O capitalismo dissolve a unidade familiar

Tudo que a direita atribui ao marxismo cultural foi, na verdade, causado pelas consequências do desenvolvimento do modo de produção capitalista e pelo aprofundamento da filosofia política liberal e de suas ramificações. E a principal transformação e crise tem sido a progressiva desintegração da unidade familiar.

Não obstante, por todo o mundo ocidental a esquerda tem sido uma defensora entusiástica de todos estes processos de dissolução, razão pela qual a direita, confusa, brada contra um “marxismo cultural”. Na prática, porém, essa esquerda ocidental simplesmente abraçou o núcleo filosófico do pensamento liberal e se limita a oferecer uma versão “à esquerda” desse mesmo liberalismo defendido pela direita.

Um liberalismo mais “humanizado”, economicamente pendendo para a social-democracia, sumamente preocupado com liberdades sexuais, sociais e culturais. Ainda assim, liberalismo, já que o que define esta teoria política é o ter o indivíduo como sujeito dos processos históricos.

A esquerda comemora por causa de um suposto caráter “emancipatória” da dissolução da família, já que para o esquerdista, a família é, em si, “burguesa”. Sim, aparentemente havia famílias burguesas já no paleolítico ou no medievo, pelo menos segundo o esquerdista.

Mas a única emancipação na dissolução da família é a emancipação do capital. A progressiva ruptura da solidez das configurações tradicionais da família é um objetivo buscado metodicamente pelos intelectuais liberais e pelos grandes empresários capitalistas e só acabará com o total desaparecimento (na absoluta relatividade) de qualquer conceito bem fundamentado de família.

Ingresso da mulher no mercado de trabalho achatando salários, a separação entre gerações com filhos, pais e avós cada um morando e vivendo por conta própria, o poder do dinheiro solapando a autoridade das figuras de autoridade, já que “quem faz as regras é quem paga suas contas”, de modo que basta ter um punhado de dinheiro para ser dono de si, a facilitação do divórcio até tornar o casamento mera formalidade, a equiparação entre casamento e união estável, para garantir a transmissão de heranças.

Tudo isso está ligado ao processo de absolutização do poder do capital sobre a vida humana, dissolvendo e desintegrando todos os obstáculos, usualmente organizados de forma institucional, seja na religião, na família, na raça, na etnia ou na cultura.

A família, entendida por Hegel como sede da eticalidade, comporta em si valores de solidariedade que ajudam a amortecer a voracidade da competitividade egoísta sustentada como situação ideal na sociedade capitalista. Idealmente, apenas as associações voluntárias devem ter valor.

Dissolvida a família, acometido pela fria solidão das metrópoles modernas, que mais parecem colmeias de aço, concreto e vidro, tornado efetivamente “indivíduo”, o homem está à mercê das forças de mercado, bombardeado constantemente por propagandas que recorrem às táticas da programação neurolinguística para fazer os homens aceitarem a escravidão.

O fenômeno não está deixando pedra sobre pedra. As únicas sociedades que ainda não estão passando por isso são exatamente aquelas que não são capitalistas ou que ainda estão subjugadas por formas menos avançadas de capitalismo. Nesse sentido, a primitividade e o “atraso” acabam sendo bênçãos em nossa era.

Aposentemos a mitologia do “marxismo cultural”. Mais vale falar em capitalismo cultural ou liberalismo cultural.

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