Um pouco do que perdemos com o incêndio no Museu Nacional [com fotos]

Descrição e registros fotográficos, respectivamente.

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O Museu Nacional possuía mais múmias do que o Louvre. Abaixo, múmia atacamena, encontrada no Chile e que possuía mais de 4 mil anos. Não resistiu ao descaso da Nova República pela cultura nacional, pela ciência brasileira, por nossos museus e pelo Rio de Janeiro.

Presentes do Príncipe do Daomé Adandozan ao Príncipe Dom João VI, em 1810. Esse trono é mais velho que o próprio Museu Nacional e uma das primeiras peças de seu acervo. Perdido, irrecuperável.

Tigela ritualística de indígenas brasileiros. Essa é do século III. Era aqui que degustavam o resultado do ritual antropofágico. Perdido, irrecuperável, sem volta.

Preguiças-Gigantes. O Museu possuía fósseis importantíssimos, crânios de tiranossauro, ovos de dinossauros, mais de um quarto dos fósseis de pterossauros do planeta. Resistiram milhões de anos, passaram por eras geológicas, só pra serem destruídas pelo descaso da República atual pela ciência, pela cultura, pela História, pelo Brasil.

Tambor ritualístico da tribo tukano, uma tribo indígena amazônica. Com ele é possível se comunicar com os espíritos de esferas elevadas. Os governos neoliberais no Brasil o destruíram.

Afresco com pavões sobre candelabros. Sobreviveram ao fim de Pompéia, destruída pela erupção do Vesúvio há quase dois mil anos. Mas não resistiram à degradação do nosso país, a cada dia mais distante entre aquilo que poderia ser e aquilo em que efetivamente se tornou.

Máscaras ritualísticas do povo Tikuna, que vive no Brasil, Peru e Colômbia. A destruição não tem limites, o poço da vergonha não tem fundo.

Múmia de uma mulher. Essa relíquia foi encontrada em Goiás. Talvez fosse melhor se não tivesse sido encontrada. Um povo que tem Temer e a Fiesp como governantes não merece mesmo manter identidade, memória, nem pesquisa.

Tronco petrificado que segundo paleontólogos tinha cerca de setenta milhões de anos. Esse vinha da Antártica, e viveu em um período em que esse continente estava tomado por grandes florestas. Acredite se quiser, esses troncos superaram eras geológicas, mas não puderam superar o descaso e a canalhice de nossas elites políticas.

Múmia Aymara. O formato do crânio acusa sua nobreza. Cuidadosamente sepultada. Conseguimos destruí-la.

Instrumentos de ritos associados à metalurgia, tribos indígenas da América do Norte. Algumas das mais de vinte milhões de peças perdidas.

Artefatos e representações xamânicas oriundas da civilização Huari, um dos primeiros impérios dos Andes conhecidos pela História, que se desenvolveu há 1500 anos nos atuais Peru e Bolívia. Não fomos dignos de guardá-los e protegê-los.

Vasos canopos egípcios. No ritual da mumificação, certos órgãos passavam por alguns processos especiais e eram guardados nesses receptáculos, cada um deles dedicado a um deus associado ao Am Duat e aos mistérios da morte. Construídos para proporcionar imortalidade às personalidades que estavam ligados a eles, sobreviveram milhares de anos até que a elite política que atualmente governa nosso país os destruísse por causa de seu desamor pelo Brasil e por tudo que poderíamos ter sido, mas nunca realizamos. Tirei essa foto em março desse ano.

Cota de malha do século XVI, provavelmente francesa. Registro dos primeiros contatos entre ameríndios e europeus na costa do nosso país. Perda irreparável.

Bastão totêmico oriundo das Ilhas do Pacífico. Parte de um acervo que deveria ser motivo de orgulho nacional, mas cujo fim se tornou uma das maiores vergonhas da nossa História. Se não conseguimos preservar nem esses tesouros, vamos preservar o quê?

André Luiz dos Reis

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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