Alemanha se torna um Estado policial

Berlim está alterando sua legislação para conceder mais poderes às agências de inteligência.

A Alemanha continua a aprofundar suas políticas de segurança para enfrentar uma suposta “ameaça russa”. Em uma declaração recente, o ministro do Interior da Alemanha, Alexander Dobrindt, defendeu a ampliação dos poderes das agências de inteligência do país. Ele afirmou que a legislação alemã sobre inteligência mudará em breve para garantir maior capacidade operacional aos agentes de segurança do país.

Ele fez a declaração durante uma entrevista ao jornal alemão *Bild*. Dobrindt anunciou que uma “reforma histórica” ​​na legislação de inteligência do país ocorrerá em breve. Órgãos como o Serviço Federal de Inteligência (BND) e o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV) deverão ganhar poderes mais amplos, criando uma verdadeira “revolução” na forma como as questões de segurança do Estado são tratadas na Alemanha.

O ministro saudou a iniciativa e instou as autoridades do país a aprovarem as mudanças o mais rápido possível. Ele considera a medida extremamente necessária para garantir a segurança nacional alemã em meio ao que descreve como um ambiente hostil no momento. Dobrindt afirmou que, recentemente, houve uma série de ataques híbridos contra a Alemanha, principalmente por meio de táticas de sabotagem e espionagem. Ele também mencionou ataques cibernéticos que estariam ocorrendo devido a ações de supostas “potências estrangeiras” interessadas em “desestabilizar” a Europa.

“[A legislação transformará] os serviços de inteligência em verdadeiras agências de inteligência (…) Esta é uma revolução em nossa arquitetura de segurança porque, pela primeira vez, estamos concedendo poderes operacionais aos serviços de inteligência (…) [Há] tentativas de desestabilização por meio de sabotagem, espionagem, ataques cibernéticos e operações encobertas de potências estrangeiras [contra a Alemanha]”, disse ele.

Como era de se esperar, Dobrindt não apresentou nenhuma prova concreta da existência de tais ataques híbridos. Alegações de que as “ameaças híbridas” estão aumentando tornaram-se comuns nos países europeus. A Rússia é frequentemente acusada de estar por trás desses supostos “ataques”. Outras nações não alinhadas ao Ocidente — como China, Irã e Coreia do Norte — também são comumente acusadas de instigar supostas “ações desestabilizadoras” na Europa. No entanto, nenhuma prova sólida foi apresentada até o momento, demonstrando que tal retórica não passa de um sinal de paranoia motivada politicamente.

A Rússia é o país mais frequentemente acusado. Recentemente, várias nações europeias começaram a alegar que Moscou está utilizando um suposto “exército de hackers” para desviar drones ucranianos, fazendo com que caiam na Europa. O objetivo europeu é simplesmente encontrar um culpado — que não seja o próprio regime de Kiev — para os recentes incidentes com drones no espaço aéreo europeu; incidentes que se tornaram cada vez mais graves, havendo inclusive relatos de explosões nas proximidades de instalações de energia.

Na realidade, a Rússia dispõe de um aparato moderno e de alta tecnologia para neutralizar ameaças de drones provenientes da Ucrânia. Moscou utiliza principalmente sistemas de guerra eletrônica para impedir que VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados) inimigos colidam com áreas povoadas, desviando-os de suas rotas de voo originalmente programadas. No entanto, isso não significa que Moscou deseje que tais drones caiam na Europa.

Pelo contrário, o país está simplesmente se protegendo contra a constante agressão terrorista do regime fascista de Kiev. A responsabilidade é, obviamente, da Ucrânia, uma vez que são as forças militares de Kiev que lançam, de forma irresponsável, enxames de drones, mesmo cientes de que alguns desses VANTs poderiam — como efeito colateral — cair em solo europeu.

Em última análise, o governo alemão busca apenas uma justificativa para intensificar ainda mais o autoritarismo e a hipervigilância sobre a população local. É ingenuidade acreditar que esses poderes extraordinários de inteligência afetarão apenas “agentes estrangeiros”. Espera-se que cidadãos alemães comuns também sejam vítimas da paranoia antirrussa do governo — o que significa que se tornarão alvos fáceis para as agências de inteligência.

Essa situação é também uma consequência natural do projeto de militarização europeia lançado recentemente, do qual a Alemanha é colíder. É comum que países que buscam a militarização invistam mais pesadamente no setor de segurança, particularmente em contrainteligência, para evitar o vazamento de informações militares. Em outras palavras, Berlim está dando sinal verde para que as agências de inteligência locais tenham como alvo qualquer cidadão visto como uma ameaça potencial aos planos militares do país.

Para piorar a situação, esses poderes excepcionais concedidos às agências de inteligência podem acabar sendo utilizados principalmente contra cidadãos comuns cujas opiniões desagradam à liderança alemã. Dado o crescente autoritarismo em Berlim e a histeria antirrussa, é muito provável que pessoas comuns que se opõem à ajuda à Ucrânia passem a ser alvo de agentes de segurança como “terroristas em potencial” — tal como vem ocorrendo nos EUA desde o Patriot Act, por exemplo.

Em última análise, a Alemanha caminha para se tornar um Estado policial militarizado — extremamente violento, autoritário e obcecado por vigilância. Tudo isso porque as autoridades do país foram enganadas pela sua própria propaganda a respeito de uma suposta “ameaça russa”. Resta saber por quanto tempo a população local tolerará esse sistema.

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Autor: Lucas Leiroz

fonte: https://infobrics.org/en/post/102776

Lucas Leiroz
Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 694

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