PAX AMERICANA

Uma das pedras angulares da política externa americana a partir do século XX tem sido o conceito kantiano de “Paz Perpétua”. O conceito kantiano de “Paz Perpétua” é a base do pensamento liberal em geopolítica, e a única controvérsia que existe em relação a isso é o fato de alguns liberais acreditarem que a famigerada “Paz Perpétua” pode e deve ser alcançada apenas através do livre-comércio.

Assim, apesar dos EUA terem continuamente, a partir do século XX, lançado mão do comércio como arma de subjugação e controle de outros países, a guerra segue sendo sua ferramenta favorita, a ponto de, com a intensificação e aceleração das intervenções militares americanas a partir do 11 de Setembro, se começar a falar em uma “Guerra Perpétua pela Paz Perpétua”.

Não se trata de qualquer tipo de contradição, hipocrisia ou oportunismo, mas de um compromisso ideológico liberal, sustentado desde os primórdios, no que tange a ideia de que travar guerras para derrubar governos i-liberais, e substituí-los por governos liberais, é justo em si mesmo e uma das melhores maneiras de garantir paz e unidade global a longo prazo.

É nesse contexto que devem ser entendidas todas as atrocidades cometidas pelos EUA em sua política externa ao longo dos últimos 100 anos. Não importa quem, quantos e em que circunstâncias morram as vítimas dos EUA. O que importa é que eram cidadãos de ditaduras fascistas ou comunistas, de tiranias, de monarquias absolutistas, de regimes “bárbaros”, “primitivos” e “atrasados”. E libertar os cidadãos desses países, mesmo que eles não o quisessem, é um dever moral incontornável.

Esse é o compromisso ético que os EUA elevaram ao patamar de dogma ideológico em sua geopolítica. Um compromisso axiológico com os pés firmemente fincados no típico racismo iluminista de quem crê que as formas e sistemas de governo e organização econômica e sociais construídas no extremo Ocidente a partir da modernidade são as melhores e as únicas morais, devendo ser impostas a todos: pela guerra ou pela sabotagem interna (através de ONGs, mídias e quinta-colunas de todo tipo).

Quando um presidente americano ganha um Nobel da Paz e o mesmo presidente americano é um dos que mais bombardeou países estrangeiros na história de seu país, não se deve enxergar isso como algum tipo de “duplipensar”. O presidente americano realmente crê que as montanhas de corpos necessárias para a “Paz Perpétua” não passam de dano colateral.

É por isso que, enquanto para o resto do mundo, o ataque nuclear (e desnecessário) contra Hiroshima e Nagasaki foi uma atrocidade monstruosa, para o típico americano, foi só mais um dia comum tentando “salvar o mundo” do bicho-papão da década: fascismo, comunismo, terrorismo ou o que seja. A culpa é da própria vítima. Racionalizam os bombardeios com base em narrativas sobre atrocidades que os japoneses teriam cometido contra os chineses.

Mas o que, por um acaso, os americanos têm a ver com isso? A lógica americana teria sua equivalência se um belo dia, os inuits, os somalis ou os gregos simplesmente resolvessem lançar bombas atômicas sobre Nova Iorque pelas atrocidades cometidas pelos americanos contra os indígenas norte-americanos.

O caráter grotesco desse humanitarismo universalista escapa a todo demo-liberal. A título de exemplo, a única polêmica que o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki levantou entre burocratas e cientistas americanos se deu no sentido de que parte deles preferia que, ao invés de um bombardeio contra o Japão, as bombas fossem usadas contra a Alemanha (prova cabal e irrefutável de que as bombas atômicas jamais tiveram relação com qualquer objetivo estratégico militar de vencer a guerra, mas com um propósito de demonstração de poder e vingança ressentida).

E o que se passou sobre o Japão em poucos anos, se passou com a Coreia (curiosamente, uma das vítimas do Japão que os EUA se ofereceram para “defender” e “vingar”). Logo aconteceu com o Vietnã. Aconteceu com os cidadãos de vários países latino-americanos. E a lista é imensa e continua crescendo.

A máquina do complexo militar-industrial sabe que o cruzadismo ideológico dos neocons persegue um objetivo que é fundamentalmente inalcançável, mas enquanto ela seguir lucrando trilhões, a máquina seguirá financiando esses cruzadistas. Essa é precisamente uma das razões pelas quais Trump causa incômodo. Apesar de jogar palavras bélicas ao vento, na prática, Trump já está causando prejuízo ao complexo militar-industrial.

Não obstante, a natureza genocida dos EUA permanece. Ela se manifestou mais abertamente no século XX, mas suas raízes são mais profundas e antigas, jazendo no universalismo iluminista que fundou “a América”.

Nunca haverá paz global. E o realismo que nos leva a reconhecer isso é precisamente o primeiro passo que pode permitir uma geopolítica mais sensata e efetivamente humana em um futuro multipolar.

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