‘Não existe almoço grátis’ não passa de uma falácia liberal:

Todos conhecem o clichê liberal representado pela frase “Não existe almoço grátis”, popularizada pelo escritor liberal Milton Friedman. Com o ‘boom’ das redes sociais e com o consequente emburrecimento em massa gerado pela redução do debate político à memes, frases de efeito e coisas do tipo, a frase passou a ser repetida nauseantemente, como um verdadeiro mantra, por direitistas, anarcocapitalistas, libertários, liberais e todas as meretrizes favoritas dos banqueiros e oligarcas.

A verdade, porém, é que tal clichê liberal não passa de um raciocínio defeituoso, fruto de uma falácia argumentativa. Mais precisamente, um discurso que incorre, simultaneamente, na chamada Falácia da Falsa Analogia e na chamada Falácia do Espantalho.

Em primeiro lugar, é um truísmo, uma obviedade, que todo bem e serviço, produzido e gerado socialmente, irá pressupor um custo – seja em termos de insumo ou em termos de mão de obra. Liberais falam como se tivessem descoberto a roda, como se fossem possuidores de um conhecimento negligenciado por todos, como verdadeiros iluminados, mas não fazem nada além de tentar transmutar uma verdade evidente em um argumento em favor de suas teses anti-civilizatórias.

Neste sentido, dada a trivialidade do fato de todo bem e serviço pressupor um custo, a grande interrogação é: a quem os liberais estão se dirigindo? Ora, socialistas em geral sempre souberam dos custos da civilização; sempre souberam que produzir implica na articulação de uma série de elementos técnicos em larga escala, e é justamente permitir que a maior quantidade de pessoas tenha acesso a tais elementos, de modo a serem capazes de produzir para si e para a sociedade, que se trata o socialismo.

A civilização tem custos. Viver civilizacionalmente pressupõe custos, trabalho, suor, sacrifício. Qualquer pessoa razoável sabe disso, e não é em oposição a tal afirmação que se estabelece a defesa do Público, do serviço público e do welfare-state: tais coisas são defendidas e promovidas em nome da civilização, que perdura para além da existência das individualidades e, portanto, é mais importante que elas.

Logo, o clichê liberal consiste apenas num discuso oco, dirigido à ninguém: um meme-espantalho, para sermos mais exatos.

E em segundo lugar, tão certo como o fato de que a civilização pressupõe custos, é o fato de que a função do Estado não é a mesma que a de uma empresa privada. Um serviço público estatal não é análogo a um restaurante que fornece marmitas grátis: enquanto a finalidade última da empresa é o lucro acima de tudo, a finalidade do Estado não é gerar lucro, mas socializar/coletivizar determinados bens e serviços necessários à manutenção da sociedade – que, em qualquer regime de produção, é a base da própria existência do Estado. E a menos que vivamos enclausurados em bolhas (que é, no fundo, o desejo dos liberais), fazer a manutenção da sociedade é, no mínimo, uma questão de auto-sobrevivência.

De onde se segue uma verdade politicamente sólida: determinados serviços precisam ser gratuitos, e o acesso a determinados bens precisa ser socialmente garantido. Os serviços e os bens garantidos podem variar, mas certamente gravitarão em torno de áreas como saúde, educação, moradia, etc. Os custos de tais bens e serviços serão custos arcados pela própria sociedade, E NÃO HÁ NADA DE ERRADO COM ISSO. Se os meios usados para financiá-los não são, atualmente, justos, isso em nada depõe contra os serviços e bens públicos (e gratuitos) em si, mas contra os meios: nós, socialistas, somos os primeiros afirmar a necessidade de uma alteração radical nos meios, isto é, nas estruturas que modulam a fisionomia geral da sociedade, ruma a uma realidade em que Sociedade e Estado sejam uma totalidade orgânica, retroalimentada.

Deste modo, não é muito difícil desmistificar a máxima pseudo-esclarecida liberal: o Público não é sem-custo (quem disse que era?). Claramente tem custos, mas seu custo é arcado coletivamente, do mesmo modo que seus frutos germinam coletivamente.

Isso é civilização.

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