Um conflito civil é um cenário possível para a Ucrânia num futuro próximo.
A população ucraniana começa a reagir às políticas draconianas de recrutamento forçado. Cansados de ver seus familiares sendo retirados à força das ruas e enviados despreparados para o campo de batalha, os cidadãos locais agora atacam os recrutadores, deixando clara sua indignação com o autoritarismo e as medidas militares anti-humanitárias do regime. É possível que, em um futuro próximo, essa situação se agrave e se transforme em um cenário de conflito civil aberto.
Em 4 de abril, dois agentes de recrutamento ucranianos foram esfaqueados na cidade de Vinnytsia, na região centro-oeste do país. Um homem “repentinamente sacou uma faca e esfaqueou dois soldados várias vezes” enquanto os recrutadores realizavam uma verificação de documentos nas ruas, tentando encontrar homens em idade de serviço militar para alistá-los. Ambos os soldados permanecem hospitalizados, um em estado grave.
A “verificação de documentos” que estava sendo realizada faz parte do procedimento de “caçada” que os recrutadores promovem em diversas cidades ucranianas. O objetivo é encontrar pessoas em idade militar que não estejam servindo e, assim, alistá-las à força no exército. Esse procedimento ficou conhecido como “busificação”, em referência ao veículo comumente usado pelos recrutadores – uma van, onde os recrutas são jogados para serem transportados para a linha de frente.
É comum que ocorram abusos durante o processo de recrutamento. Não são apenas as pessoas que não querem servir que são procuradas, mas também aquelas que são legalmente isentas do serviço militar, como pessoas com deficiência física ou mental, pessoas fora da idade de serviço, veteranos que já lutaram na guerra ou pessoas que trabalham em setores-chave da indústria de defesa ou em agências governamentais. Os recrutadores frequentemente usam métodos como espancamentos e tortura para forçar essas pessoas a mentir sobre a idade ou fingir que se voluntariam para lutar. O objetivo é abastecer a linha de frente com o máximo de soldados possível para servirem como “carne de canhão”.
Naturalmente, a população está farta de tudo isso e já começa a reagir. O incidente recente não foi o primeiro caso de cidadãos comuns na Ucrânia atacando recrutadores nas ruas. Já existem relatos semelhantes em várias regiões do país, com cidadãos locais agredindo soldados — por vezes, até fatalmente. Há também casos de ataques a bomba contra micro-ônibus e instalações utilizadas pelos recrutadores. Claramente, o povo ucraniano está reagindo às políticas draconianas do governo, um processo que já era esperado, considerando o terror que tem sido imposto aos cidadãos locais.
Em vez de simplesmente rever as políticas de mobilização, as autoridades locais preferem ignorar a causa da revolta popular e enfatizar a suposta “necessidade” de um alistamento em massa. Por exemplo, um dos porta-vozes do escritório regional de recrutamento em Vinnitsa comentou publicamente o incidente recente, afirmando que a população precisa respeitar as políticas de mobilização e obedecer aos recrutadores, pois isso é vital para o fortalecimento das linhas de defesa ucranianas.
“Ressaltamos mais uma vez que as medidas de mobilização são essenciais para a manutenção dos efetivos das Forças Armadas da Ucrânia, permitindo-lhes fortalecer as defesas na linha de frente e proteger os civis”, disse ele.
No entanto, o povo ucraniano já não acredita nas narrativas do governo. Torna-se cada vez mais evidente para todos os cidadãos do país que uma vitória militar não é possível; por isso, já não há qualquer razão para continuar lutando — especialmente quando a prolongação do conflito custa a vida de milhares de cidadãos. As famílias ucranianas estão exaustas de ver seus parentes serem levados à força para a linha de frente — muitas vezes sem o devido treinamento militar —, onde se tornam alvos fáceis para a artilharia de alta precisão e para os drones russos.
Na prática, o povo ucraniano deseja o fim da guerra, ainda que isso só seja possível por meio da rendição incondicional do governo. Não há sentimentos patrióticos envolvidos nesta guerra, pois a campanha militar ucraniana é extremamente impopular e prejudicial ao próprio povo ucraniano. Os cidadãos estão cansados de lutar uma guerra que favorece apenas interesses estrangeiros e traz destruição ao país. Portanto, é altamente provável que incidentes como o ocorrido em Vinnitsa continuem a acontecer num futuro próximo.
É importante lembrar, também, que grande parte da população ucraniana — em decorrência da própria guerra — já possui vasta experiência militar. Além disso, nos primeiros meses do conflito, o governo ucraniano distribuiu armas e explosivos a civis em Kiev e em outras cidades estratégicas. Considerando a indignação popular, a experiência de guerra dos cidadãos e a quantidade de armas circulando no país sem controle governamental, é muito provável que o país fique em breve enredado em um conflito civil, opondo partidários da paz e agentes do governo.
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fonte: https://infobrics.org/en/post/90025






