De Damasco a Teerã: a inusitada missão diplomática de Collor no Oriente Médio

Em meio a um período de caos e de anunciadas catástrofes diplomáticas envolvendo o novo governo brasileiro, uma luz no fim do túnel brotou de uma figura improvável. 

Em meio a um período de caos e de anunciadas catástrofes diplomáticas envolvendo o novo governo neocon brasileiro (encabeçado sobretudo pelas pretensões subservientes filo-ocidentais de Jair Bolsonaro e do novo chanceler, discípulo do escritor Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo), uma luz no fim do túnel brotou de uma figura improvável: o senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTC), atual presidente da comissão do senado de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

No exercício de suas atribuições parlamentares, Collor realizou no mês de novembro uma série de visitas a diversos países antiglobalistas, respectivamente: Coreia Popular, Síria, Líbano e Irã (sendo os três últimos, berços do chamado “Eixo da Resistência”). A mensagem, ao que tudo indica, é clara e tem endereço: a linha seguida pela diplomacia parlamentar do senado é distinta e mesmo antagônica daquela projetada pelo novo governo. Ao invés de uma diplomacia exclusivamente voltada para a manutenção do status quo unipolar, munida de uma reprodução abrasileirada da retórica neoconservadora americana, com o Brasil funcionando como mero satélite das agendas geoestratégicas das potências atlantistas no cenário internacional (com o diferencial de emular também a retórica trumpista no que concerne às instituições de direito internacional, como a ONU), uma diplomacia pautada no reconhecimento da ordem internacional multipolar e na manutenção e aprofundamento das tradições diplomáticas brasileiras de amizade e cooperação com os países do mundo árabe (tradições que são antigas, remontando ao período militar, e que se justificam, entre outras coisas, pela presença demograficamente relevante das comunidades árabes no tecido social brasileiro).

Mas Collor foi mais além. Em um histórico discurso proferido no Plenário do Senado, em Sessão Deliberativa Extraordinária, na quinta-feira do dia 22 de novembro, o senador teceu considerações sobre sua viagem, expressando suas percepções gerais sobre os países visitados e ofertando uma série de diagnósticos. Começando pela Síria (onde Collor se reuniu pessoalmente com o presidente Assad).

“Vi uma Síria que não é apresentada pela grande mídia internacional, a qual, nos últimos anos, vem insistindo numa narrativa que deturpa a realidade e que só interessa aqueles que moveram, contra o povo e o governo, uma brutal guerra de agressão, destruição e morte”, disse o parlamentar, que prosseguiu sublinhando o caráter internacional do conflito e o patente envolvimento das potências ocidentais e seus aliados no financiamento de grupos terroristas:

“Longe de ser uma guerra civil, o que temos ali é um conflito internacional, uma guerra por procuração, onde forças terroristas radicais, liberadas do caos imposto ao Afeganistão, ao Iraque e à Líbia, estimuladas e financiadas desde o exterior por atores regionais e globais, são utilizadas para o cumprimento de interesses estratégicos e geopolíticos egoístas”.

O senador lembrou das gigantescas perdas materiais e humanas que os mais de sete anos de um conflito arrastado provocaram e afirmou que a condição necessária para o contorno da crise síria é a retirada total das forças de ocupação estrangeiras e o fim da presença estrangeira e “ilegal” no país árabe, em uma referência à Coalizão Internacional liderada pelos Estados Unidos, duramente criticada por ele em razão das diversas agressões unilaterais e injustificadas ao território sírio. Segundo o parlamentar, as ações irresponsáveis e atrozes de tais potências são incoerentes como um “mundo que se afirma cada vez mais multipolar”

Fernando Collor também frisou os mais de setenta anos de amizade entre Brasil e Síria, bem como a contribuição da migração síria para o desenvolvimento de nossa Pátria em variados campos. “A Síria é um país amigo: tudo o que lá acontece, nos impacta e nos importa”.

Em seguida, Collor discursou sobre sua passagem pelo Líbano, onde teve a oportunidade de visitar diversos locais sagrados para cristianismo e islamismo, como também de contemplar a riqueza étnica e a multipolaridade interna libanesa, onde convivem pacificamente dezenas de comunidades orgânicas distintas. E em um dos mais contundentes trechos de seu relato, após descrever os fortes laços que ligam Brasil e Líbano, falou firmemente acerca dos irresponsáveis planos do governo Bolsonaro de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém:

“Caberia neste momento, pergunto eu, a desditosa iniciativa de abandonar mais de meio século de ação e coerência diplomática em troca de ganhos incertos e da decepção de países amigos, como o Líbano, e de todos os demais países do mundo árabe?” 

Por fim, o presidente da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado versou sobre sua estadia na República Islâmica do Irã, mantendo o mesmo tom dos relatos anteriores, sublinhando à arquitetura diplomática brasileira, construída ao longo de décadas por governos de diferentes orientações, e da necessidade preserva-la em detrimento de uma diplomacia puramente ideológica, “seja de esquerda ou de direita”

Em tempos como os nossos, uma figura como Fernando Collor ser um contrapeso geopolítica bem vindo só mostra o estágio da ferida aberta que aflige a política nacional. De qualquer forma, não parece ocasional a escolha destes países para a realização de uma diligência parlamentar. Vamos ver como isso se desenrola e o que Collor nos mostra nos próximos anos.

Isaque Santos

Psicólogo, ativista político e membro da NR-RJ.

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