Hermann Hesse — Sobre a mediocridade espiritual do burguês

O que chamamos de burguesia, enquanto um princípio da existência humana, não é nada além de uma busca pelo balanço. O burguês busca andar no meio da estrada. Sempre acomodado entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Ele nunca se renderá seja para o martírio do espírito ou para o martírio da carne. A força vital da burguesia reside em seus intrusos. Artistas e intelectuais, como Harry, que se desenvolveram bem além do nível possível para o burguês, conhecendo a glória da meditação não menos do que as alegrias obscuras do ódio e da auto-depreciação. Ele é, no entanto, prisioneiro da burguesia, e não pode escapar disso. A menos que o sofrimento torne o espírito rígido e elástico, e ele encontre uma maneira de reconciliação e fuga dentro do humor.

O intruso tem duas almas, duas entidades. Deus e o Diabo dentro dele. E esses homens, cujas vidas não repousam, vivem seus raros momentos de felicidade com força e beleza indescritíveis. A rajada de seu êxtase momentâneo é arremessada alto sobre o vasto mar do sofrimento, e a sua luz toca os outros com seu encantamento. Mas apenas os mais fortes forçam a passagem pela atmosfera do mundo burguês para atingir o cósmico.

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe

Hermann Hesse

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