15 de novembro é um dia de mentiras

Hoje é aquele dia em que se comemora uma República estabelecida pelo golpe de um general monarquista que se encontrava ressentido.

Apoiado por maçons e por senhores de terras amargurados com o fim da escravatura sem indenização para os antigos proprietários de almas.

Que sabotou um industrialização incipiente, um projeto de reforma agrária e até de uma reparação aos ex-escravos.

Que reduziu drasticamente a participação popular, inclusive nas eleições.

Cuja organização social e política imitava o federalismo ianque [Estados Unidos do Brasil].

E favorecia a permanência do poder de oligarquias diminutas.

Cujo horizonte intelectual era imitar a Belle Époque europeia, deixando o povo e seus costumes de fora dela.

Mas é um dia disputado por duas mentiras.

A de uma República que odiava o próprio povo, restringia sua participação e se queria uma ”civilização europeia” nos trópicos; e a de um Império católico dominado por maçons e que copiava instituições inglesas, nascido de um pacto escravocrata entre comerciantes que se pretendiam ”nobres”.

Os dois modelos institucionais buscavam se adequar, felizes, à divisão internacional do trabalho e possuíam faíscas tolas no olhar fixado na Europa iluminista.

Hoje veremos as excrecências chamadas ”monarquistas liberais” saindo à luz do dia pra mentir descaradamente sobre um pretenso paraíso monárquico brasileiro, repleto de honra, estabilidade, patriotismo e prosperidade.

Ora, não poupamos a República, inaugurada por uma quartelada e que entre nós se tornou sinônimo de oligarquia anti-popular e ocidentalista.

O problema é quando as pessoas FINGEM não saber que Dom Pedro I teve de abdicar por causa de uma forte pressão liberal, que se expressava em confrontos nas ruas, e que foi influenciada por sua vez pela onda de revoluções liberais na Europa em 1830.

Esquecem que o país passou por suas piores guerras civis, algumas especialmente sangrentas, durante o Império. [antes que falem do período regencial, não custa lembrar que a última das revoltas só chegou ao fim em 1850, uma década depois de ter se iniciado o Segundo Reinado].

Esquecem também que Dom Pedro II chegou ao poder por meio de uma golpe branco, a maioridade. E, portanto, pega mal ficar apontando o dedão para um suposto ”pecado original” de Deodoro da Fonseca.

A fragilidade institucional no Brasil não é uma invenção da República. Pelo contrário, a República é, em certo sentido, fruto dela. A estabilidade idílica que alguns gostam de projetar no Império inexistiu durante a maior parte de sua duração.

E rememoremos nesse dia a mentalidade escravocrata, a economia assimilada à divisão internacional do trabalho, a inexistência de um projeto de país que incluísse e partisse das populações brasileiras, a elite cleptocrata e latifundiária que se apropriava de parte indecente da riqueza nacional etc.

Nada disso foi invenção da Primeira República.

O 15 de novembro foi uma grande porcaria; mas o Império era outra igualmente insatisfatória e devia ter sido sacudido a partir de baixo. Esse sim é o grande erro que é atualizado dia após dia entre nós. Não a forma de Estado e de governo. Mas o adiamento sem fim do terrível e necessário dia do acerto de contas.

Não é um dia de comemoração. É um dia de lembrar que ainda não houve ajuste de contas entre o Povo e a casta dos parasitas no Brasil.

Não é República x Monarquia a nossa grande contradição e, portanto, não é nessa dualidade que está a decisão sobre o nosso futuro coletivo. É na dualidade entre o Povo e uma elite formada por gentinha de origem comerciante e raízes suspeitas, que tem parasitado o nosso país já há séculos.

Monarquia? República? Tanto faz. Tudo que importa hoje é o ajuste de contas.

LIBERDADE! JUSTIÇA! REVOLUÇÃO!

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