Donbass: a guerra está de volta?

Muito bem, aqui vamos nós. Em paralelo às minhas traduções regulares de análises de especialistas para o Fort Russ, vi muitos colegas e leitores sobressaltados a respeito de uma possível nova ofensiva ucraniana – uma reabilitação total da guerra contra as repúblicas do Donbass. Tais “sustos” são regulares, e realmente endêmicos em “conflitos congelados”, e foi por volta desta época, no ano passado, que os ucranianos lançaram uma ofensiva generalizada, que fez com que eu e meus colegas trabalhássemos durante dias sem dormir para ficar de olho na situação. Com o risco de me gabar, gostaria de dizer que talvez 90 % das previsões do Forte Russ sobre o Donbass se mostraram acertadas ao longo dos últimos anos.

Assim, apresento aqui os indícios – diretos, circunstanciais e especulativos – que o Fort Russ e o nosso analista convidado, Dr. Popov, sugerem que aponta para uma provável ofensiva contra a Donbass nos próximos meses:

1. Tropas ucranianas deslocaram quase todas as suas forças até à linha da frente. Isso foi confirmado por todas as fontes possíveis, incluindo a OSCE. Os relatórios também sugeriram que os equipamentos obsoletos de armazenamento, bem como a zona de Chernobyl em quarentena, foram reformados, provavelmente para serem utilizados como peças descartáveis.

2. Mais instrutores americanos e canadenses chegaram ao Donbass, e estão aconselhando as forças ucranianas acerca dos movimentos das tropas, inspecionando seu equipamento e, de acordo com alguns relatórios, coordenando exercícios de sabotagem. Para quem tem acompanhado a guerra no Donbass desde 2014, a Ucrânia segue regularmente duas táticas, “reconhecimento via incursão” e “ofensiva furtiva”, o que significa que grupos de reconhecimento e sabotagem (que, nas antigas Forças Armadas soviéticas, constituem uma unidade) são os primeiros a serem enviados, e os ucranianos sempre precisam verificar os seus equipamentos para evitar que sejam facilmente desabilitados ou cooptados pelas forças de Donbass.

3. Os EUA formalizaram uma entrega de equipamento militar “defensivo” letal (ofensivamente aplicável) à Ucrânia. Isso inclui sistemas de mísseis Javelin – e qualquer um que acompanha o discurso militar ucraniano desde 2014 sabe que estes mísseis foram desejados desde o primeiro dia, precisamente para fins ofensivos.

4. A primavera se aproxima. Os ucranianos não atacam no inverno com base nas amargas experiências de “cauldrons”.

5. Os batalhões nazis ucranianos (Right Sector, etc.), alegadamente, teriam sido ordenados a regressar à linha da frente. Isso pode significar duas coisas em termos ofensivos: (1) as forças indisciplinadas estão sendo novamente cooptadas para garantir um ataque relâmpago rápido e organizado por tropas regulares, agora treinadas e contando equipamentos dos EUA/OTAN; (2) tais grupos serão parte de uma “segunda onda”, usada para aterrorizar a população do Donbass atrás das novas linhas ucranianas, de modo que Kiev possa transferir toda a responsabilidade para os “fanáticos incontroláveis.” Lembrem-se de 2014.

6. Centros médicos ucranianos no Donbass, assim como outras áreas, foram recentemente sujeitas a auditorias inesperadas, “secretas”, para avaliar a sua capacidade de abrigar feridos.

7. A recente adoção, por parte da Ucrânia, de várias novas leis, como a que diz respeito à “Reintegração”, aponta para Kiev enquadrando legalmente o conflito no Donbass e, assim, minando os Acordos de Minsk. Esta última lei tem numerosas implicações na natureza e na estrutura da guerra da Ucrânia no Donbass, incluindo a “legalização” do trato de civis como alvos. Inclui também a expansão as prerrogativas das até então “operações anti-terroristas”, paralelamente à centralização do comando sobre as forças armadas, tanto “internas” quanto “externas”.

8. Os novos planos ofensivos, alegadamente “vazados” do Estado-Maior ucraniano, podem ser interpretados de duas formas distintas: (1) como uma jogada de desinformação, que blinda um plano ofensivo diferente; (2) como uma genuína falha de segurança, o que pode sugerir ansiedade e descontentamento dentro do comando ucraniano acera dos planos ofensivos aventureiros.

9. Considerando a pessoa de Andrey Biletsky, o “White Leader”, que é o chefe da força nazi mais organizada, poderosa e estratégica da Ucrânia. Biletsky aumentou a pressão sobre Poroshenko e tem se encontrado secretamente com o ministro do interior Avakov, que pode estar pressionando o regime de Kiev em prol de medidas ofensivas, a fim de apaziguar os movimentos nazis de rua, geralmente descontentes. Lembremos que o regime pós-Maidan não é “nazi-oligarca”, mas “oligarca-nazi”, isto é, os oligarcas surfaram na onda nazi, utilizando os descontentamentos com o antigo governo, manipulado, condenando uma “ocupação interna”. É simplesmente impossível entender política ucraniana ao longo dos últimos anos sem considerar o fato de que, em prol do equilíbrio, Poroshenko ser forçado a jogar com os grupos nazi-banderistas, que constituíram as linhas de frente nas ruas durante o Maidan, bem como as primeiras levas da guerra no Donbass. Em primeiro lugar, Biletsky e companhia: eles foram armados, estruturados e financiados até os dentes, e agora querem comer. O analista convidado do Fort Russ, Dr. Popov, tem dito desde 2010 (!), e o Fort Russ desde 2016, que todos os olhos devem estar sobre Biletsky e o Azov. Certamente, estes últimos emergiram como a ameaça mais hábil para qualquer administração ucraniana que não cumpra as suas exigências. E eles têm vindo a público pedir uma nova guerra, e algumas de suas petições foram incluídas na nova lei de “Reintegração” ucraniana.

10. As eleições presidenciais russas começam em março. Uma ofensiva ucraniana poderia apanhar a Rússia numa posição desconfortável ou, no mínimo, virar o jogo a partir do uso da retórica da “invasão russa” (para desacreditar as eleições russas): algo que a nova lei da “Reintegração” de Kiev pavimentou dentro de todas as formalidades legais.

11. Para todos os fins, a economia da Ucrânia e vários outros marcadores sociais continuam a cair drasticamente. Em consonância com a tradição cleptocrática ucraniana do bode expiatório, corrupção e políticas destrutivas injustificadas em nome de uma “agressão russa”, esse fator está sempre em jogo.

12. Relatórios diários sugeriram, se estou certo, uma nova onda de bombardeios ucranianos diários, que muitas vezes foram utilizados para “medir”, tanto a capacidade de reação do Donbass, como a tolerância dos governos ocidentais.

13. É importante ter em mente: não se pode demonstra empiricamente que a Ucrânia seja um Estado soberano, o que significa que suas políticas de segurança são formuladas e aprovadas externamente, principalmente por Washington, intermediado agora por [Kurt] Volker, que intransigente e contra qualquer diálogo com o Donbass. Com o Deep State dos EUA (que estão por trás deste último) hostil a Trump, uma ofensiva ucraniana poderia ser usada tanto (1) para pressionar Trump, quanto para (2) retaliar a Rússia pelas derrotas dos EUA ao redor do mundo no tabuleiro geopolítico ao longo dos últimos meses.

Esses são os principais indícios que vejo em curso. Não me vou comprometer com nenhuma previsão concreta até constatar uma transição do quantitativo ao qualitativo. Não há determinismo em geopolítica. Estou aberto para a discussão com nossos queridos leitores e amigos.

Jafe Arnold

Cientista político, acadêmico, jornalista do site Fort Russ, pesquisador do Center for Syncretic Studies, membro da NR e estudioso da cultura europeia.

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