O interminável Carnaval brasileiro:

“De fato, como se poderia tratar ainda de ‘circunscrever’ a desordem e encerrá-la em limites rigorosamente definidos, quando está espalhada por toda parte e se manifesta sem cessar em todos os domínios em que se exerce a atividade humana? Se nos mantivermos presos às aparências exteriores e a um ponto de vista simplesmente ‘estético’, poderíamos ser tentados a nos congratular com o desaparecimento quase completo dessas festas, em especial pelo aspecto ‘disforme’ de que se revestem, como é inevitável. Mas essa desaparição, ao contrário, quando se vai ao fundo das coisas, constitui-se em sintoma muito pouco tranqüilizador, pois revela que a desordem irrompeu em todo curso da existência e se generalizou a tal ponto que, pode-se dizer, estamos na realidade vivendo um sinistro e ‘eterno carnaval”. 

(René Guénon, Sobre a Significação das Festas Carnavalescas. Études Traditionnelles, dez. 1945).

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O que pensamos em escrever, mas não queremos fazer, é uma defesa das festas populares como o carnaval e, ao mesmo tempo, uma denúncia do carnaval – em pleno carnaval. Poderíamos, é verdade, falar sobre como a indústria do entretenimento sequestrou uma festa popular, o antigo entrudo português e brasileiro, aquele das marchinhas de rua e dos blocos populares, e, à maneira do que aconteceu com o futebol, o transformou em festa privada com ingressos e abadás de milhares de reais em torno de uma indústria cultural musical decadente. Mas não faremos isso.

Seria melhor escrevermos, agora fazendo o elogio, sobre como o culto ao trabalho, a ideologia do produtivismo, a ideia, enfim, de que o ano só começa mesmo na Quaresma é, tudo isso, parte da ideologia moderna que rejeitamos; do mesmo grande paradigma moderno que fundamenta os principais paradigmas políticos da modernidade (liberal, comunista e nacionalista). As festividades, o ócio, contudo, não são apenas o intervalo entre uma jornada de trabalho e outra – são parte da vida; precisamente a parte que o culto do progresso pretende suprimir. Podemos ler, para o caso europeu, o que Peter Burke escreveu sobre a cultura popular (europeia), o que Bakhtin escreveu (idem) e, assim, podemos, sem saudosismos, ter um vislumbre do que é ou o que era a cultura popular e a vida social “pré-moderna” – que ainda coexiste de diferentes formas dentro da modernidade mesma. Para fazer o elogio das festas populares, poderíamos citar aqui as Saturnálias, a Antestéria e outras tantas – citando Sir James Frazer, Mircea Eliade, Carlo Ginzburg, Georges Dumézil etc, etc.

Poderíamos, ainda, falar de nossa condição colonial, de um calendário litúrgico transplantado, adaptado, de um carnaval arquetípico no qual um Rei saturnal de uma antiga Era de Ouro reina durante a festa só para ser sacrificado ao final dela; poderíamos falar de um carnaval do hemisfério norte que marca e celebra o fim do inverno, o fim do gelo e que, por isso, é festa da fertilidade tanto quanto é uma festa dos mortos, e que tudo isso adquire outro sentido quando é comemorado em meio ao verão subtropical, assim como ocorre, por aqui, com o Natal e o Dia das Bruxas – Papai Noel suado (sem contar o descompasso que há em celebrar um excesso carnavalesco depois do qual não há mais a abstenção de carne da Quaresma, e sem contar ainda a situação deslocada de uma massa urbana, produto do êxodo rural, celebrando festividades de um calendário litúrgico relacionado às estações do ano e as colheitas). Poderíamos – mas não falaremos de nada disso.

Poderíamos falar sobre como, diferentemente dessa Europa pré-moderna, o Ocidente é o império do Logos, um Logos decaído (como o sol ao oeste) – império da técnica, reino da quantidade; poderíamos afirmar, como afirmaram José Carlos Mariátegui, Georges Sorel, Glauber Rocha e outros, que o povo também precisa do Mito e do Caos, e sobre como essa é a pauta de diferentes movimentos identitários, tradicionalistas, pós-estruturalistas e outros tantos que, na Europa, buscam re-ssacralizar a vida ou subverter um projeto de modernidade; poderíamos, ainda, falar sobre como o caso do Brasil e da América Latina é curioso, porque nos é imposto um modelo de Ocidente (ao qual nunca pertenceremos por inteiro) quando, ao mesmo tempo, sabemos que nunca penetrou a alma de nossos povos latino-americanos.

Poderíamos falar – e agora, talvez até falemos – que é por isso que, por vezes, parece sem sentido fazer a defesa do transe, do sonho, do mito e da noite em um Brasil que já é permeado e possuído, em maior ou menor grau, pelo candomblé, o catolicismo popular e o carismático, o pentecostalismo profético e extático. Poderíamos escrever (porque sobre isso não se fala – só se escreve) sobre como o projeto iluminista de civilização ocidental, com que a elite modernista tenta capturar os povos do Brasil, deve ser rejeitado, no espírito do que escrevia Oliveira Viana sobre o abismo que existe entre um suposto Brasil real profundo e o Brasil positivista e burocrático.

E poderíamos, finalmente, discursar sobre como neoliberais, marxistas maoistas, as esquerdas burguesas e outros, querem, todos, domar e domesticar um suposto Brasil arcaico, selvagem, “populista”, “patrimonialista” – e sobre como, na contramão desses e paralelo a esses (segunda voz da canção), há os que fazem o elogio do fatalismo, do misticismo e do passional.

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Ao invés disso, diremos algo mais banal: a verdade é que, enquanto sociólogos e intelectuais deslumbrados fazem a apologia carnavalesca, o povo, ou a parte maior dele, odeia o carnaval: diferentes pesquisas (as quais não citaremos) mostrarão que algo entre 60% e 70% da população despreza essa erupção de força vital, esse rito de liberdade, essa bagunça catártica que, supostamente, contrasta com o restante do ano, regido pela mecânica do trabalho e pela lógica do cálculo e da razão utilitária. Seja como for, a maior parte dos brasileiros, em diferentes regiões, não sente senão asco diante desse espetáculo de turismo sexual, narcóticos, roubos e furtos, as ruas banhadas por litros de uma urina fermentada onipresente e espumante que se confunde com a cerveja enlatada de qualidade duvidosa que patrocina boa parte da festa.

Por que essa maioria recalcitrante, que descansa em casa assistindo enlatados ou novelas americanas, não deseja participar da festa da liberdade? É que o exercício mesmo da liberdade, para poder acontecer, requer alguma ordem. Chiaroscuro. E ordem é que falta – embora esteja escrito lá na bandeira nacional. Um carnaval que se prolongasse, como uma maré cheia, pelo calendário inteiro, seria bastante parecido com um pesadelo, e tal é o pesadelo brasileiro, que consiste em viver espremido e suado em vagões de trem e ônibus impossivelmente lotados, em meio a odores, apalpadores, tarados, o eventual peidorrento inconveniente – tudo ao longo duma jornada que pode se iniciar às cinco da manhã e se arrastar por duas ou mais horas em meio ao caos de um trânsito em transe; tudo para tentar chegar em casa vivo, abrindo caminho em meio às pistas esburacadas, as vias escuras e massas de zumbis viciados em crack, assaltantes e a orgia de violência, bagunça, sujeira, filas intermináveis, os meandros de burocracia barroca e esotérica e especulação imobiliária, corrupção policial e exploração trabalhista que acompanham o dia a dia de cada brasileiro urbano, periférico, favelado e outros tantos, num frenesi de excessos e absurdos. Só resta, assim, o hedonismo masoquista, a promiscuidade autodestrutiva, o alcoolismo proletário, a cachaça de todo fim de semana (ou de todo dia) e, quiçá, o transe escapista da sessão ou culto do qual não falamos mais acima – ou a ilusão e a hipnose de uma mídia em transe, a pornografia soft dos vídeo-clipes e hits do momento, o desfile interminável de bundas dos programas de auditório, o humor demente e distorcido dos memes obrigatórios e a orgia da violência criminal/policial que acompanha o noticiário da hora do almoço, ou a androginia mefistofélica da última celebridade polêmica que a indústria confeccionou. É o carnaval perpétuo sobre o qual escreveu René Guénon, o qual não citaremos.

Poderíamos, depois de escrever esse textão que ninguém lerá, encerrar com uma nota de otimismo e um toque de ambivalência, para mostrarmos como somos sofisticados e como sabemos que as coisas são cheias de nuances, escrevendo, assim, que as escolas de samba são, sim, um veículo para a grande máfia brasileira do jogo do bicho, narcotráfico e empreiteiras lavarem dinheiro e reproduzirem sua legitimação junto ao povão – mas, ao mesmo tempo, as escolas também são um espaço de socialização comunitária, de construção dum ethos identitário afro-brasileiro ligado a uma cultura periférica não-individualista do samba e dos mutirões, da qual também participam alguns brancos e caboclos; assim como poderíamos, também, dizer que o carnavalesco bakhtiniano serviu de interface, no Brasil, para fazer a ponte entre uma cosmovisão europeia e outra africana sobre a vida e sobre a morte, bem como outras coisas mais no mesmo espírito. Não faremos, contudo, nada disso.

Melhor seria falar de Momo, esse filho da Noite, e sobre como um Momo, que se senta em seu trono o ano todo, devorará cada um dos filhos e foliões, sem nunca se saciar – eis a tirania de Momo, a tirania do sarcasmo, do deboche, da maledicência, da sacanagem sem fim; melhor seria escrevermos que, para além de reafirmar o caos, o arcaico e a noite, como fazem os decadentes europeus (e precisam!), precisamos, nós outros, descobrir e construir nosso próprio Logos luminoso, achar a nossa própria ordem, com uma lógica que nela sirva; despertarmos, enfim, do pesadelo de nossa viagem noturna febril e dar a Momo o que é de Momo – mas a Júpiter o que é de Júpiter. Com as graças de Têmis.

Uriel Irigaray

Doutorando em Antropologia, professor e tradutor.

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