O experimento bolivariano e as ingerências imperialistas na Venezuela:

(Segunda parte da intervenção efetuada no dia 18 de outubro de 2017, durante o I Fórum Fluminense de Resistências Patrióticas, realizado no SINDIPETRO-RJ. A primeira parte, voltada para a guerra na Síria, pode ser lida aqui. Os slides usados na apresentação podem ser acessados [em inglês] aqui).

Introdução:

A ascensão de Hugo Chávez, um oficial militar de carreira, à presidência em 1999, deu início ao que ficou conhecido como a Revolução Bolivariana – após a adoção de uma nova Constituição para a Venezuela. A Revolução viu a redistribuição dos rendimentos do petróleo seguida da uma nacionalização da indústria, limitada e relativamente independente dos cartéis internacionais do petróleo. O processo foi bem sucedido, em grande parte devido às receitas recordes do petróleo na década de 2000, e fez com que quatro milhões de pessoas saíssem da pobreza, trazendo o acesso gratuito e universal aos serviços médicos, educação para todos e a erradicação do analfabetismo.

O sucesso da Revolução Bolivariana fez com que a Venezuela, sob Chávez, se tornasse cada vez mais anti-americana, anti-imperialista e, firmemente, contrária ao neoliberalismo e suas instituições – como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos sediados em Washington DC.

Seu governo foi concebido no contexto mais amplo da maré rosa socialista que varreu a América Latina, quando vimos a  Venezuela  alinhar-se com o governo marxista-leninista de Fidel e depois Raúl Castro, em Cuba, e com os governos socialistas de Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Daniel Ortega (Nicarágua).

Com o objetivo de para tornar a região totalmente independente do capitalismo estadunidense, Chávez fez lobby pela integração econômica e social da América Latina. Tais projetos para integração latino-americana incluem: a criação da TeleSUR – uma rede de televisão latino-americana patrocinada pela Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia; o Banco do Sul – um fundo monetário/organização de crédito criada por Venezuela, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia; a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC), que foi criada para aprofundar os laços e a integração destes Estados, objetivando reduzir a influência concreta dos EUA sobre a política e a economia da América Latina; e – talvez o mais importante – a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA), composta por Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, República Dominica, Equador, Granada, Nicarágua, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas e a Venezuela, tendo como meta a substituição, nas Américas, do dólar pela moeda virtual SUCRE, desafiando diretamente a influência e a dominação dos EUA na região.

Tudo isso fez com que a Venezuela, liderada por Chávez, se caracterizasse por uma “diplomacia do petróleo” (Kozloff, 2007: 123). Com a Venezuela detendo as maiores reservas de petróleo do mundo, mas tendo um Estado rentista e totalmente dependente deste recurso natural, Caracas estava se tornando cada vez mais vulnerável à desestabilização organizada pelos EUA. A nova soberania da Venezuela, e o controle majoritário de seu próprio petróleo nos últimos 18 anos, a tornaram um alvo do imperialismo americano, pois tal controle ameaçava a dominação que o capitalismo norte-americano exercia sobre a maior parte da América Latina – tendo em vista as iniciativas de integração orquestradas por Caracas.

A violência, que sacudiu a Venezuela em grande parte de 2017, começou em 1 de abril com manifestantes exigindo que Nicolas Maduro, substituto de Hugo Chávez após sua morte em 5 de março de 2013, abdicasse em razão do aumento da inflação, da falta de remédios, de alimentos e de artigos de higiene – partido destes elementos para exemplificar a falida experiência revolucionária bolivariana que Maduro dava continuidade (Pozzebon e Gillespie, 2017). No entanto, as multidões reacionárias, e principalmente de direita, ignoraram que os EUA bloquearam o crédito internacional para a Venezuela e ajudaram na interrupção na distribuição de alimentos, remédios e artigos de higiene básica (TeleSUR, 2017): o que ajudou na criação de condições favoráveis para que os EUA pudessem tentar uma derrubada de um governo soberano, restabelecendo uma elite política completamente receptiva aos cartéis do petróleo e reabilitando o capitalismo com força total na Venezuela.

A atual crise venezuelana é uma reminiscência da crise síria de 2011, particularmente nos termos da mídia e do escrutínio político. Enquanto a Síria viu manifestações pacíficas e legítimas rapidamente infiltradas e sequestradas por fanáticos violentos da Irmandade Muçulmana apoiados pelos EUA, de igual forma, a oposição reacionária da Venezuela tem sido apoiada por Washington, sugerindo que o modelo empregado para arruinar o Estado sírio está sendo agora repetido na Venezuela.

Este artigo analisará o contexto da atual crise na Venezuela. É simplesmente um governo incompetente que geriu mal a economia dependente de petróleo ou há um esforço coordenado de Washington para atacar e destruir a revolução bolivariana e permitir que os EUA levem seu capital de volta aos Estados que apresentam algum tipo de resistência na América Latina e, consequentemente, objetivando bloquear um impulso chinês para o continente?

O modelo da Síria implementado na Venezuela:

Nos primeiros estágios da crise na síria, em 2011, havia uma retórica da mídia dominante e dos Estados estrangeiros sobre um ditador brutal – o presidente Bashar al-Assad – reprimindo violentamente manifestantes que exigiam mudanças legítimas, incluindo maiores liberdades políticas, liberdade de mídia e um fim à corrupção burocrática. No entanto, a mídia dominante frequentemente ignorou como tais manifestantes, supostamente “pacíficos”, atacaram e mataram membros das forças de segurança sírias, apesar das promessas de Assad de atender às demandas feitas pelos manifestantes (Antonopoulos e Cottle, 2017: 15).

O Dr. Tim Anderson afirma que um “estudo cuidadoso das evidência, independente, […] mostra que a narrativa ‘rebelde’, sustentada por Washington, embora difusa, [era] parte de uma estratégia para deslegitimar o governo sírio, com o objetivo de fomentar a ‘mudança de regime’ (Anderson, 2016: 55-56). Efetivamente, Anderson explica que, desde o início da crise síria, houve uma coordenação sistemática pela mídia convencional para demonizar Assad e legitimar sua derrubada.

A mesma campanha midiático e sistemática, contra Assad, foi previamente utilizada contra Saddam Hussein no início da invasão dos EUA no Iraque, em 2003, e contra o Coronel Muammar Gaddafi antes da intervenção da OTAN em 2011 e seu apoio aos insurgentes jihadistas na Líbia. Este método de intenso escrutínio midiático já foi implementado e intensificado contra Maduro desde abril de 2017, quando os protestos contra seu governo começaram. Da mesma maneira que a mídia afirmou que manifestantes pacíficos estavam sendo violentamente reprimidos pelas forças de segurança na Síria, na Venezuela o mesmo estava sendo repetido, contrariamente aos fatos reais.

Na cidade de Dara’a, no sul da Síria, a polícia reprimiu brutalmente e encarcerou 15 jovens adolescentes que haviam sido pegos pichando mensagens contra o governo em 6 de março de 2011. Assad imediatamente repreendeu o governador da província, mas os manifestantes não recuaram, prosseguindo, até queimar a sede local do partido Ba’ath e outros edifícios públicos, com os confrontos resultantes levando à morte de sete policiais e quatro manifestantes (Antonopoulos e Cottle, 2017: 6).

Na Venezuela, os manifestantes estão sendo retratados pelos principais meios de comunicação, e pelos políticos ocidentais, como “pacíficos”, que, através de métodos “pacíficos”, estão tentando derrubar o “regime” socialista de Maduro. A história de um manifestante que tocava violão de frente para os serviços de segurança, tendo seu instrumento destruído pela polícia em 25 de maio de 2017, chegou às manchetes internacionais como prova da natureza repressiva do “regime” socialista contra o povo. Apesar da infeliz e desnecessária destruição do instrumento, a mídia dominante, naquele mesmo período, não informou que mais de 50 ônibus públicos foram queimados por manifestantes, que a sede do Partido Socialista e a Casa de Infância de Hugo Chávez, no estado de Barinas, foram incendiados, e que os manifestantes incendiaram o Ministério da Habitação e o prédio do Ouvidor de Justiça em Maracaibo, no estado de Zulia: centenas de lojas foram saqueadas em todo o país e hospitais cercados, com pacientes, médicos e enfermeiras incapazes de atravessar barricadas a menos que pagassem pedágio (EFE, 2017). Isso é uma reminiscência dos eventos de Dara’a, em 2011, e do contexto mais amplo da Síria.

Em maio de 2017, uma multidão anti-governista, de direita, queimou um homem vivo, que veio a sofrer queimaduras de segundo e de terceiro graus em seu corpo, sendo também esfaqueado várias vezes (Farand, 2017). A mídia dominante minimizou a atrocidade ao tentar legitimar as queixas contra um “regime repressivo” para desculpar a queima de uma pessoa. Isso, novamente, possui paralelos com Síria de 2011, onde os trabalhadores do setor público, como professores e carteiristas, foram sistematicamente alvejados e mortos – enquanto que os principais meios de comunicação representavam tudo isso como uma oposição “pacífica” e frustrada (RT, 2017).

Síria e Venezuela são Estados independentes, que têm trabalhado dentro de suas respectivas regiões para combater a hegemonia norte-americana. No Oriente Médio, a Síria encorpa parte fundamental do Eixo da Resistência – uma coalizão entre o Irã, a Síria e o Hezbollah –, de matriz anti-imperialista, enquanto que a Venezuela é um importante membro da ALBA. Embora com diferentes histórias, etnologias e culturas, suas experiências compartilhadas de tentar resistir ao imperialismo estadunidense significou que, mesmo durante a guerra síria, Caracas e Damasco mantiveram fortes relações.

Durante uma reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2015, Maduro afirmou que “a Síria é como uma versão de Hollywood do terrorismo. É como uma versão cinematográfica dos horrores da guerra. Houve financiamento e armamento do Ocidente: o que levou à morte e destruição na Síria” (Berger, 2015). Com a mais recente desestabilização na Venezuela, Assad, em uma entrevista de abril de 2017 à TeleSUR, expressou sua amizade com o falecido Chávez e advertiu o venezuelano que “o mesmo cenário será repetido na Venezuela”. Isso foi visto na Síria, onde “eles começaram a dizer que o Estado estava matando as pessoas” (Segura, 2017). Assad, então, disse que “enquanto o presidente Maduro estiver caminhando na mesma linha patriótica, a linha da independência da Venezuela, e agindo em prol dos interesses do povo de seu país, é natural que ele seja o primeiro alvo dos Estados Unidos” (Ibid). Não é surpreendente observar que um Estado pós-colonial, que foi consistentemente alvo do imperialismo estadunidense, pôde entender que os mesmos métodos empregados para arruinar um Estado – neste caso, da Síria –, estão sendo repetidos novamente na Venezuela.

A vulnerabilidade do experimento bolivariano e sua excessiva dependência do petróleo:

No início de 2017, a Venezuela começou a passar oficialmente pela pior crise econômica de sua história, com a inflação atingindo mais de 400% – apesar de o país ter as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo (Al-Jazeera, 2017). Como um país surfando na onda da implementação de programas sociais substanciais chega a esses problemas econômicos depois de nacionalizar uma grande parte do petróleo dos cartéis internacionais Compreender o estabelecimento do experimento bolivariano, e sua expulsão limitada do capital americano da Venezuela, é necessário para entender o contexto atual da crise venezuelana.

Com Chávez chegando ao poder em 1999, os setores do petróleo, da agricultura, da mineração, das telecomunicações, dos transportes, das finanças e da indústria pesada ​​foram nacionalizados em proporções limitadas. Embora a retórica de Chávez fosse de natureza anti-americana e anti-imperialista, os cartéis de petróleo – como Chevron e Total – ainda podiam operar na República Bolivariana (Orihuela, Holter e Kassai, 2017). No entanto, ao contrário dos governos precedentes, Chávez estabeleceu programas sociais, conhecidos como Missões Bolivarianas, para expandir o acesso a alimentos, habitação, saúde e educação, onde melhorias em áreas como pobreza, alfabetização, igualdade de renda e qualidade de vida foram alcançadas. No entanto, grande parte disso foi financiada pelo petróleo e houve pouca diversificação da economia.

A renda da Venezuela, com a receita do petróleo, cresceu “de 51% da receita total, em 2000, para 56% em 2006″, e as exportações de petróleo aumentaram de 77%, em 1997, […] para 89% em 2006”, enfatizando a dependência de Chávez com o petróleo (Canon, 2009: 87). Com a nacionalização limitada e as Missões Bolivarianas, pouco foi feito para aumentar as oportunidades de emprego na Venezuela, e grande parte do trabalho relacionado ao petróleo foi exportado para outros lugares. Em 2007, Chávez fez um acordo com a petroleira brasileira Petrobras para construir uma refinaria de petróleo no Brasil, no qual o petróleo bruto fosse enviado tanto do Brasil como da Argentina (Connors, 2014). Um acordo semelhante foi alcançado com o Equador, onde a Venezuela concordou em refinar 100 mil barris de petróleo bruto do Equador a preços de desconto (Alvarez e Hanson, 2009).

Jerry Harris afirma que:

“A maioria dos capitalistas não fugiu do país, mas continuou a operar com suas corporações e a lucrar, e a Venezuela está firmemente vinculada à economia transnacional, em vez de se encaixar em algum bloco socialista. Na verdade, Chávez assinou um novo contrato com a Chevron-Texaco, no meio da greve do petróleo provocada por sua oposição pró-americana. Além disso, não houve nacionalizações, nem o socialismo mencionado na nova constituição” (Harris, 2007).

Nicholas Kozloff, biógrafo de Chávez, disse que Chávez “não revogou o capitalismo. Ele fez muito para desafiar o modelo de desenvolvimento mais radical e neoliberal” (Kozloff, 2008: 45). A nacionalização limitada das principais indústrias da Venezuela atesta o socialismo limitado implementado pelo bolivarianismo. Chávez ajudou a teorizar o “socialismo para o século XXI” de Heinz Dieterich, que era diferente dos modelos soviético e maoista do socialismo de Estado (Wilpert, 2007: 7) e, em 2007, Chávez declarou seu apoio aos ideais de Leon Trotsky, afirmando: “Eu sou também um trotskista! Eu sigo a linha de Trotsky, a revolução permanente” (Martin, 2007).

O socialismo do século 21 visa um processo de planejamento descentralizado, significativamente diferente do da China de Mao ou da União Soviética de Stalin, e conta com processos democráticos que podem ser efetivamente considerados como revisionistas. Foi através deste lento processo de revolução permanente, com um toque democrático, que o trotskismo ressoou com Chávez.

Apesar da retórica de resistência ao imperialismo norte-americano, Chávez tolerou até certo ponto os cartéis de petróleo dos EUA. Embora as pequenas convulsões do petróleo e do capital tenham antagonizado com Estados Unidos de forma limitada, foi a construção institucional de Chávez, visando fornecer uma alternativa ao dólar norte-americano, que asseguraria que sua experiência bolivariana fosse arruinada por Washington. A moeda virtual do SUCRE foi negociada pela primeira vez entre a Venezuela e o Equador, em julho de 2010, como uma alternativa ao dólar dos EUA, desafiando sua hegemonia no norte da América do Sul. Esta nova moeda seria uma medida para combater a influência dos EUA e limitar seu controle sobre as economias latino-americanas. É o potencial de uma nova moeda para rivalizar com o dólar norte-americano na região, e não o controle limitado do petróleo venezuelano, que fez com que Washington fizesse todo o possível para derrubar a experiência bolivariana. O membro da ALBA, Equador, atualmente usa o dólar dos EUA como sua moeda, e sua mudança para uma moeda alternativa, com o encorajamento da Venezuela, não podia ser tolerada.

A dependência bolivariana excessiva em relação ao petróleo tornou a Venezuela suscetível e exposta às volatilidades da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), liderada pelos sauditas. A Venezuela e o Equador são os dois únicos Estados do Hemisfério Ocidental na OPEP. No entanto, isso não torna a organização anti-Washington. Em uma reunião de novembro de 2014, em Viena, a OPEP não pôde concordar com cortes de produção, criando um excesso de petróleo sob a imposição dos sauditas (Lawler, Sheppard e Gamal, 2014). Embora o excesso de oferta de petróleo causado pela Arábia Saudita visasse atingir a economia do Irã (por causa de sua rivalidade geopolítica no Oriente Médio), era inevitável que a Venezuela e sua experiência bolivariana, que dependem dos altos preços do petróleo, fossem significativamente afetadas.

Durante a presidência de Chávez, o preço do petróleo atingiu um pico histórico de US$ 100,00 por barril, com a receita utilizada para financiar programas sociais e subsídios alimentares. Porém, com o excesso de oferta de petróleo imposta pelos sauditas em 2014, um ano após a morte de Chávez e as eleições de Maduro, muitos destes programas tornaram-se insustentáveis. Maduro acredita que Washington e Riad conspiraram para atingir as economias da Rússia e da Venezuela. Riad serve como o aliado árabe mais importante de Washington e segundo aliado mais importante no Oriente Médio depois de Israel.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, em dezembro de 2014, questionou a redução dos preços do petróleo, afirmando que “há muita conversa sobre o que está causando isso. Poderia ser um acordo entre os EUA e a Arábia Saudita para punir o Irã e afetar as economias da Rússia e da Venezuela? Poderia” (Mooney, 2014). Maduro concordou com as sugestões de Putin de que o excesso de oferta de petróleo visava, intencionalmente, prejudicar Moscou e Caracas, e afirmou: “Você sabia que há uma guerra do petróleo? E a guerra tem um objetivo: destruir a Rússia. É uma guerra estrategicamente planejada […]. Também visou a Venezuela com a finalidade tentar destruir nossa revolução e causar um colapso econômico” (Antonopoulos e Cottle, 2017: 81).

A Arábia Saudita negou sugestões de uma conspiração do petróleo, e o ministro do petróleo da Arábia Saudita, Ali al-Naimi, declarou que seu país “não busca a politização do petróleo. Para nós, é uma questão de oferta e demanda, é puramente comercial” (Raval, 2014). Apesar da retórica de Riad, a Arábia Saudita produziu excedentes de petróleo para atingir a volátil economia iraniana. A Arábia Saudita depende do petróleo para 80% de seu orçamento, mas possui vastas reservas (Antonopoulos e Cottle, 2017: 81). Embora só se possa especular se Washington concordou com Riad para enfraquecer a economia venezuelana através de uma oferta excessiva de petróleo, e da queda nos preços, o que não pode ser negado é que as repercussões econômicas permitiram que os Estados Unidos começassem seus esforços de desestabilização na Venezuela.

A oportunidade de intromissão de Washington na Venezuela:

Chávez subsidiou itens básicos, como alimentos e remédios, fazendo com que esses produtos se tornassem acessíveis aos pobres, porém, bem abaixo do custo de produção (Benzaquen, 2017). Quando tornou-se insustentável para as empresas venezuelanas produzir seus próprios produtos, o governo começou a importar itens do exterior usando o dinheiro do petróleo, arruinando indústrias e consolidando a dependência da Venezuela em relação ao petróleo (Ibid). Isso expôs mais a Venezuela à catástrofe econômica em caso de uma queda no preço global do petróleo.

Os Estados Unidos, paralelamente, canalizaram US$ 49 milhões para a oposição direitista na Venezuela desde 2009 (TeleSUR, 2017). Embora os EUA tenham justificado esse dinheiro para a oposição como promoção da “democracia” e como “esforços humanitários”, grande parte disso tem usado para desafiar constantemente Chávez ou Maduro e forçar uma derrubada ou um golpe contra os presidentes democraticamente eleitos.

Alvaro Sanchez Cordero, encarregado na Embaixada da Venezuela nos Países Baixos, afirma que:

“Eles [os EUA] deram apoio financeiro total, e apoiam politicamente os esforços violentos e inconstitucionais da oposição venezuelana direitista para expulsar o governo democraticamente eleito através um golpe de Estado; locaute de petróleo e de empresas; barricadas nas ruas e a contratação de mercenários e paramilitares para perpetrar terror generalizado; entre outras coisa. (Cordero, 2017)

Ele continua afirmando que:

“A atual onda de violência desestabilizadora tem sido mais efetiva porque está combinada com uma guerra econômica viciosa, remanescente do que foi com Allende no Chile na década de 1970: o que inclui o bloqueio de crédito internacional, interrupção da distribuição de alimentos e outros itens essenciais (Cordero, 2017).

Os EUA, desde 2014, tem continuamente imposto sanções sobre funcionários do governo venezuelano. Em 2014, os Estados Unidos aprovaram um projeto de lei intitulado Lei de Proteção à Democracia e Direitos Humanos na Venezuela, que impôs sanções contra indivíduos por supostos abusos de direitos humanos contra pessoas que protestaram contra os altos níveis de violência criminal, inflação e escassez crônica de bens básicos (Congresso, 2014). A lei foi aprovada, apesar dos 43 mortos e inúmeros feridos, na sua maioria civis pró-governo e policiais, com milhões de dólares em danos à propriedade pública e privada, incluindo usinas e clínicas médicas (Petras, 2015). Novamente, isso é uma reminiscência da Síria de 2011. O projeto de lei proibiu alguns indivíduos venezuelanos de viajar para os EUA, congelando seus ativos.

O projeto de lei foi visto como fraco, com a oposição venezuelana, a Mesa Redonda da União Democrática (MUD), afirmando que “o governo não vai ser prejudicado. Pelo contrário, eles usarão isso para se fazerem de vítimas, para viajar o mundo e falar sobre o imperialismo americano” (Wyss, 2014). 14 membros do Congresso, então, escreveram uma carta ao presidente Barack Obama sobre o projeto de lei, dizendo: “uma vez que a intervenção e as sanções unilaterais dos Estados Unidos causaram grande ressentimento em toda a América Latina, estas não são as ferramentas certas para a nossa política regional nos casos em que não possuem qualquer apoio regional significativo” (Ibid). As sanções de 2014 tiveram sucesso, por parte dos EUA  e de seus aliados do MUD, na derrubada do presidente democraticamente eleito.

Então em 2015, Obama colocou sanções contra outros sete funcionários venezuelanos, mas fez uma declaração bizarra ao declarar uma “emergência nacional em relação à ameaça incomum e extraordinária para a segurança nacional e para a política externa dos Estados Unidos criada pela situação na Venezuela” (Obama, 2015). Não foi dito como a Venezuela representava uma ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos, mas pode-se assumir que seja fruto da vontade da Venezuela de enfraquecer a dominação do dólar americano na América Latina, como também da retórica bolivariana do anti-americanismo que ressoa na região.

O professor James Petras explica que:

“A Venezuela tem proposto e apoiado com sucesso várias organizações de integração regional, que são voluntariamente apoiadas por seus colegas membros da América Latina e do Caribe. Essas organizações regionais, em grande parte, substituem as estruturas dominadas pelos EUA, que atendiam aos interesses imperiais de Washington. A acusação de Obama de que a Venezuela representa uma ameaça para a política externa dos EUA é uma acusação dirigida a todos os governos que escolheram livremente abandonar as organizações centradas nos EUA, e que rejeitam a hegemonia dos EUA. Em outras palavras, o que suscita a ira de Obama, e motiva suas ameaças agressivas em relação à Venezuela, é a liderança política de Caracas no desafio da política externa imperialista dos EUA” (Petras, 2015).

Embora Petras indique corretamente que Caracas tem uma política externa independente, que desafia o imperialismo norte-americano, a Venezuela se envolveu em um comportamento peculiar em relação a Washington se considerarmos sua retórica anti-americana. A Venezuela doou US$ 500 mil para as celebrações de inauguração do presidente dos EUA, Donald Trump, de acordo com um novo relatório da Comissão Eleitoral Federal dos EUA (Campoy, 2017). Maduro não assinou pessoalmente o cheque, no entanto, o dinheiro foi doado pela Citgo Petroleum, uma subsidiária americana da petrolífera estatal venezuelana, Petróleos da Venezuela (PdVSA), que é um braço do governo (Ibid).

Apesar do governo bolivariano manter sua retórica anti-americana, nunca foi capaz de libertar-se da dependência do capital americano. Atualmente, cerca de 500 empresas dos EUA operam na Venezuela (Departamento de Estado dos EUA, 2016). Algumas dessas empresas incluem: PepsiCo, Coca-Cola, McDonald’s e Goodyear Tire & Rubber Co. Estas fábricas são minúsculas em comparação com a dependência da economia venezuelana do petróleo, no entanto. Em 2016, o petróleo representava 95% dos ganhos de exportação da Venezuela, demonstrando a falta de diversificação em sua economia (OPEP, 2016). Os EUA também são o maior destino de exportação de petróleo da Venezuela, apesar do crescente comércio com a China. No entanto, Yanran Xu afirma que “a China tem sido cautelosa e não se envolveu demais com a Venezuela para amplificar ou agravar seu parceiro mais estrategicamente importante, que são os EUA”, sugerindo que a China não seja uma saída para a Venezuela se libertar da dependência do capital americano (Xu, 2016: 63). Os três principais destinos da exportação venezuelana são os Estados Unidos (US $ 14,6 bilhões), a China (US $ 6,07 bilhões) e a Índia (US $ 5,8 bilhões) (Observatório da Complexidade Econômica, 2015). Isso demonstra a dependência excessiva da Venezuela em vender seu petróleo para os EUA, quando o segundo e o terceiro lugar, na China e na Índia, não são equivalentes à quantidade de exportações da Venezuela para os EUA.

Mais curiosamente ainda para um suposto governo anticapitalista: a Goldman Sachs comprou US$ 2,8 bilhões de títulos venezuelanos em maio de 2017, que foram emitidos pela PdVSA em 31 centavos no dólar, e venceram em outubro de 2022 (Ellsworth e Scigliuzzo, 2017). O Estado, economicamente arruinado, viu-se atado ao se constatar ideologicamente anti-americano, mas economicamente dependente dos EUA.

É essa dependência excessiva dos EUA que faz com que a Venezuela se encontra continuamente à mercê da intromissão estrangeira, explicando também o motivo de as sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela sempre visaram indivíduos e nunca a economia. O óleo barato deve fluir continuamente para os EUA. Apesar da oferta de paz de Venezuela de US$ 500.000 para a celebração da inauguração de Trump, o Tesouro dos EUA colocou sanções em oito membros da Suprema Corte de Justiça da Venezuela por, supostamente, usurparem a autoridade da Assembléia Nacional dominada pela oposição da Venezuela em 2017 (Departamento do Tesouro dos EUA, 2017). O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, justificou as sanções porque “o povo venezuelano sofre com uma economia em colapso provocada pela má gestão e a corrupção do governo”, e que “ao impor essas sanções específicas, os Estados Unidos estão apoiando o povo venezuelano em seus esforços para proteger e promover a governança democrática em seu país” (Ibid). Embora o petróleo flua continuamente para os EUA, o que protege um pouco a Venezuela de sanções econômicas completas, é o impulso da Venezuela para uma moeda independente da América Latina, sua receptividade à China e o contínuo envolvimento de Caracas com uma Cuba isolada, e com o Irã, que justifica a contínua intromissão de Washington na Venezuela.

Uma investida chinesa para a Venezuela: nova oportunidade econômica?

Embora as exportações venezuelanas para os EUA tenham representado o dobro das exportações para a China, uma China em expansão,  que se concentre em uma abordagem de poder suave, pode proporcionar ao país, economicamente atingido, a assistência necessária, libertando-o da dependência dos EUA. No entanto, a Venezuela confiou na China como seu maior credor estrangeiro, com a China emprestando a Venezuela cerca de US$ 60 bilhões desde 2014 em negócios que, em sua maioria, não foram divulgados (Corr, 2017: 1). A dívida deve ser paga em petróleo e a China recebe acesso preferencial a infraestrutura e a acordos fabris com a Venezuela, se tornando o aliado mais forte da China na América Latina. Esta suposta conquista levou Maduro a declarar, em uma conferência de novembro de 2016, que: “Nossa irmã mais velha, a China, não deixou a Venezuela sozinha em tempos difíceis” (Shi, 2016).

Em 2001, a Venezuela tornou-se o primeiro Estado latino-americano a entrar em uma “parceria de desenvolvimento estratégico” com a China, que se tornou um “parceiro estratégico abrangente” em 2014, situando a Venezuela como o baluarte da China para a América Latina (Hui, 2014). Isso se revelou crucial para a penetração da China na América Latina, uma região considerada como a zona de influência dos Estados Unidos, onde a China tinha vínculos culturais, históricos e econômicos limitados. Esta parceria significou que, em 2014, os bens chineses na Venezuela atingiram US$ 5,7 bilhões, contra apenas US$ 100 milhões em 1999 (Lansberg-Rodriguez, 2017).

Em 2009, a Venezuela e a China criaram uma empresa ferroviária que colocaria trilhos de 468 km para ligar as regiões produtoras de petróleo da Venezuela com as áreas agrícolas, sendo a propriedade da China de de 40%, através da China Railways Engineering Corporation, e o restante pela Venezuela (Reuters, 2009). Outros projetos incluem os vastos contratos de habitação assumidos pela China: as firmas chinesas de construção construíram dezenas de milhares de casas na “Missão da Ótima Habitação” da Venezuela, que visa construir 3 milhões de lares até 2019. Apesar da porcentagem chinesa ser menor, a então ministra da defesa da Venezuela, Carmen Melendez, disse: “Esse valor aumentará porque o relacionamento com a China continuará a crescer ao longo do tempo” (Ying, 2015).

O que esses projetos delineiam é que a China está envolvida em um desafio de explorar novos mercados no hemisfério ocidental, predominantemente dominado pelos EUA. É através de um aliado firme na Venezuela que Pequim pode penetrar mais nas Américas. No entanto, os EUA, como o principal adversário econômico e geopolítico da China, não tolerarão que outra grande potência estabeleça um ponto de apoio em “seu quintal”. Portanto, quando explorada através deste escopo, a contínua intromissão dos EUA na Venezuela para derrubar o governo bolivariano, a favor do MUD pró-EUA (que expressou que irá renunciar a muitas negociações com a China), pode ser entendida como ligada ao afastamento em relação ao dólar americano e à amizade da Venezuela com Estados antiamericanos como Cuba e Irã.

Embora as vias de remessa para os EUA sejam muito mais diretas e convenientes do que as para a China, que dependem da passagem  pelo Canal do Panamá, a intromissão contínua dos EUA na Venezuela, com um governo bolivariano ligado à resistência, apenas empurrará Caracas para mais perto de Pequim, assim como Damasco fez em relação a Moscou no contexto da guerra síria. Pequim entende que, caso o governo bolivariano caísse, o mesmo aconteceria com suas chances de recuperar seus vastos empréstimos para a Venezuela e com as oportunidades de explorar ou se beneficiar da vasta riqueza petrolífera e mineral do país.

Ao contrário dos EUA, a China optou por não se intrometer nos assuntos internos da Venezuela agitando um processo de desestabilização. Em vez disso, Pequim expressou sua esperança de que a crise de 2017 possa ser resolvida de forma pacífica. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lu Kang, disse, em uma conferência de imprensa em abril de 2017: “Como amigo da Venezuela, a China espera e acredita sinceramente que o povo venezuelano possa lidar adequadamente com seus assuntos domésticos” (Xuxin, 2017). A sobrevivência do governo bolivariano garantirá que Caracas possa continuar a reduzir sua dependência dos EUA em favor da China.

Crise de 2017: a oportunidade de Washington de encerrar o experimento bolivariano

Na eleição parlamentar venezuelana de 2015, o MUD ganhou 109 dos 164 lugares gerai,s e os três assentos indígenas, dando a eles uma maioria esmagadora na Assembleia Nacional e demonstrando a crescente impopularidade do experimento bolivariano. Os governos do Grande Polo Patriótico ganharam os restantes 55 assentos. Em um esforço para enfraquecer a Assembléia Nacional, em 29 de março de 2017, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela, que é uma fortaleza institucional para Maduro, assumiu os poderes legislativos da Assembléia Nacional e restringiu a imunidade dada aos membros da Assembleia Nacional. Isso provocou fortes reações dos grupos de oposição e da comunidade internacional, que viu isso como um golpe e um passo para Maduro consolidar seu poder em uma ditadura.

Embora o TSJ tenha revertido sua decisão três dias depois, os protestos, que ocorriam esporadicamente contra o governo desde 2014, se intensificaram, com centenas de milhares protestando diariamente em abril e maio. Estes protestos, em grande escala contra o governo, impulsionados pelo pró-americano MUD, forneceu a Washington as condições necessárias para explorar a situação e derrubar Maduro. A mídia ocidental avançou com as manchetes sobre um governo brutal, que suprime os manifestantes, apesar da maioria dos feridos e mortos serem apoiadores do governo ou membros das forças de segurança (TeleSUR, 2017).

Com a Organização dos Estados Americanos (OEA) assumindo uma posição crítica contra o governo bolivariano, a Venezuela avançou com uma ameaça anterior e iniciou o processo de deixar a organização em abril (TeleSUR, 2017). Quando o processo estiver concluído em 2019, será o segundo país nas Américas, depois de Cuba, a não ser membro da OEA. A então ministra venezuelano das Relações Exteriores, Delcy Rodriguez, disse que a ação da OEA foi tomada para “intervir e tomar a custódia de nosso país, algo que, felizmente, nunca acontecerá” (The Daily Mail, 2017). A Venezuela citou que não havia críticas contra o presidente brasileiro não-eleito Michel Temer, envolvido em um escândalo de corrupção, embora houvesse um foco em criticar inteiramente a Venezuela. A OEA, que a Venezuela diz ser controlada por Washington, ameaçou suspender a Venezuela da organização em 2016, quando Rodriguez respondeu, afirmando que este era um esquema “imperialista” e que “o império decidiu que é hora de tomar nossos recursos” (Kai e Harte, 2016).

Com os meios de comunicação ocidentais, os EUA e a OEA denunciando a suposta resposta violenta das forças de segurança contra os manifestantes, mas não houve menção à violência dos manifestantes, como aos venezuelanos negros sendo linchados, um chavista queimado vivo, jornalistas sendo espancados, hospitais postos sob cerco, transportes públicos queimados, a casa de infância de Hugo Chávez queimada e edifícios públicos, como ministérios, queimados (Sanchez e Dreier, 2017). A mesma retórica usada para justificar intervenções no Iraque, na Líbia e na Síria está sendo empregada contra o Estado venezuelano, com o The New York Times publicando uma peça de “opinião” com a manchete: “A Venezuela Precisa de Intervenção Internacional Agora” (Genser, 2017). Rodriguez explicou, em abril de 2017, que a intervenção humanitária é “uma teoria construída pelo Pentágono para que os EUA possam intervir” em Estados soberanos (Goodman e Salomon, 2017). É essa mesma retórica de intervenção humanitária que justificou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, quando não foram encontradas armas de destruição em massa, e a mesma justificativa para a derrubada e assassinato do coronel Gaddafi em 2011.

Em um discurso apaixonado aos seus apoiadores, em 19 de maio de 2017, Maduro disse a Trump: “Tire suas mãos daqui, Donald Trump. Tire suas mãos de porco daqui”, e seguiu chamando os manifestantes de “marionetes” dos EUA (Faulkner, 2017). Na tentativa de aliviar a crise política, Maduro anunciou, em maio de 2017, que ele convocaria uma Assembléia Constituinte para resistir a uma tomada “fascista”, e que um órgão de 500 membros, composto por pessoas comuns, guiaria a Venezuela para fora de seu estado de emergência.

Ele afirmou que:

“Eu convoco o poder constituinte original para alcançar a paz necessária à República, derrotar o golpe fascista e deixar o povo soberano impor paz, harmonia e um verdadeiro diálogo nacional. Eu não quero uma guerra civil” (RT, 2017).

No entanto, o presidente da Assembléia Nacional e o líder da oposição, Julio Borges, afirmam: “Esta é uma farsa para enganar o povo venezuelano com um mecanismo que não passa de um golpe” (RT, 2017). Em apoio, o líder do movimento de protesto, o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, disse: “Nós, os venezuelanos, não aceitamos a continuação do autogolpe de Maduro […] O ditador Maduro, e sua liderança corrompida pelas drogas, querem matar a constituição da República Bolivariana da Venezuela! Eles não serão capazes de fazer isso!” (RT, 2017). Isso demonstra que a oposição, apoiada pelos EUA, não tem interesse em resolver a crise, a não ser na condição de que Maduro seja removido da presidência.

Embora a oposição direitista afirmasse que Maduro tentou um golpe com o enfraquecimento do poder da Assembléia Nacional, foi Borges que pediu que os militares intervissem e liderassem um golpe contra Maduro (El Nacional, 2017). Este apelo a uma intervenção militar não recebeu nenhuma condenação dos EUA.

Apesar do MUD dominar as eleições parlamentares de 2015, a violência patrocinada pelos EUA contra o Estado venezuelano, no início de 2017, alienou as pessoas que desejavam uma mudança política, mas não por meios violentos. Em 15 de outubro de 2017, a Venezuela realizou eleições regionais, nas quais os chavistas conquistaram 18 de 23 governos, sugerindo que a violência liderada pela oposição alienou os cidadãos comuns (Vaz, 2017). Embora a oposição afirme que as eleições foram fraudulentas, o Conselho Latino-Americano de Peritos Eleitorais, que supervisionou as eleições, composto de 1300 observadores internacionais – incluindo o ex-presidente do Tribunal Eleitoral Colombiano, Guillermo Reyes, o ex-presidente do Supremo Tribunal Eleitoral de Honduras, Augusto Aguilar, e o ex-magistrado eleitoral peruano Gastón Soto –, afirmou: “A eleição ocorreu de forma pacífica e sem problemas […] a votação reflete a vontade dos cidadãos”, e que a eleição foi realizada em condições de “total normalidade” (Koerner, 2017).

Conclusão:

Embora as pessoas tenham críticas legítimas contra o experimento bolivariano na Venezuela, a oposição de direita, e apoiada pelos EUA, está tentando ir contra a Constituição, forçando prematuramente uma eleição presidencial que não está agendada até outubro de 2018. Os métodos empregados para deslegitimar Maduro incluem a violência contra manifestantes e danos materiais que lembram a Síria de 2011. Maduro reconhece que os mesmos métodos bem-sucedidos, que destruíram grande parte da Síria, estão sendo empregados ali, e está tentando evitar um cenário parecido com a Síria a todo custo.

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo, e o petróleo ainda está fluindo generosamente para os EUA, mas essa não é a razão do desespero de Washington para destruir o governo bolivariano. Em vez disso, é o desejo da Venezuela de usar uma alternativa ao dólar americano, as crescentes relações com Pequim – que permitirão a penetração chinesa no hemisfério ocidental, dominado pelos EUA – e as estreitas relações da Venezuela com dois dos adversários dos EUA, Cuba e Irã, foram as causas da Venezuela ser um alvo prioritário de Washington. O MUD promete que não só o petróleo continuará a fluir para os EUA, como a influência chinesa na Venezuela diminuirá, assim como será retirada a aliança com outros Estados regionais anti-americanos – como Cuba e Bolívia.

A oferta de Maduro de US$ 500.000 para a celebração de inauguração de Trump, e a abertura da Venezuela para as corporações dos EUA, não foi suficiente para aliviar a pressão de Washington. Juntamente com as lutas da experiência bolivariana, que dependia exclusivamente da receita do petróleo a preços altos para financiar seus impressionantes programas sociais, a Venezuela ficou exposta e suscetível a interferências e intervenções estrangeiras. O presidente bolivariano destacou que o vasto petróleo da Venezuela é um “privilégio”, mas também o motivo pelo qual o país é o “mais desejado pelas poderosas elites de Washington” (TeleSUR, 2017). Ele então destacou que “o povo venezuelano tem o anti-imperialismo escrito em seus genes” (Idib).

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Paul Antonopoulos

Ativista político de origem grega, colaborador independente da NR e analista político do jornal Fort Russ e do Center for Syncretic Studies.

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