
Há algumas semanas, em um trabalho da ANR com alguns muçulmanos, desenvolvemos uma linha de debate muito interessante.
Sempre que esses encontros acontecem, acabamos entrando no mesmo ciclo de discussão de comparações entre o xiismo, às religiões de matriz afro (que mantém muitos elementos sincréticos católicos e indígenas) e a religião ancestral indo-europeia/aryana, e, acreditem se puder, há muitas semelhantes ideais entre as três, fazendo parecer terem uma origem comum ou ao menos os três povos alcançaram o mesmo nível existencial e assim alcançaram alguma forma de sabedoria universal e perene.
Nesse ínterim, lembro de um camarada muçulmano comentando sobre o martírio do Aiatolá Khamenei, e citando que o xiismo compreende que a vida é um caminho para se escrever uma bela morte, que a morte é o resultado final nesse mundo, a finalização mais bela de uma vida nobre, é o desvelar da verdade final sobre aquela vida.
A partir desse ponto, Zazael (grande camarada nosso da ANR) comentou como isso se assemelha a religião nórdica (e as religiões asūricas no geral, mas é papo pra outro dia), e citou o clássico dito de Odin no Havamal “gado morre, parentes morrem, eu mesmo vou morrer, o único que que não morre é a boa fama de um homem, se ele a merecer”.
Dentre as divagações, citamos também o quanto as artes das mesquitas iranianas se assemelham as visagens fractais da Ayahuasca, mas não apenas as mesquitas se assemelhavam ao mundo no qual se entra durante o rito com a ayahuasca, como as artes nórdicas, celtas e indo-européias no geral, também se assemelham muito, pois assim como na força da ayahuasca, essas artes descrevem o entrelaçamento entre homem, animal e vegetal, de forma espiral e fractal.
Enquanto conversávamos, outro camarada (também muçulmano), trouxe um turíbulo para purificar o ambiente, e comentou que o que queimava no turíbulo era Arruda da Síria.
Ele então comentou sobre o hábito islâmico de usar Arruda da Síria (Paganum Harmala) para a fumigação e purificação dos templos, sendo essa uma planta que contém dois alcalóides (Harmina e Harmalina) que são inibidores de MAO, ou seja, tem um efeito químico semelhante ao efeito do Cipó Jagube na Ayahuasca.
Mas além da fumigação de ambientes com Arruda da Síria, ele trouxe uma informação ainda mais interessante, haviam escritos sobre a Arruda da Síria ser usada por guerreiros antes da batalha, por deixar eles em um estado mais elevado de espírito, e sem medo da morte (o que comentaremos mais a diante).
Uma breve análise prática da ação do DMT sobre o estado de quase morte
Sem mais delongas e sem entrar muito no âmbito bioquímico da coisa, a ayahuasca tem um efeito sensorial muito próximo de uma experiência de quase morte, pessoas que já tiveram parada cardíaca e passaram por ressuscitação, descrevem experiências visuais como raízes se entrelaçando, fractais e luzes bem parecidas com os visuais iniciais da ayahuasca, uma das explicações céticas e materialistas, teoriza que o DMT é produzido no próprio corpo em experiências de quase morte, por ter uma ação de proteção dos neurônios em situações de baixa oxigenação, e por isso é produzido em grande quantidade durante o nascimento e durante a morte de um indivíduo (oque espiritualmente se diria como a conexão num ciclo de encarnações, você tem a mesma visão nascendo e morrendo, por serem ambos o mesmo momento), e por conta dessa liberação massiva de DMT em experiências de quase morte (ou corte de oxigênio para o cérebro), geralmente é relatado visagens muito específicas que se tem no início de um rito com DMT ou ayahuasca.
E aí vem a minha experiência pessoal com ayahuasca e como isso influencia até nas minhas noções de mundo e política;
A ayahuasca pra mim sempre foi um processo de mortificação, já que enquanto outros enteógenos como cogumelos e argyreia traziam a sensação de conexão e entrelaçamento com a natureza e com a vida, a ayahuasca era como a mordida de uma jararaca, o veneno correndo em minhas veias e mortificando cada pedaço meu para que eu pudesse ver o mundo dos mortos através das sensações do espírito, e não de algum sensação física.
Na minha última experiência, percebi que as religiões tradicionais são tão dadas a exaltação da morte e dos mortos, não por uma negação da vida, mas por uma afirmação dela.
O “eu” e a morte
O nome ayahuasca significa “cipó do morto”, e diante de uma perspectiva tradicional que não abomina ou teme a morte, nem a romantiza, entende-se que o mundo no qual se adentra quando se está na força, nada mais é do que o mundo dos mortos, não num sentido de umbral ou coisa parecida, mas no sentido mais tradicional mesmo, os povos antigos entendiam que não havia tanta diferença entre um deus e um morto, nesse sentido.
Os Campos Elísios, Valhalla, o mundo das fadas, todos ficavam debaixo da terra, juramentos eram prestados em colinas tumulares, e mesmo na cultura indígena brasileira, lembro que algumas etnias em específico definiam que haviam três mundos, o dos animais, o dos homens e o dos espíritos, colocando o espírito dos mortos e as divindades em patamares semelhantes.
Quando se está na força da ayahuasca, e se fecha os olhos, vê-se a consciência se fragmentando em diversas encarnações, milhares e milhares de existências, e quando se abre os olhos, nota-se que os pedaços mais densos e materiais da sua existência, se conectam a natureza, a terra, aos seres vivos que te cercam, que as principais camadas da sua existência se conectam a tudo que te cerca, ainda que lá no fundo, haja o núcleo brilhante da sua existência, que é o aspecto verdadeiramente individual, porém, que se exalta a partir da luta pela harmonia e pelo ordenamento coletivo.
A morte é o momento no qual o indivíduo se dissolve, ali é revelada a verdade da sua natureza, pois no mundo dos vivos permanece o seu legado o imortalizando, e no mundo dos mortos, aqueles que mantiveram a retidão de seu espírito, combateram seus vícios e tendências destrutivas, exaltaram suas virtudes, agora revelam um “EU” maior e sagrado, sua morte o torna uma pequena divindade do outro lado, mas isso é claro, é apenas para que os que seguiram um caminho de ação e retidão, pois para os de vidas vazias e sem significado, a sua verdade revelada é apenas ser devorado pelo fluxo da entropia.
Os antigos xamãs acessavam o mundo dos mortos/deuses através dessas experiências e ali percebiam a verdade que quem se utiliza dos enteógenos percebe: que estamos todos conectados a uma grande teia de eventos, que absolutamente tudo é conectado e advindo do mundo superior, e assim se interpreta o céu como uma manifestação física do deus pai e a terra como manifestação física da deusa mãe, e outras interpretações, e ainda tudo isso se encontra conectado e todas coisas do mundo dos vivos são extensões e pequenas projeções do divino em um mundo superior muito maior do que o nosso, e que o espírito é o elemento de união de todos esses elementos menores.
Essa conexão com o todo, nos torna responsáveis (dentro de nossas capacidades) pela manutenção da harmonia cósmica.
Mas como isso se comunica a idéia do tradicionalismo, nacionalismo e a luta política?
Os Reis Guerreiros de Outrora
Essa idéia de que estamos todos conectados, aos olhos dos despreparados pode soar meio hippie ou moderna demais, mas analisando a experiência à luz da tradição, se compreende como esse tipo de ideal se transfere para a luta do guerrilheiro/soldado político.
É aí que entra a tradição há tanto perdida; se buscarem por exemplo entre os indo-europeus (voltando rapidamente na questão da arte) é comum ver imagens de divindades entrelaçadas entre diversos animais (Pashupati no Vale do Indo, Cernunnos para os celtas, algumas retratações de Odin, etc), além da primeira divindade adorada na Europa ser exatamente uma quimera, encontrada em uma pintura rupestre.



O ideal indo-europeu do rei, que vigorava muito fortemente entre os celtas, e que inclusive veio até nós aqui no Brasil, através dos resquícios da cultura celtibérica e luso-galaica, é o ideal de que o rei e seu reino são indissociáveis (isso se manifesta aqui no Brasil através por exemplo dos movimentos sebastianistas de teor quase messiânico, que formaram lendas como a de que Dom Sebastião está encantado em determinada Ilha, e caso ele seja desencantado, a Ilha afunda), esse ideal consiste na idéia de que o reino é reflexo do seu rei, portanto se o rei adoecer seja fisicamente ou espiritualmente, sua terra adoecerá com ele, a figura do rei assume um papel não apenas de protetor, mas de xamã, que através da resolução de alquimias dentro de si mesmo, cura a terra na qual reina.
Essas lendas eram tão enraizadas, que já no fim do medievo, ainda haviam dinastias reais que demonstravam a legitimidade de seu governo, através do chamado toque do rei, um toque que supostamente curava quem era tocado, tamanha era a presença divina do monarca.
Esse ideal é muito manifestado na literatura e mídia através das lendas arturianas, como no ciclo arturiano, Arthur alcança a redenção assim que é reunido com o Graal, que assim como a Excalibur e o próprio Rei Arthur, eram todos diferentes parcelas do mesmo ente, que é a Bretanha, e visto que o espírito de Arthur estava partido necessitando se reunir novamente, assim estava a Bretanha.
Partindo desse ponto, essas lendas tratam de reis guerreiros, protetores e mantenedores da harmonia dentro de seus reinados, e o que seriam esses reis guerreiros se não também xamãs?
O que diferenciava os reis guerreiros de outrora, do resto dos homens daquele tempo, era um espírito ascensionado, talvez não através do uso de enteógenos, mas através de tendências naturais (o dito “gene guerreiro”, uma alteração no gene COMT, que além de promover comportamentos violentos, também promove uma sintetização maior de DMT no corpo de seu portador, por exemplo) e de ritos iniciáticos que os levassem a estados alterados de consciência, e nesses estados alterados de consciência, nesses ritos de posse, eles se tornassem cientes de sua conexão com o seu entorno, com a harmonia de todas as coisas, e sua responsabilidade na manutenção dessa harmonia, doando a própria vida por ela.
Hoje, conforme sabemos diante da tradição, as castas foram destituídas e dissolvidas, as ditas aristocracias que ainda restam no ocidente são apenas títulos vazios, sem seu significado esotérico, sendo reduzido apenas ao acúmulo e manutenção de posses.
Então aonde se encontraria o posto do rei guerreiro? No soldado revolucionário (jamais no asceta), que através do misticismo, de ritos iniciáticos, da revelação divina, do empenho na luta do coletivo, ou mesmo de uma boa dose de ayahuasca, compreende o seu papel como mantenedor da harmonia do todo, na hierarquia, na justiça social, na preservação da tradição, da honra e do bem estar do seu povo e do seu solo.
No soldado revolucionário, se encontra o ideal altruísta de um guerreiro iniciado em antigos mistérios de morte, num guerreiro que compreende que além da própria vida, há a honra, e o valor do bem estar comum.
Ele compreende que a vida individual, assim como nossos sentidos físicos (que são mortos um a um quando o veneno da serpente da Ayahuasca corre em nossas veias), são apenas percepções passageiras ilusórias, mas a conexão com o todo, a nossa vida coletiva, essas são reais e eternas, essas são imortais.
Chega a ser curioso encontrar isso em movimentos anarquistas, socialistas e fascistas (e até anarcoprimitivistas e ecofascistas, ambos fenômenos modernos, mais próximos do que falo aqui) mundo a fora, e apesar de serem ideologias que partem do materialismo, ainda assim, por seus soldados partirem de uma luta coletiva, quase que automaticamente, encarnam arquétipos de altruísmo guerreiro assim como antigos guerreiros místicos encarnaram.
A luta se transforma, posições mudam, mas o espirito guerreiro místico ainda se encontra entre nós, agora de forma insurgente.
Talvez, assim como é dito que em todos os Yugas haviam ritos complexos para se alcançar a plenitude espiritual e a libertação, e no Kali Yuga (a era de mais materialismo, pecado e degeneração moral) basta se colocar em humildade e cantar Hare Krishna para que fosse liberto; assim em todas as eras a nobreza de espírito, a aristocracia, demandava ritos e títulos complexos, mas hoje, na era de maior egoísmo, individualismo e materialismo, ela demande a coragem de sair da inércia e lutar pelo coletivo, sem pensar no resultado, mas encontrando a santidade apenas no ato de lutar.

‒ Subcomandante Marcos, em sua despedida, teatralizando um rito fúnebre para outro camarada zapatista.
A Tradição da Morte
Eis aí a questão, nem todos são xamãs, guerreiros sagrados ou soldados revolucionários dados a morrer, na verdade a maioria não é, são pessoas boas que amam o bem estar de sua vida e de suas famílias, e nem mesmo estão preparadas para experienciar algo mortificante, e a ayahuasca me demonstrou que nem todos foram feitos para provar esse veneno de forma tão pura, que muitos precisavam encontrar esse veneno de forma parcelada, que muitos precisam entender esse processo através da tradição, da arte, da cultura, etc.
As tradições antigas colocavam o ser humano integrado ao seu entorno, aos animais, a natureza e aos espíritos, gerando assim na psiquê a consciência de que seus atos influenciam o seu entorno, então que você deve buscar em vida, uma existência coletivista, um caminho de retidão moral, combate ao mal e principalmente desapego da matéria, compreendendo que tudo está conectado e em constante transformação e mudança, tudo é transitório e apenas o espírito elevado permanece imutável, sendo a matéria e a vida material em si, apenas uma ferramenta de uso breve, para a revelação da verdade de seu espírito maior.
Aí retornamos ao início desse texto, quando citamos que as artes tradicionais iranianas lembram muito as visagens do mundo dos mortos na ayahuasca, e que o próprio xiismo, assim como a religião nórdica e iorubá, enxergam a vida como um caminho para se construir uma boa morte;
A tradição e a cultura ocidental precisam estar reconectadas ao todo, a tradição precisa ser uma preparação para a morte, assim como é o caso dessas culturas tradicionais supracitadas.
O individualismo precisa ser dissolvido em prol de uma espiritualidade que ensine a todos que estamos conectados, e dentro de nossos limites e capacidades, somos completamente responsáveis pelo nosso entorno, pelo coletivo e pela manutenção da harmonia.
A ayahuasca, assim como alguns ritos iniciáticos e algumas experiências (como é a experiência no campo de batalha) nos levam a compreensão da ilusão da vida individual e material, mas talvez essas experiências xamânicas ou guerreiras sejam muito pesadas para a maioria, e para isso a tradição deve tê-las como seu ápice, a tradição deve ser escrita em cima de um estilo de vida guerreiro e místico, para que, ainda que muitos não vivam em completo desapego da matéria e do indivíduo (pois a maioria não nasceu para viver assim por completo), essa cultura ressoe neles também; a fazê-los compreender que essa vida é apenas um caminho para escrever uma boa morte, e que a morte é a chave para a eternidade, e que se doando ao todo, se garante seu espaço na eternidade.
Mas partindo desse ponto, nos dividimos dos que entendem isso como um recado para o pacifismo e para a inércia.
Passo longe do discurso de “estamos todos conectados, vamos viver em paz”, e me aproximo mais da realização espiritual e moral que Arjuna encontra no discurso de Krishna, no Baghavad Gita, quando no campo de batalha, Arjuna se encontra sem querer lutar, por não desejar massacrar seus inimigos, e Krishna o exorta a lutar, revelando a ele que a morte não é real e o espírito não pode ser morto, sendo os nossos atos em terra, apenas uma ferramenta para a realização a manutenção do dharma, da ordem cósmica.
Por fim, oque a Ayahuasca me revelou nesse último contato que tivemos, foi de que o mundo dos vivos ou o mundo material, é uma forma imperfeita do mundo superior/dos mortos, que é infinitesimal (palavras da própria serpente), e que sendo assim, a tradição precisa ser uma preparação para a morte, incutindo o pensamento tribal/coletivo, combativo e desapegado.
A ordem cósmica se manifesta na tradição através do sobrenatural, da arte, da metafísica e da guerra….
Por fim, deixarei aqui um trecho da Noomaquia, de Alexsandr Dugin, sobre elementos da cultura Iorubá:
De acordo com a tradição iorubá, o homem tem várias camadas de personalidade e sua tarefa é conectar a consciência fenomênica, Orí Ino, com o Eu Superior, Orí Òrun, que reside no Céu Ìkòlé Òrun. Quando uma pessoa encarna na terra, seus dois “eus” ‒ Orí Ino e Orí Òrun ‒ são separados: o primeiro desce à terra, chamada “Praça do mercado”, e o segundo permanece no Céu.Encarnado, o Orí está na cabeça e carrega em si o conhecimento do reino celestial e das existências anteriores. O importante, porém, não é esperar a morte e o retorno, mas procurar, durante a vida, unir os dois “eus”, de modo que haja sempre uma relação direta entre a terra e o céu, que promova a verdade e a harmonia. Esta doutrina nos remete aos ensinamento das Upanishads sobre a não-dualidade de Atman e Brahman ou o pensamento de Plotino de que, no nascimento de uma pessoa, sua alma superior permanece inalterada e contempla a mente superior, enquanto a segunda se separa dela por um tempo, enquanto o filósofo deve procurar unificá-las, começando a contemplar a mente durante a vida. Em outras palavras, não estamos lidando apenas com uma metafísica apolínea solar vertical, mas também com uma antropologia sagrada estritamente análoga. Orí Òrun também pode ser associado à figura de um Sujeito Radical que permanece inalterado, mesmo quando tudo muda.
‒ Alexander Dugin, Noomaquia, Logos Africano, Parte 2: África Ocidental, Capítulo 9.








