham elogiado Bolsonaro, especialmente por ter lançado uma narrativa de que a totalidade da população palestina é formada por terroristas – incluindo conhecidos e respeitados líderes cristãos, idosos, mulheres e crianças. Diante deste quadro, disse Netanyahu a Bolsonaro durante um telefonema de congratulações: “Tenho certeza de que sua eleição levará a uma grande amizade entre nossas nações e ao fortalecimento dos laços entre Israel e o Brasil”. “Estou ansioso pela sua visita a Israel”, acrescentou ele.

[O Exemplo Australiano]
Em outra investida do sionismo cristão à Palestina, ocorrido em 2018, Malcolm Turnbull foi derrubado do cargo de primeiro-ministro australiano em Agosto, em um golpe brando, e substituído pelo pentecostal Scott Morrison. O novo líder, em um de seus primeiros movimentos como chefe de Governo da Austrália, anunciou as intenções de seu país de transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém até o Natal daquele ano. O plano inicial do deslocamento da embaixada foi rapidamente confrontado, e derrubado, pela mídia, comentaristas e até muitos integrantes de seu próprio partido.
Embora ainda seja possível questionar se Camberra (capital Federal da Austrália) vai seguir com sua ameaça, o que é certo é que com a ascensão dos cristãos sionistas a posições de poder de nível global, os palestinos – muito dos quais cristãos – continuarão a ser vistos como terroristas traidores que estão impedindo a segunda vinda de Cristo.

Essa agressão contra os palestinos é vista, sentida e experimentada pelos cristãos sionistas, que são vistos com desdém pelos cristãos nativos de toda a Palestina, já que os evangélicos ignoram a situação e a luta da Igreja Cristã na Terra Santa em resistência às pressões, discriminação e violência das autoridades israelenses, que numa atitude expansionista, invadem terras alheias e, mesmo contrariando tratados internacionais, tem, por várias vezes, respaldo das grandes potências estrangeiras para realizar suas ingerências e perseguições.

Embora os cientistas políticos possam ver os conflitos e a diplomacia contemporâneos através do escopo da teoria política, dominados pelas lentes do realismo, a ascensão do sionismo cristão também deve ser estudada e entendida. O sionismo renova-se como a maior superpotência do mundo agora (ou talvez sempre tenha sido?),pois, parcialmente guiada por tal pensamento teológico, aderem a seu projeto, além dos EUA, também a maior nação da América Latina, o Brasil e, seguindo tal exemplo, o cão de guarda que os americanos mantém no Pacífico, a Austrália. Essa teoria teológico-política pouco estudada e subestimada não pode mais ser ignorada pelos cientistas políticos contemporâneos, especialmente porque a existência de uma Palestina independente e soberana está em jogo.

Tradução de Vinícius Moreira

Paul Antonopoulos

Ativista político de origem grega, colaborador independente da NR e analista político do jornal Fort Russ e do Center for Syncretic Studies.

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