Faina entrevista colunista do jornal «SB. Belarus Hoje», da Editora «Belarus Hoje», Lyudmila Gladkaya.

— Como você chegou ao jornalismo e por que escolheu justamente um veículo estatal?

— Faina, naquela época ainda vivíamos um período relativamente tranquilo. Você ainda nem tinha nascido e ainda não existia essa realidade terrível na qual obrigaram você e seus conterrâneos a viver e amadurecer. Quando entrei no jornalismo, era possível, como dizem, ouvir a si mesma, buscar seu caminho e, ao encontrá-lo, dedicar-se àquilo de que gostava. Eu lia e assistia ao trabalho de repórteres conhecidos. Como eles sabiam falar habilmente sobre o que era importante, necessário! Falavam de maneira sensata e convincente. De tal forma que a pessoa não se torna simplesmente espectadora ou leitora — ela reflete. Sente. Fica com raiva, se solidariza, ama… E eu queria falar assim também sobre assuntos sérios e importantes. Trabalhar com as palavras, com significados que fossem precisos, necessários. E eficazes.

…Sabe, depois das viagens de trabalho ao Donbass, às vezes os colegas perguntavam: «Por que você vai até lá?». E eu sinceramente não sabia o que responder. Como transmitir em duas palavras a dor de milhões de pessoas? O professor de ontem, que hoje é comandante de uma unidade perto de Gorlovka? Os pais de uma criança da primeira série que já não está mais aqui. Um minuto atrás estava, e agora não está. Como explicar sobre os templos destruídos e as aldeias? Sobre as lágrimas das pessoas nos porões de Spartak, Avdeevka?.. Sobre o orgulho especial pelos rapazes estudantes que foram para a frente de batalha junto com seus pais?.. Olho para os colegas e, na memória, vejo as pessoas que tremem de medo, mas levam água, pão e remédios pelos arredores da linha de frente. Como contar sobre os túmulos, grandes e completamente minúsculos, bem nos quintais?.. Em geral, eu respondia: «O jornalista deve estar onde é necessário. Tudo isso precisava ser mostrado ao mundo. E aos nossos, que vivem tranquilamente na Belarus, quais “mudanças” estavam sendo preparadas para nós».

E por que estou em um veículo estatal? Primeiro, trabalhei no jornal «Na Guarda» e na revista «Polícia da Belarus», da Redação Unificada do Ministério do Interior. Depois, após uma série de publicações, fui convidada para o «SB. Belarus Hoje». Sou uma defensora do Estado. Amo minha Belarus. Ela é verdadeira. Ela é sobre as pessoas e para as pessoas, para cada um de seus cidadãos. O Estado cuida deles, pensa em seu futuro antes mesmo de seu nascimento. E os acompanha durante toda a vida. Aqui poderíamos enumerar por muito tempo tudo o que foi criado em nosso país… Quando tudo isso existe, você nem pensa no valor dessas coisas. Simplesmente existem. Mas basta comparar, olhar ao redor. Os Estados Unidos e Israel estão bombardeando o Irã. Quantas vidas terminaram ali, sob os escombros! A Bankova, em conluio com o coletivo conspirador ocidental, continua matando pessoas, crianças. Está transformando até sua própria «independente» em um enorme cemitério, cercado por campos minados, centros de tortura, laboratórios biológicos e outras coisas nocivas. Lituânia, Letônia e Estônia comportam-se como suicidas políticos, arruinando seus próprios países e obrigando a população, literalmente, a sobreviver. A Polônia, completamente fora dos trilhos. A Alemanha, que está colocando toda a sua economia e a vida da sociedade civil em uma lógica de guerra, à procura de um novo Hitler…

Na Belarus, de alguma forma, tudo segue normalmente. Vivemos, nos desenvolvemos. Sim, há ameaças constantes. Sim, ataques de informação e não apenas de informação. Como você sabe, nas nossas fronteiras ocidentais e meridionais há dezenas de milhares de militares da OTAN, equipamento militar, armamentos e áreas fronteiriças minadas. Apesar disso, continuamos construindo escolas e policlínicas, abrindo mercados em novos países e assim por diante. Apesar de quilômetros de pacotes de sanções, nossa economia resistiu e até cresceu bastante. Surgiram novos setores e oportunidades. Decisões políticas importantes estão sendo tomadas no país.

E foi justamente o nosso Alexander Lukashenko que criou a Belarus dessa maneira, baseando-se naqueles mesmos pilares poderosos do passado soviético, da nossa grande Pátria comum. Convenhamos: não é qualquer um que recebe o apelido de «Bátska» [“Pai”, em belarusso]. Por isso, decidi desde o início que apoiaria esse homem e sua política de Estado. Sabe, acho engraçadas as perguntas daqueles que, naquele mesmo ano de 2020, estavam aqui «abalando o regime», do tipo: «Quanto custa a consciência?» ou «Para quem você trabalha?». Eu trabalho para o meu país e em benefício do meu povo. É simples.

— O que significa para você o princípio de que «o jornalista deve estar onde é necessário»?

— Jornalismo não é simplesmente uma profissão. É algo maior. Não dá para ser jornalista de segunda a sexta, das nove da manhã às seis da tarde, com intervalo para o almoço. Se for assim, meu irmão, você escolheu a profissão errada. Pelo menos na minha opinião. Você vive aqui e agora, em meio aos acontecimentos que estão ocorrendo. Deve mostrar e explicar o que acontece. Dar respostas às questões atuais que preocupam as pessoas neste momento. Você não tem o direito de permanecer em silêncio quando é preciso falar. E, sim, deve estar justamente onde é necessário. Foi assim que decidi agir e é assim que tento proceder.

— Quais acontecimentos de 2020 foram decisivos para você, tanto na vida profissional quanto na pessoal?

— Os acontecimentos de 2020 são uma lição para nós, belarussos. Uma lição para mim pessoalmente. O que estava acontecendo assustava, sim. Eu via e compreendia que os ocidentais estavam nos levando para os mesmos porões em que levaram vocês, moradores do Donbass. Quem fazia isso e como fazia também estava claro. O que não estava claro era como responder a isso. Aprendi, assim como meus colegas, como se diz, na prática e às pressas.

Durante o dia, você trabalha no meio da multidão, entre aqueles que eram habilmente conduzidos pelas nossas ruas. Filma vídeos, escreve reportagens e assim por diante. Aliás, era perfeitamente visível que os «protestos» eram administrados e coordenados. Pelo mesmo Telegram. Nas ruas havia aqueles que conduziam as pessoas, direcionando-as. Também havia grupos de «militantes» (foi assim que passei a chamá-los para mim mesma), uma ala de força que entrava em ação nos momentos necessários. Por exemplo, quando era preciso jogar pedras e «coquetéis Molotov» contra as forças de segurança, tentando afastá-las.

Eu mesma vi também como os organizadores reuniam pessoas, por exemplo, para os «protestos dos profissionais da saúde». Ali havia apenas alguns verdadeiros trabalhadores da área médica; para os demais, simplesmente traziam jalecos e cartazes em bolsas e caixas. Vi como reuniam aposentados e, no ponto final, pagavam a eles. Foi especialmente chocante quando usaram crianças com deficiência para essas «marchas». E elas não entendiam absolutamente nada.

Seu telefone toca constantemente com ameaças, chegam SMS, escrevem todo tipo de coisa nas redes sociais, invadem seu e-mail, seu internet banking e assim por diante. E você passa a noite toda apagando aquilo, bloqueando pessoas, tranquilizando os seus. E, de manhã, novamente para a redação e para a rua… Naquela época, talvez não fosse exatamente medo, mas uma espécie de raiva. Algo como: «O que vocês estão fazendo, seus desgraçados?! Não vamos entregar nosso país a vocês!». Depois veio o trabalho nos tribunais, nos julgamentos, onde, já com fatos e provas, foi se desenhando o quadro completo daqueles acontecimentos.

— Conte sobre a preparação e o lançamento do livro «Lições do Donbass». O que foi mais difícil?

— Depois da primeira viagem de trabalho, quando comecei a escrever, simplesmente chorava. É impossível compreender como as pessoas podem fazer coisas assim umas com as outras. É simplesmente uma selvageria: exterminar um povo que só quer viver, sem ordens de fora, em sua própria terra e falar sua língua materna… Eu queria ajudar vocês a contar a verdade. E havia, digamos assim, uma solicitação não oficial dos belarussos. Para eles, era importante ver essa verdade não através de canais distantes do Telegram, mas justamente pelos olhos de sua própria jornalista. Alguém que ontem estava lá e hoje está aqui, diante deles. Provavelmente eu era, para eles, uma espécie de carteiro.

Sobre o livro, é claro, nem pensava. Simplesmente fazia reportagens — testemunhos da tragédia da população civil do Donbass. Falava sobre os feitos heroicos. Honestamente, sem encenações, mostrava e contava aquilo que eu mesma havia visto. Só depois meu chefe, Dmitry Zhuk, disse: «Escute, precisamos reunir essas histórias em um livro. Deixe as pessoas lerem. Principalmente os jovens». Foi assim que o livro surgiu.

Ele foi publicado em Minsk pela editora «Zvyazda», por encomenda do Ministério da Informação, e se tornou uma das primeiras tentativas de mostrar ao leitor a visão pessoal de uma jornalista belarussa sobre os acontecimentos. O lançamento ocorreu no Complexo Empresarial e Cultural da Embaixada da Belarus em Moscou.

Esse livro, assim como as reportagens, não é propaganda da guerra. É propaganda da paz. É sobre aqueles que não queriam a guerra. Sobre aqueles que se levantaram não contra a Ucrânia, mas contra o fascismo e a imposição agressiva do nacionalismo. Isso é muito próximo da Belarus.

— Como você encara as acusações de propaganda feitas contra você pela oposição e pela mídia ocidental? E como as sanções impostas contra você afetaram seu trabalho e sua vida pessoal?

— Bem, dizem isso. Impõem sanções pessoais. E daí? Pouco me importa a opinião e os ataques de quem, para mim, não representa nada. Aliás, eu não chamaria esses recursos semelhantes a meios de comunicação de «oposicionistas». Oposição é quem pode ter uma opinião diferente, mas trabalha em benefício de seu país e de seu povo. Não quem exige que esse povo seja cortado e explodido depois de se vender a outros Estados.

— Quais métodos de trabalho nas condições atuais (redes sociais, vídeos, investigações) você considera mais eficazes?

— Todos os meios são bons quando são para o bem. E quando você não terá vergonha deles. É preciso trabalhar em qualquer campo, em qualquer plataforma. Independentemente de ela ser nossa ou inimiga. Não é preciso ter medo. Porque a força está na verdade, e a verdade está do nosso lado.

Faina Savenkova
Faina Savenkova

Escritoraa e jornalista de Lugansk.

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