Teses sobre a ontologia de Heidegger

I

Tente descrever a essência humana descartando todos os pressupostos metafísicos sobre o homem: biológicos, psicológicos, antropológicos, etc. O que sobra, em tese, é o “puro movimento em direção a…”, ou seja, uma intencionalidade pura. Essa intencionalidade pura é o que Heidegger chama de Dasein.

II

Dasein não é sinônimo de sujeito, e o próprio Heidegger chega a falar em Dasein coletivo em certas obras, como Carta sobre o Humanismo. Em algumas obras, como Introdução à Metafísica, Heidegger chega a identificar o Dasein impróprio com o homem do liberalismo, por ser um homem desenraizado.

III

Dependendo da leitura que se faça de Heidegger, sua visão política e ética é o comunitarismo. Enquanto ser-com, apenas o comunitarismo seria capaz de garantir o enraizamento do Dasein em uma existência autêntica (autenticidade no sentido que Heidegger dá ao termo, como o Dasein que não se deixa dispersar pela impessoalidade; Heidegger também identifica a existência alienante com a sociedade liberal-burguesa). Porém, este comunitarismo heideggeriano está nos antípodas do identitarismo étnico, do qual ele foi um crítico. Mas no que ele chama de “a assunção de um destino comum”.

IV

Por que Heidegger inicia a analítica existencial do ser-aí (Dasein) pelo impróprio e não pelo próprio? Porque não existe modelo paradigmático de propriedade. O próprio, o ser-aí que se apropria, é sempre uma modulação singular do impróprio.

V

Em Ser e Tempo, Heidegger pensa a plasticidade histórica das redes de sentido em conexão com as crises existenciais do Dasein. É o Dasein singular que rearticula o mundo com possibilidades herdadas da tradição, mas enterradas pelo enrijecimento provocado pela impessoalidade. O Dasein singular torna possível a gênese de um novo sentido de ser. Mas afirmar tal coisa é o mesmo que dizer que o singular tem a capacidade de uma transformação tão grande no horizonte do mundo fático, que esse mundo sofre uma nova determinação. Isso é o mesmo que dizer que o Dasein é capaz de alterar todo o mundo por meio da instauração de uma nova medida horizontal de sentido. Mesmo que admitíssemos tal possibilidade, ainda teríamos outro problema. Como garantir essa nova medida instaurada pelo singular, dado que seres-aí diversos podem estar se singularizando ocasionalmente? O Dasein singular nunca suprime totalmente o impróprio, o Dasein singular apenas modula algumas possibilidades específicas. Ele não é capaz de alterar radicalmente toda a sua existência. Mesmo o singular continua se valendo das regras ditadas pelo impessoal para realizar diversas tarefas cotidianas, as quais, se ele fosse se apropriar de todas, sua existência seria simplesmente inviável. Logo, Heidegger identifica uma impossibilidade em se pensar a conexão entre singularização e acontecimento de novas medidas de ser. Essa impossibilidade leva Heidegger a inverter a ordem da investigação que partia do Dasein para o ser, passando a interpelar diretamente o ser em um movimento que, depois da década de 30, passa a ser conhecido como a Viragem.

VI

Na descrição fenomenológica das tonalidades afetivas ou disposições afetivas (Stimmung), Heidegger discrimina aquelas que são ônticas das que são ontológicas. As ônticas geralmente estão relacionadas com algum ente que desponta no horizonte fático. Um exemplo seria o medo. O medo está sempre associado com algum ente que desponta na conformidade como ente ameaçador. Suas variações seriam outros tantos exemplos (entre as tonalidades fáticas, Heidegger parece dar certa primazia para o medo como disposição originária): quando um ente ameaçador se abate sobre o Dasein, nós temos o fenômeno do pavor. O referente ao pavor, assim como o medo, possui o caráter de algo familiar e conhecido. Quando o ente que se abate de súbito, despontando da conformidade, não possui o caráter da familiaridade, então, o medo transforma-se em terror. Outras variações do medo seriam a timidez, o acanhamento, o receio, o estupor, etc. (cada uma delas mereceria uma descrição fenomenológica própria). As tonalidades afetivas ontológicas não dependem de nada que desponte nas redes utensiliares e na conformidade, mas o ante-o-que delas é o próprio Dasein em seu caráter de poder-ser. Não há explicação de ordem causal, seja interna ou externa, que dê conta da gênese e da abrangência de tais disposições afetivas. Exemplos de tonalidades afetivas ontológicas seriam o amor, a angústia, a melancolia, a nostalgia, entre outras. Poder-se-ia dizer que as tonalidades ônticas são versões decaídas das tonalidades ontológicas, onde a tristeza, por exemplo, seria uma versão decaída da melancolia, e o medo uma versão decaída da angústia. Em obras como Os Conceitos Fundamentais da Metafísica, Heidegger também fala de tonalidades afetivas históricas, que afinam o modo de abertura do horizonte compreensivo de toda uma época. Exemplos de tonalidades afetivas históricas seriam o tédio e o tédio profundo que, segundo Heidegger, afinam o projeto histórico do mundo moderno.

VII

Ser-para-a-morte, em Heidegger, é um existencial, ou seja, uma estrutura ontológica do Dasein. Uma espécie de possibilidade existencial de segunda ordem que define como as demais possibilidades existenciais do Dasein são assumidas. Para Heidegger, o homem não possui natureza substantiva, a ideia de Dasein é justamente esta, de que o homem, em seu ser mais próprio, nunca se completa ontologicamente. Apenas o homem é mortal neste sentido, não o animal. A angústia seria a tonalidade afetiva que se instaura nos momentos de irrupção deste poder-ser mais próprio na cotidianidade do Dasein. Nos momentos onde o Dasein se vê diante desta sua incompletude originária se instaura uma atmosfera que Heidegger define como angústia, que seria uma espécie de “medo” sem ente diante do qual seja possível sentir medo. Quando isto acontece, duas possibilidades se abrem: 1) o Dasein se entranha de forma ainda mais acirrada na dimensão impessoal do mundo; 2) o Dasein se deixa levar pela experiência da angústia e se singulariza a partir de uma suspensão da significância sedimentada do mundo.

VIII

Heidegger foi um crítico do pensamento de Spengler. Também foi um crítico ferrenho do Movimento Völkisch, que, para ele, se encontrava na mesma estrutura metafísica do pensamento liberal: a inversão do conceito ontoteológico de Soberania do Absolutismo, onde a mesma estrutura metafísica é transferida para o povo, porém invertida, e este é erigido como valor supremo (no caso do biologismo nazista, a estrutura ainda é a mesma, mas a raça é erigida como valor supremo).

IX

A simpatia de Heidegger pelo nazismo não esclarece o modo como este compreendia a política e nem, segundo seu pensamento, o que ele esperava dela. O que Heidegger viu no nazismo precisa ser inserido no esquema mais amplo da problemática sobre o ser.

X

Diferente de Jünger, cuja preocupação era pensar no tipo de liberdade possível ao homem em meio ao processo de mobilização total, poder-se-ia dizer que, em Heidegger, a preocupação não era com a liberdade humana, mas com a liberdade do próprio ser através do homem, por meio de um modo de “existência pública” que desobstruísse o acesso do Dasein ao seu ser, e enraizasse o Dasein na situação. Essa é a chave para entender as esperanças (que se mostraram vãs posteriormente) que Heidegger depositou no Nacional-Socialismo.

XI

Heidegger, nas preleções sobre Hölderlin, compara a poesia com uma medida, uma régua. Porém, diferente da medida quantitativa, onde transcrevemos para o conhecido algo desconhecido (por meio de números, por exemplo), a poesia consiste no caminho oposto, por meio do qual o homem se mede com os Deuses. A poesia é uma medida de sagração.

A essência humana, seja entendida como Pessoa, ou como Dasein, não é uma coisa. Ela é diferente dos demais entes, é sem fundo e só pode ter como medida de comparação algo igualmente sem fundo: o céu enquanto teofania dos Deuses. A poesia e o mito são a régua (não a metafísica), porque, por meio delas, Deus não é transformado em ente, em objeto.

XII

Em última instância, somos todos modernos, mesmo as reações anti-modernas (mas atenção: isso não é uma desqualificação desses movimentos) estão repletas de pressupostos modernos. Mesmo o Iluminismo é somente uma modalidade da medida historial-ontológica que está à base do mundo moderno, mas o Iluminismo e suas derivações históricas não esgotam esta medida.

No século XX, poder-se-ia dizer que a metafísica da subjetividade moderna radicalizou-se a tal ponto onde esta mesma subjetividade já prescinde da figura do sujeito particular. O próprio homem particular é mobilizado por esta subjetividade sem sujeito, que Jünger e Heidegger caracterizavam como vontade de poder e vontade de vontade e identificavam com o mundo da técnica. Quando, poeticamente, Heidegger diz que somente um deus pode nos salvar, quer apontar que a mudança da medida histórica de uma época não depende do voluntarismo humano: a modernidade vai acabar quando tiver que acabar. Qualquer empenho por retorno de uma ordem pré-moderna, que dependa da ação voluntária do homem, está fadada ao fracasso. O que se pode pensar é uma modernidade alternativa (Carl Schmitt, ao abandonar o decisionismo, pensou sobre isso). E o que seria isso? Desconstruir as possibilidades de ser do projeto moderno que estão sedimentadas, como a noção de progresso, por exemplo, deixando vir a tona outras possibilidades de ser deste mesmo projeto. Agora, como onticamente se faz isso, não tenho a mínima ideia. Qual a forma política mais condizente com o mundo técnico atual? Não sei dizer, mas com certeza não é a democracia-liberal.

Rodolfo Souza

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