O que representa o recente ressurgimento do simbolismo inglês, em particular a Cruz de São Jorge, em contraste com a identidade britânica mais cívica e abstrata?
Durante a última semana, as bandeiras do Reino Unido (Union Jacks) e as Cruzes de São Jorge começaram a aparecer por toda a Inglaterra como parte de uma campanha online chamada “Operação Levantar as Cores” (Operation Raise the Colours). Essa tendência chamou a minha atenção porque, embora a campanha evocasse ambas as bandeiras, a Cruz de São Jorge parecia estar muito mais representada. Um artigo recente no The Telegraph chega a questionar: “Este é o começo da revolução inglesa?”
Ao ver esse mini-renascimento da bandeira inglesa, lembrei-me de um antigo ensaio do filósofo conservador Roger Scruton: Inglaterra: uma identidade em questão (England: an identity in question). Embora já fizessem anos desde que o li pela primeira vez, ele sempre ficou na minha memória porque Scruton me surpreendeu com a sua defesa do nacionalismo inglês em oposição à identidade britânica, mais cívica.
Scruton explicou como ele também havia notado uma identidade inglesa a começar a ressurgir sob a britânica entre a população maioritária da União:
O desejo por uma identidade inglesa, em oposição a uma britânica, está a crescer rapidamente. Quando eu era adolescente, as multidões que apoiavam a Inglaterra em partidas de futebol ou críquete agitavam a Union Jack; agora elas agitam a bandeira de São Jorge. Esta bandeira está a começar a aparecer nos relvados suburbanos e nos pátios de quintas rurais, e a palavra “Inglaterra” é cada vez mais ouvida em contextos onde, até alguns anos atrás, “Grã-Bretanha” teria sido a norma.
No ensaio, Scruton escreveu de forma solidária sobre os apelos pela independência da Escócia, observando que o governo britânico cometeu um grande erro ao resistir às exigências irlandesas por independência nacional, de uma forma que levou a conflitos desnecessários e a uma inimizade de longo prazo entre as nações.
Mas o seu foco era o que uma ilha de nações independentes poderia significar para a sua Inglaterra. Ao escrever isto em 2007, as Eleições Gerais britânicas de 2005 ainda estavam bem frescas na memória de Scruton.
Aquela eleição trouxe o Partido Trabalhista de Tony Blair de volta ao poder na Grã-Bretanha, mas Scruton observa que o Partido Conservador, na verdade, recebeu mais votos do que os Trabalhistas na Inglaterra. No entanto, os Trabalhistas ainda garantiram uma maioria esmagadora no parlamento, em grande parte devido ao poder de voto dos escoceses e galeses. Isto refletiu uma dinâmica de longa data na política britânica que continua até os dias de hoje:
O Partido Trabalhista sempre contou com esses votos para garantir os seus períodos de mandato, sabendo que os sentimentos separatistas dos celtas se prestam facilmente à luta contra a ameaça um tanto mítica, mas ainda ressonante, do establishment conservador inglês. No entanto, a estratégia de usar o voto celta para governar os ingleses dependia de manter os celtas dentro do reino, e é por isso que o Partido Trabalhista lhes concedeu certa medida de independência, para evitar que as suas queixas os levassem a separar-se inteiramente.
Se havia uma divisão política entre a nação inglesa e os seus vizinhos celtas em 2005, essa divisão é muito mais acentuada agora com a ascensão do Reform e do Partido Nacional Escocês (Scottish National Party). Basta olhar para a projeção de lugares no parlamento britânico se uma eleição fosse realizada em 2025:

O que salta à vista no mapa é a extrema fragmentação étnica. Deixando de lado o quanto o apoio aos Trabalhistas depende das grandes áreas metropolitanas multirraciais, fica claro que uma Inglaterra despojada da sua união com a Escócia e o País de Gales daria uma maioria esmagadora ao Reform. Esse será o resultado provável das próximas eleições de qualquer maneira, mas a fragmentação sobre a qual Scruton escreveu em 2007 é ainda mais forte agora.
Então, o que devemos pensar deste mini-ressurgimento da identificação inglesa? Em primeiro lugar, acredito que a dissolução do Reino Unido durante as nossas vidas é inevitável: uma identidade britânica partilhada está a desaparecer, as nações individuais da União estão mais divididas politicamente do que nunca e as tendências de voto apontam para que um segundo referendo de independência escocesa venha a ter sucesso — após o qual as exigências de independência galesas chegarão a um ponto de ebulição.
Esta fragmentação política coincide com o declínio de qualquer identidade britânica partilhada significativa. À medida que a Grã-Bretanha se tornou mais multicultural e universal na sua autodefinição, a “britanidade” (Britishness) mudou de uma lealdade nacional enraizada para um vago rótulo cívico.
Scruton antecipou esta mudança. No seu livro Inglaterra e a Necessidade das Nações (England And The Need For Nations), ele reflete sobre a trajetória da identidade britânica. Baseando-se num historiador popular que a descreveu como um projeto imperial e politicamente construído, Scruton observou que:
“A ideia de uma identidade nacional britânica só faz sentido por causa das outras identidades mais profundamente enraizadas que ela subsume. Os escoceses continuam a descrever-se como escoceses; os irlandeses como irlandeses — ou, se rejeitam a República, como ‘Unionistas’, o que significa adeptos da estranha entidade legal descrita nos seus passaportes. Os galeses, que nos forneceram os nossos reis mais resolutamente ingleses, os Tudors, ainda são, aos seus próprios olhos, galeses. Os ingleses continuam a ser ingleses, e nos seus corações é a Inglaterra que garante a sua lealdade; não a Escócia, a Irlanda ou o País de Gales. Apenas um grupo de súbditos de Sua Majestade se vê como britânico, mas não inglês, escocês, irlandês ou galês — nomeadamente, os imigrantes do antigo Império que adotaram a nacionalidade britânica enquanto mantêm lealdades étnicas e religiosas forjadas muito longe e anos antes. Muitos dos nossos concidadãos são ‘paquistaneses britânicos’, enquanto ‘paquistanês inglês’ sugere alguém de ascendência inglesa residente no Paquistão, e não um imigrante paquistanês na Inglaterra.”
“A experiência britânica ilustra, portanto, a forma como uma identidade nacional composta pode ser forjada numa única jurisdição, ao mesmo tempo que oferece abrigo a minorias que ainda podem não ter nenhuma lealdade nacional, mas cujos filhos, espera-se, serão educados para adquiri-la.”
E este último ponto, creio eu, explica o recente renascimento do simbolismo inglês. Embora a “britanidade” não seja, por definição, uma identidade cívica e aberta, ela tornou-se cada vez mais nisso no século XX — mesmo antes do fim do Império e das recentes ondas de imigração em massa — de uma forma que uma identidade étnica como a “inglesidade” (Englishness) nunca poderia. Uma investigação no Google Ngram conta uma história interessante sobre os usos históricos de “Inglaterra”, “Grã-Bretanha” e “Reino Unido” (UK) — em primeiro lugar, que houve uma mudança em direção à identificação britânica, afastando-se da inglesa, no início da Primeira Guerra Mundial, quando a União convocou todos os seus constituintes para fornecer corpos para o esforço de guerra.

Há outra mudança mais dramática no período pós-Guerra. De repente, aparentemente do nada, surge o uso do termo “UK” (Reino Unido). Este aumento acentuado na década de 1970 coincide com o início dos “Problemas” (The Troubles), quando a legitimidade política da união da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte entrou em foco, e declinou novamente depois que o Acordo de Sexta-Feira Santa de 1997 encerrou o tema na mente da maioria dos britânicos. No entanto, agora, o “Yookay” (escrita fonética de UK) está aparentemente a passar por um ressurgimento na Grã-Bretanha pós-onda-Boris (post-Boriswave), servindo como o identificador cívico genérico para qualquer pessoa que viva na União.
Embora historicamente compreendida como uma extensão da identidade inglesa, a britanidade foi expressa principalmente como uma lealdade a instituições e arranjos políticos, e não a um povo. Isso tornou-a frágil como fonte de lealdade e deixou-a vulnerável à desnacionalização, permitindo que fosse reformulada no final do século XX como uma identidade eletiva e multirracial. A britanidade sempre funcionou menos como uma nação e mais como um guarda-chuva cívico. Os seus símbolos e juramentos apontam para um soberano e não para uma nação. Rule Britannia exalta o império e a liberdade, e o hino nacional promete lealdade não a um povo ou a uma cultura, mas ao monarca que preside a União. A monarquia britânica acolheu implicitamente cada passo da transformação multirracial do país. Agora existe apenas como uma relíquia da tradição, em torno da qual os conservadores se sentem obrigados a agrupar-se, muito embora a família real mostre repetidas vezes estar decididamente ao lado das forças antinacionais.
Neste contexto, as observações de Scruton ganham uma urgência renovada. A Inglaterra, argumentava ele, precisa de um reconhecimento político da sua própria identidade, não apenas como parte de uma União mais ampla, mas como uma nação distinta com coerência histórica, cultural e política. Mesmo que não seja articulado, muitos nacionalistas na Inglaterra estão a regressar à sua bandeira nacional, afastando-se de uma britanidade cada vez mais abstrata. Um ex-conselheiro de Tony Blair queixou-se no programa Newsnight da BBC de que o surgimento da bandeira de São Jorge está “a ser usado para racializar o discurso político”.
Concluindo, o desmembramento da União poderia redefinir o nacionalismo nas nações da antiga União, permitindo o surgimento de um nacionalismo étnico inglês mais confiante e potencialmente desmantelando o domínio da esquerda na franja celta da União, promovendo uma nova era de expressão nacional autêntica. Sob esta luz, o desconforto do establishment com a Cruz de São Jorge revela a sua compreensão intuitiva de que o que estão a presenciar não é apenas uma moda passageira nas redes sociais, mas sim os primeiros sinais da sua própria obsolescência.
Fonte: Keith Woods








