O catolicismo não é a causa do “atraso” dos povos latinos

Uma narrativa domina os meios direitistas brasileiros. A narrativa de que o subdesenvolvimento brasileiro (e de outros povos latinos, não só americanos como europeus) teria entre as suas principais causas a religião católica e a cultura desenvolvida ou influenciada por ela.

Enquanto anglo-saxões protestantes seriam “trabalhadores”, latinos católicos seriam “preguiçosos”. Inventam até teorias mirabolantes e, obviamente, falsas de que os anglo-saxões não teriam feriados de santos e que os problemas econômicos de países latinos seriam culpa dos “feriados de santos”.

Dezenas de outras narrativas se misturam com essas, todas elas unidas por um essencialismo que tenta naturalizar o subdesenvolvimento e o papel subordinado da América Latina, e retirar essas condições do âmbito das possibilidades de ação e mudança.

Vemos isso no futuro vice-presidente Hamilton Mourão, que amaldiçoa a herança nacional portuguesa como culpada pelo nepotismo e pela corrupção. Vemos isso no Brasil Paralelo. Vemos isso em artigos e livros do Leandro Narloch. Vemos isso em Olavo de Carvalho, etc.

Parece ser praticamente uma unanimidade entre direitistas que seria melhor se o Brasil tivesse sido colonizado pela Inglaterra. Essas pessoas provavelmente se esquecem de que a Jamaica, a Guiana e Zâmbia também foram colônias inglesas.

Essas narrativas não são desinteressadas. É necessário compreender que todas elas fazem parte de um projeto, cujo objetivo é justificar a manutenção da condição subalterna do Brasil no sistema internacional. Naturalizar, essencializar esses problemas é uma questão de conveniência e interesse.

Essas narrativas garantem duas coisas: Nenhuma atitude será tomada dentro dos âmbitos políticos e econômicos que tire o Brasil dos rumos atuais. Afinal, o problema não seria aí, mas em alguma “essência”. Ao mesmo tempo, se garante vigor para projetos que visem transmutar a essência brasileira para aproximá-la da essência anglo-saxã.

Poderíamos virar protestantes, como Quênia e o Congo são, oras. Exemplares países de Primeiro Mundo são Nigéria e Lesotho, que também tem maioria protestante, não? Não há “ética protestante” capaz de nos retirar de nosso atual estado de subdesenvolvimento e dependência se a partir do comando político não forem tomadas as decisões corretas no sentido da insubordinação nacional visando nossa soberanização.

Qual foi, em primeiro lugar, a causa da decadência de Portugal e Espanha, após se tornarem as primeiras potências mundiais no século XV? Não foi o catolicismo, não foi culpa da “siesta” pós-almoço. Um sono pós-almoço durante 2-3 horas é comum na Noruega rural, e aquele país não é nem católico, nem subdesenvolvido.

Está na hora de parar de “essencializar” tudo e começar a compreender a primazia da Vontade e da Ação na história humana.

Portugal e Espanha foram ultrapassadas pela Grã-Bretanha no final do século XVII porque enquanto a Grã-Bretanha já começou a partir do final do século XVI o seu processo de industrialização, os dois impérios ibéricos foram incapazes de se converterem, primariamente, em produtoras de manufaturas e depois de se industrializarem.

Foi a “maldição de Montezuma”, o ouro americano amaldiçoado, que arruinou os impérios ibéricos (não muito diferente de como a riqueza tomada por Roma dos cartagineses plantou a semente de sua decadência). Toneladas e mais toneladas de ouro entravam pelos portos ibéricos anualmente.

Com ouro, quem precisa investir em qualquer outra coisa? Portugueses e espanhóis se acostumaram com suas montanhas de ouro. Usavam essas montanhas de ouro para comprar manufaturados ingleses, holandeses, italianos, etc. Chegaram inclusive à loucura de matar a indústria de ourivesaria em seus países (insanidade absoluta!) para evitar a escassez de metal com o qual se entupiam de bens estrangeiros.

A riqueza conquistada nas Américas serviu para construir incontáveis universidades (os filhos de camponeses e artesãos queriam se tornar acadêmicos, ao invés de aprimorar o ofício de seus pais), enriquecer nobres e burocratas imperiais, mas em sua maioria foi parar fora da Península Ibérica.

Para piorar, a afluência de ouro resultou em uma espiral inflacionária que levou a uma crise que causou a fuga de boa parte da população da Espanha para o Novo Mundo, piorando ainda mais a situação. Em Portugal as coisas não foram melhores, e a “independência” em relação à Espanha se deu às custas da submissão portuguesa à Inglaterra.

O caso da decadência dos impérios ibéricos não é muito diferente da continuada subordinação e subjugação dos países da América Latina às potências do Primeiro Mundo. A riqueza em recursos naturais faz com que elites oligárquicas desprezem ou até mesmo ativamente sabotem qualquer tipo de iniciativa política de reduzir a dependência em relação a exportações de produtos primários.

A influência ideológica estrangeira, enquanto isso, insiste que industrialização é “coisa do passado”, ou que a industrialização virá com redução de impostos, fim de direitos trabalhistas, mais poder para as corporações. Defendem que façamos aqui o oposto do que Grã-Bretanha e EUA fizeram em seus países no passado.

Então não, a causa de nossa subordinação atual e a causa da decadência dos impérios de Portugal e Espanha no passado nada tem a ver com nosso catolicismo, com o sangue ibérico, com nossa cultura, com nossos feriados de santos, com a “siesta” ou qualquer coisa que nos torna quem somos. Quem tenta vender essas ideias estapafúrdias está preparando terreno para o imperialismo neopentecostal e para a propaganda ideológica estrangeira.

A causa da subordinação foi a comodidade causada pela conquista de fontes naturais de riqueza, somada com a sabotagem intencional de elites oligárquicas e a incompetência ou falta de vontade do poder central de tomar o mesmo caminho que as grandes potências tomaram para alcançar seu atual estado de desenvolvimento.

Arrogância, má vontade, incompetência e traição. Uma nova elite deve substituir as atuais elites decadentes. Uma revolução deve varrer os parasitas que nos mantém subordinados. Assim começaremos a mudar as coisas.

Enquanto isso:

Viva a siesta!

Viva os feriados de santos!

Viva a Latinidade!

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