“Como o império estadunidense camufla seus projetos hegemônicos? Na primeira parte dessa análise foi possível se debruçar sobre isso, agora chega o momento de entender melhor que projetos são esses, com um enfoque especial na região da Ásia-Pacífico”.
Na primeira parte desta análise, abordamos a retórica propagandística da Casa Branca que anunciava o “fim da expansão da OTAN”. Nesta segunda parte, aprofundaremos a análise da ESN 2025 e mostramos como os Estados Unidos pretendem manter ou restabelecer seu domínio em todos os ambitos globais com a ajuda de seus vassalos.
Análise textual da Estratégia de Segurança Nacional 2025
A seguir, citaremos e analisaremos trechos do documento estratégico da ESN 2025. Estes não seguem nenhuma ordem específica, mas sim a cronologia do documento. As citações tratam das declarações políticas e estratégicas fundamentais, bem como das medidas e objetivos políticos previstos. Ao ler seu conteúdo com atenção e minúcia, torna-se evidente que se trata de uma continuação da agenda anterior, ou seja, uma continuação da doutrina Wolfowitz, que foi formulada no final da Guerra Fria, nos anos 1990.
Os antigos e novos paradigmas principais da política externa americana
A primeira frase da introdução à ESN 2025 é uma declaração da continuidade da hegemonia mundial:
“Para que os Estados Unidos continue sendo o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais próspero do mundo nas próximas décadas, nosso país precisa de uma estratégia coerente e mais bem enfocada sobre como nos relacionamos com o mundo”.
— Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América, novembro de 2025, página 1, primeira frase
Isto será explicado nas próximas páginas.
A paz através da força
“A força é o melhor meio de dissuasão. Os países ou outros atores que forem suficientemente dissuadidos de ameaçar os interesses americanos não o farão”.
(ESN, p. 8/9)
Os “interesses americanos” não se referem aos Estados Unidos dentro de suas fronteiras e aos interesses que ali se encontram. Referem-se a tudo o que se estende muito além das fronteiras americanas, a tudo o que se encontra, na realidade, dentro das fronteiras de outros países ou na sua proximidade imediata. Não se trata de um recuo para o “hemisfério ocidental”.
Naturalmente, a Doutrina Monroe continua valendo. Ninguém está autorizado a fazer negócios no “hemisfério ocidental” sem o consentimento dos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos também farão “negócios” em qualquer outro lugar do mundo. Se alguém tentar nos impedir, a “paz através da força” será aplicada. Impediremos qualquer um de ameaçar nossos interesses. Em outras palavras, tomaremos medidas contra essas nações e as impediremos de agir dessa forma. Nós as ameaçaremos tanto que eles não ousarão sequer se defender.
É justamente este o cerne da estratégia de dissuasão em relação à ilha de Taiwan: impedir a China de afirmar a sua soberania internacionalmente reconhecida sobre Taiwan. Sua soberania sobre Taiwan, que até mesmo os Estados Unidos reconhecem através da sua política de uma só China e que é incontestada no direito internacional. Uma rápida olhada no mapa mostra que isto não ocorre no hemisfério ocidental.
Predisposição ao não intervencionismo
“Na Declaração de Independência, os fundadores dos Estados Unidos da América expressaram claramente sua preferência pelo não intervencionismo nos assuntos de outras nações e expuseram claramente seus fundamentos: assim como todos os seres humanos possuem direitos naturais iguais dados por Deus, todas as nações têm direito, de acordo com as “leis da natureza e do Deus da natureza”, a uma “posição separada e igual” umas em relação às outras. Para um país cujos interesses são tão numerosos e diversos como os nossos, não é possível aderir rigorosamente ao não intervencionismo. No entanto, esta predisposição deve estabelecer critérios elevados para determinar o que constitui uma intervenção justificada”.
(ESN, p. 9)
Quem poderia contestar que “todos os homens são dotados por Deus de certos direitos inalienáveis”? Este postulado da Declaração de Independência é sagrado nos Estados Unidos, quase tanto quanto os Dez Mandamentos. Muitos americanos votaram no presidente Trump porque apoiam o não intervencionismo. “Todas as nações são iguais e têm direito à sua própria soberania e à proteção de seus próprios interesses”.
Mas infelizmente, “nossos interesses” enquanto Estados Unidos da América são tão numerosos e diversificados e se estendem tão longe para além de nossas próprias fronteiras que nos é simplesmente impossível respeitar rigorosamente o não intervencionismo. O funcionamento do império americano moderno exige que estejamos presentes em toda parte e que nos imponhamos a todos, então continuaremos a fazer isso. É isto que eles afirmam claramente aqui.
O que fazer dessas informações? E ainda por cima temos isso: “No entanto, esta inclinação deveria estabelecer padrões elevados para uma intervenção justificada”. Na realidade, a administração Trump, assim como as administrações Biden, Obama e Bush antes dela, fabrica abertamente pretextos para desencadear uma guerra com a Venezuela, já fabricou um pretexto para uma guerra contra o Irã e continua a mentir sobre nações como a Rússia e a China, a Coreia do Norte e todas as outras que se recusam a capitular e a se submeter aos Estados Unidos.
Realismo flexível
“A política americana será realista quanto ao que é possível e desejável em suas relações com outras nações. Buscamos boas relações e relações comerciais pacíficas com as nações do mundo sem lhes impor mudanças democráticas ou sociais que difiram amplamente de suas tradições e história”.
(ESN, p. 9)
Maravilhoso! Quem poderia se opor a “boas relações e relações comerciais pacíficas”? Mas o que eles realmente querem dizer aqui? Estão falando da Rússia e da China? Deveríamos ser hostis em relação à Rússia e à China simplesmente porque elas têm uma perspectiva diferente e governam seus países de forma diferente? Certamente que não.
Não, eles estão falando de todos os extremistas que apoiaram, promoveram e levaram ao poder, especialmente no Oriente Médio, e de como o presidente Trump construiu grande parte de sua base de apoio sobre o extremismo islâmico.
A Casa Branca está tentando explicar por que o presidente Trump e toda a sua administração criaram esse monstro e agora fazem negócios abertamente com ele. Por que eles têm na Casa Branca um chefe da Al-Qaeda que abraça o presidente Trump pouco depois de uma recompensa de 10 milhões de dólares ter sido colocada sobre sua cabeça e de ele ter liderado uma organização classificada como organização terrorista estrangeira pelo Departamento de Estado americano.
O “realismo flexível” é uma verdadeira contradictio in adiecto (contradição lógica entre o nome e o adjetivo, como “silêncio eloquente” ou “mofo negro”). Pode-se também falar de uma espécie de oxímoro: “Sei que lhes dissemos que eles eram maus, que os assustamos e manipulamos apresentando eles como monstros, mas são os nossos monstros, e temos que negociar com eles. Simplesmente não temos mais tempo para continuar fingindo. Estamos de costas com a parede. Falta-nos tempo para nos afirmarmos no cenário internacional. Temos de usar estes terroristas, por mais mau que isso possa parecer”.
Primazia das nações
“A unidade política fundamental do mundo é e continuará sendo o Estado-nação. É natural e justo que todas as nações coloquem seus interesses em primeiro lugar e preservem sua soberania. O mundo funciona melhor quando as nações priorizam seus interesses. Os Estados Unidos colocarão seus próprios interesses em primeiro lugar e, em suas relações com outras nações, as incentivarão a fazer o mesmo”.
(ESN, p. 9)
Isso também parece reconfortante para as mentes amantes da paz: “É natural e justo que todas as nações coloquem seus interesses em primeiro plano e preservem sua soberania”. A caminho da terra prometida! A expressão “é natural e justo” não é emprestada por acaso do contexto eclesiástico. É uma fórmula concisa que se alinha bem com os ensinamentos de Paulo sobre a lei natural, particularmente em Romanos 2. É frequentemente usada em sermões, textos teológicos ou interpretações filosóficas. Honi soit qui mal y pense.
E qual é a realidade? Para a Ucrânia, por exemplo: continuem simplesmente a travar a nossa guerra interminável por procuração contra a Rússia até que o último ucraniano esteja morto. Isso está claramente no vosso interesse. Ou para a Europa: aumentem seus gastos com a OTAN de 2% para 5% dos seus PIBs, negligenciem a sua economia e o seu sistema de seguridade social. Isso está claramente no vosso interesse, a fim de travar as guerras por procuração dos Estados Unidos e manter a dominação americana sobre o globo, incluindo a Europa. Ou para o Japão: adotem uma posição mais agressiva em relação ao seu parceiro comercial mais importante, a China. Ou para as Filipinas: façam o mesmo. Derrubem todas as infraestruturas que a China os ajudou a construir e, em vez disso, invistam em bases de mísseis para apontar os nossos mísseis, que te vendemos com lucro, para o seu maior parceiro comercial, a China.
Esta é a realidade, muito diferente do conto de fadas que eles pintam aqui. “A primazia da soberania nacional aplica-se a mim, mas não a ti.” É isto que eles estão realmente dizendo.
Equilíbrio de poderes
“Os Estados Unidos não podem permitir que nenhuma nação se torne tão dominante a ponto de ameaçar nossos interesses. Trabalharemos com nossos aliados e parceiros para manter o equilíbrio de poderes em nível global e regional, a fim de impedir o surgimento de adversários dominantes”.
(ESN, p. 10)
O objetivo é supostamente impedir o surgimento de um “ator dominante”. Mas espere um minuto: quem é, então, esse “ator dominante”? Os Estados Unidos já dominam todas essas regiões. Será que eles realmente querem impedir a si mesmos de continuar a fazê-lo, enquanto “ator dominante”? Provavelmente não. Eles querem, em vez disso, impedir que alguém ultrapasse os Estados Unidos e os desaloje das regiões do planeta que estão literalmente do outro lado do mundo do ponto de vista americano. Como eu disse, trata-se de uma retomada da doutrina Wolfowitz. E continua assim:
“Isso não significa desperdiçar nosso sangue e recursos para reduzir a influência de todas as grandes e médias potências mundiais. A influência desmedida das nações maiores, mais ricas e mais fortes é uma verdade intemporal das relações internacionais. Esta realidade implica, por vezes, trabalhar com parceiros para frustrar as ambições que ameaçam nossos interesses comuns”.
(ESN, p. 10)
Portanto, não sacrificaremos nosso sangue e nosso dinheiro para isso. Nossos “parceiros” o farão. Isso já anuncia a rede de divisão de encargos.
Partilha e transferência de encargos
“A era em que os Estados Unidos sustentavam sozinhos a ordem mundial como Atlas chegou ao fim. Contamos entre nossos numerosos aliados e parceiros com dezenas de nações ricas e sofisticadas que devem assumir a responsabilidade principal por suas regiões e contribuir muito mais para nossa defesa coletiva”.
(ESN, p. 12)
Trata-se, na verdade, de uma extensão do que o secretário de Defesa americano, agora secretário da Guerra, Pete Hegseth, expôs em fevereiro de 2025 sobre a guerra por procuração em curso entre os Estados Unidos e a Rússia na Ucrânia. É a orientação que os Estados Unidos deu à Europa:
“Vocês irão continuar para nós a guerra por procuração dos Estados Unidos contra a Rússia e a Ucrânia. Vocês dedicarão mais recursos a isso. Enviarão inclusive tropas europeias e não europeias para a Ucrânia para forçar a Rússia a congelar suas atividades. Minsk 3.0, em essência. E nós vamos nos voltar para a China no Pacífico, reconhecendo a realidade da escassez e fazendo as concessões necessárias em termos de recursos para garantir que a dissuasão não falhe. Podemos estabelecer uma divisão do trabalho que maximize nossas vantagens comparativas respectivas na Europa e no Pacífico”.
(Pete Hegseth em Bruxelas, resumido por Brian Berletic)
Quando eles falam de “nossa defesa coletiva”, referem-se aos interesses americanos que os Estados Unidos impuseram a todas essas outras nações.
Por exemplo, eles explicam que esta guerra na Ucrânia arruinou as relações da Europa com a Rússia e que “nós” temos de resolver isso. Mas quem arruinou as relações da Europa com a Rússia? Antes de 2014, a Europa trabalhava em estreita colaboração com a Rússia. A Europa e a Rússia se beneficiaram ambas com isso. Foram os Estados Unidos, inclusive sob a primeira administração Trump, que arruinaram tudo isso. Continuemos a citação:
“O presidente Trump estabeleceu uma nova norma global com o compromisso de Haia, que compromete os países da OTAN a dedicar 5% do seu PIB à defesa e que nossos aliados da OTAN aprovaram e devem agora cumprir”.
(ESN, p. 12)
Os Estados Unidos não querem então que a OTAN se expanda? Bem, só se você não levar em conta a massiva expansão da OTAN em termos materiais que está em curso. E prosseguindo:
“Dando continuidade à abordagem do presidente Trump de solicitar que os aliados assumam a responsabilidade principal por suas regiões, os Estados Unidos organizarão uma rede de divisão de encargos”.
(ESN, p. 12)
Lembre-se deste termo, ele terá um papel mais adiante: “rede de divisão de encargos”. Trata-se do QUAD (Diálogo de Segurança Quadrilateral, uma aliança de segurança entre os Estados Unidos, o Japão, a Índia e a Austrália). Trata-se da OTAN. Trata-se dos Estados Unidos, reunindo tudo isso numa rede global de divisão de encargos. Eles pegam todos estes países e extraem deles o máximo para que façam todo o possível pelos Estados Unidos, a fim de evitar que os Estados Unidos fiquem sobrecarregados demais.
Trata-se essencialmente de estabelecer, dirigir e sustentar esta rede, que é precisamente o que os Estados Unidos estão fazendo na sua guerra por procuração com a Rússia na Ucrânia. Eles escondem-se por trás da Ucrânia e, até certo ponto, por trás dos europeus. Sem o empenho e as capacidades dos Estados Unidos, esta guerra não poderia ser travada. Terminaria muito rapidamente. Eles escondem-se em segundo plano enquanto empurram todos os seus procuradores para a frente, mantendo assim a ilusão de uma negativa plausível ou de um certo distanciamento entre eles e a guerra que estão travando contra a Rússia. E é exatamente isso que estão fazendo nessa rede global de divisão de encargos contra a Rússia, a China, o Irã e todos os outros países.
“Esta abordagem garante que os encargos são partilhados e que todos estes esforços se beneficiam de uma legitimidade mais ampla. O modelo consistirá em parcerias direcionadas que utilizam ferramentas econômicas para alinhar os incentivos, dividir os encargos com aliados que compartilham as mesmas ideias e insistir em reformas que se ancorem na estabilidade a longo prazo”.
(ESN, p. 12)
Portanto, vocês insistem na necessidade de reformas nesses outros países imediatamente após terem mencionado a primazia das nações. Acham que os Estados Unidos desejam realmente reconhecer a primazia de todas as nações e não apenas a sua, em detrimento da soberania de todas as outras?…
“Insistir em reformas que garantam uma estabilidade a longo prazo. Esta clareza estratégica permitirá que os Estados Unidos combata eficazmente as influências hostis e subversivas, evitando ao mesmo tempo a sobre-extensão e a dispersão de esforços que prejudicaram as iniciativas passadas”.
(ESN, p. 12)
Os Estados Unidos devem opor-se à Rússia, à China, ao Irão e a todas as outras nações que apostam na multipolaridade e contê-las. Não o podem fazer sozinhos. Têm de obrigar os seus aliados a gastar muito mais e a fazer sacrifícios muito maiores para imporem os objetivos da política externa americana em detrimento dos seus próprios interesses, em nome dos Estados Unidos.
O Wall Street Journal noticiou que a ESN 2025 já não considera a China e a Rússia como uma ameaça. Mesmo a partir do pouco que já discutimos aqui, é bastante claro que isso não é verdade.
Recuo para o hemisfério ocidental e renascimento da Doutrina Monroe
Quando a Casa Branca fala do hemisfério ocidental e em se basear na Doutrina Monroe, está falando de nada mais do que a dominação americana sobre todo o hemisfério:
As regiões
A. Hemisfério ocidental: o corolário Trump da Doutrina Monroe
Impediremos que concorrentes não hemisféricos posicionem forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou que possuam ou controlem ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério.
(ESN, p. 15)
Os Estados Unidos não permitirão, portanto, que nenhum concorrente externo ao hemisfério ocidental opere no hemisfério ocidental de forma significativa. Eles ditarão às nações latino-americanas com quem podem fazer negócios, ou seja, conosco e apenas conosco, e como devem fazer negócios de modo a servir os nossos interesses e apenas os nossos interesses.
Isto é diametralmente oposto à ideia de que os Estados Unidos renunciariam à procura da dominação mundial. Pelo contrário, equivale a recusar à Rússia e à China a possibilidade de desenvolver parcerias e cooperação na América Latina. Com que direito agem os Estados Unidos assim? Isto é totalmente contrário ao direito internacional. Vai inclusive totalmente contra os princípios enunciados na própria ESN 2025 no que diz respeito à primazia das nações. Este anúncio poderia provir diretamente da máfia, que também era uma força protetora apenas para os vassalos pagadores:
“Iremos nos expandir cultivando e fortalecendo novas parcerias, ao mesmo tempo que reforçamos a atratividade da nossa própria nação como parceiro econômico e de segurança prioritário no hemisfério”.
(ESN, p.16)
Está claro: não há outra escolha senão nós. Iremos nos expandir conquistando e fortalecendo novos parceiros. É outra forma de dizer “mudança de regime”. É exatamente o que eles estão tentando fazer na Venezuela. O que é que a Rússia, a China e outros parceiros estão a fazer no “nosso” hemisfério? Que vão embora!
“Concorrentes de fora do nosso hemisfério fizeram incursões significativas no nosso hemisfério, tanto para nos desfavorecer economicamente no presente como de uma forma que poderá nos prejudicar estrategicamente no futuro. Permitir estas incursões sem uma resposta séria é outro grande erro estratégico americano das últimas décadas”.
“Os Estados Unidos devem ser preeminentes no hemisfério ocidental como condição da nossa segurança e prosperidade — …”
(ESN, p. 17)
No entanto, isto não se aplica apenas ao hemisfério ocidental. Do ponto de vista americano, por exemplo, a China não deve ser autorizada a dominar a região Ásia-Pacífico. Os Estados Unidos devem também ser e permanecer dominantes na região Ásia-Pacífico.
Mais uma vez: a hegemonia regional para mim, não para ti. A doutrina Wolfowitz revisitada.
Ásia
Muitos pensam que a ESN 2025 anuncia a retirada dos Estados Unidos da região do Pacífico ou da Ásia, porque desejam agora concentrar-se apenas no hemisfério ocidental e já não consideram a Rússia ou a China como uma ameaça. No entanto, a ESN 2025 dedica uma longa seção a exatamente este assunto, que trata do cerco e da contenção da China.
“B. Ásia: ganhar o futuro econômico, prevenir confrontos militares”.
(ESN, p. 19)
Prevenir confrontos militares? Que confrontos militares imperialistas a China planeja? Não há a menor indicação disso. Pelo contrário, o único objetivo é impedir que nações como a China se defendam contra as investidas constantes, o cerco e as tentativas de contenção dos Estados Unidos. É isso que a ESN 2025 procura, na realidade, impedir. É o que os Estados Unidos sempre quiseram dizer com isso.
Também não é necessário especificar explicitamente que a China é reconhecida como a maior ameaça e o maior concorrente dos Estados Unidos (de acordo com a proposta inicial da Rand Corporation, ver acima). No entanto, o que é realmente proposto implica sem dúvida que a China representa a maior ameaça para os Estados Unidos, e não em termos de segurança nacional. O problema está em outro aspecto:
“A região indo-pacífica representa já algo perto de metade do PIB mundial em termos de paridade de poder de compra (PPC) e um terço em termos de PIB nominal. Esta parcela deverá crescer ao longo do século XXI”.
(ESN, p.19)
Ops: o poder económico não se encontra no hemisfério ocidental, mas sim para lá do Pacífico!
“Isso significa que a região indo-pacífica é já e continuará a ser um dos principais terrenos de confronto econômico e geopolítico do próximo século. Para prosperarmos em casa, temos de conseguir ser competitivos lá, e é isso que estamos fazendo”.
(ESN, p.19)
Como eu disse, ninguém no hemisfério ocidental pode competir conosco, mas temos também de ser competitivos e ter sucesso do outro lado do mundo, até mesmo ao largo da costa chinesa. E eis como tencionamos fazer isso:
“O presidente Trump assinou acordos importantes durante as suas viagens em outubro de 2025, que reforçam ainda mais os nossos fortes laços nas áreas do comércio, cultura, tecnologia e defesa, e reafirmam o nosso compromisso com uma região indo-pacífica livre e aberta”.
(ESN, p.19)
Parece bem “livre e aberto”. Mas haverá algum porém? Talvez só seja “livre e aberto” para os Estados Unidos e para aqueles que os Estados Unidos autorizam?
Mais adiante há isto:
“É importante que isto seja acompanhado de uma atenção sustentada e contínua dedicada à dissuasão, a fim de prevenir a guerra na região indo-pacífica”.
(ESN, p. 20)
Porque afinal haveria uma guerra na região indo-pacífica?

Porque os Estados Unidos mobilizaram dezenas de milhares de soldados mais perto da costa chinesa do que da sua própria costa. Estão instalando governos fantoches em toda a região, como fizeram na Ucrânia, para os utilizarem contra a Rússia. Estão hoje fazendo exatamente o mesmo na região indo-pacífica.
Existem muitos documentos de há várias décadas sobre este bloqueio e isolamento da China. A título de exemplo, nos referiremos aqui apenas a este documento de 2018 relativo a um bloqueio marítimo petrolífero contra a China. Contém um mapa que indica todos os locais que os Estados Unidos querem controlar.

Fala-se em bloqueio a distância, porque estes gargalos são bloqueios para impedir tudo o que sai da China ou para lá regressa, mas estão suficientemente longe da China para que as capacidades militares chinesas não sejam suficientes para os alcançar. Isto mostra a importância do Japão, das Filipinas e da província insular chinesa de Taiwan em tudo isto. E, claro, do Mar da China Meridional. É por ali que passa todo o tráfego chinês entre a China e o exterior.
A propósito, todos os países desta região consideram a China como o seu parceiro comercial mais importante. O comércio de todos estes países faz-se, portanto, principalmente entre eles e a China.
Uma guerra na região indo-pacífica só eclodiria se os Estados Unidos estrangulassem a China a tal ponto que esta se sentisse ameaçada na sua própria existência e tivesse, portanto, que tentar quebrar a arquitetura de contenção que os Estados Unidos estão construindo ao largo da sua costa. Os Estados Unidos chamam isso de dissuasão, mas dissuasão contra quê? Contra qualquer contestação da sua dominação na região.
“Essa abordagem continuada pode se tornar um círculo vicioso, pois a forte dissuasão americana abre caminho a uma ação econômica mais disciplinada, enquanto uma ação económica mais disciplinada conduz a um aumento dos recursos americanos para manter a dissuasão a longo prazo”.
(ESN, p. 20)
As “medidas económicas disciplinadas” são aquelas que os Estados Unidos podem controlar – bem distante do hemisfério ocidental notadamente. Ninguém mais no hemisfério ocidental está autorizado a competir com os Estados Unidos. Mas isso deveria também aplicar-se à região do Pacífico.
Isto é claro, porque “medidas económicas mais disciplinadas conduzem a um aumento dos recursos americanos para manter a dissuasão a longo prazo”. Quanto mais os Estados Unidos puderem controlar e dominar a economia asiática, mais oportunidades têm de exercer o seu poder na região e de dominar todas as nações da região.
A China, maior e mais poderosa nação da região, a maior economia com a maior população e a maior base industrial, não deve ser a potência dominante na Ásia do ponto de vista dos Estados Unidos. Quem deve ser são os Estados Unidos. Certo? Isso te parece razoável?
Aceitariam os Estados Unidos que alguém elaborasse uma estratégia de segurança nacional e a impusesse aos Estados Unidos no hemisfério ocidental? Certamente que não. Os Estados Unidos tentariam quebrar tal arquitetura de contenção. A China tenta quebrar a arquitetura de contenção americana, sem, de imediato, desencadear uma guerra. Os Estados Unidos não querem, portanto, impedir uma guerra não provocada que a China pudesse desencadear. Querem impedir a China de se defender contra esta estratégia de contenção.
Voltemos agora à ESN 2025.
“Devemos continuar a melhorar as nossas relações comerciais (e outras) com a Índia, a fim de incentivar Nova Deli a contribuir para a segurança indo-pacífica, nomeadamente através de uma cooperação quadrilateral contínua com a Austrália, o Japão e os Estados Unidos (“o Quad”)”.
(ESN, p. 21)
O Quad é essencialmente uma OTAN de facto para a região Ásia-Pacífico, e visa conter a China da mesma forma que a OTAN serve para conter a Rússia na Europa.
“Além disso, não iremos medir esforços para também alinhar as ações dos nossos aliados e parceiros com o nosso interesse comum em impedir a dominação de uma única nação concorrente”.
(ESN, p. 21)
O objetivo não é impedir alguém (incluindo os Estados Unidos) de adquirir uma posição dominante e de estabelecer um verdadeiro equilíbrio de poderes, mas sim impedir que outra nação concorrente adquira uma posição dominante. A China não é explicitamente mencionada, mas é manifestamente a isso que se refere aqui.
Aqueles que concluem que os Estados Unidos renunciaram ao confronto com a Rússia e a China manifestamente não leram o documento até ao fim. No entanto, se o fizerem, fica claro que eles continuam a considerar a Rússia, a China, o Irão e qualquer outra nação que se oponha à dominação americana onde quer que seja no planeta como a sua maior ameaça, contra a qual tencionam continuar a lutar. E expõem o seu plano de forma bastante aberta nestas páginas.
Para ser claro mais uma vez:
“A longo prazo, a manutenção da preeminência económica e tecnológica americana é a forma mais segura de dissuadir e prevenir um conflito militar em grande escala”.
(ESN, p. 23)
A preeminência onde? Na Ásia e em todo o planeta.
“Um equilíbrio militar convencional favorável continua a ser um elemento essencial da concorrência estratégica. A atenção concentra-se justamente em Taiwan, em parte devido ao domínio de Taiwan na produção de semicondutores, mas sobretudo porque Taiwan oferece um acesso direto à segunda cadeia de ilhas e divide a Ásia do Nordeste e do Sudeste em dois teatros distintos. Dado que um terço do tráfego marítimo mundial transita anualmente pelo Mar da China Meridional, isto tem implicações maiores para a economia americana”.
(ESN, p. 23)
De que tráfego marítimo se trata? Trata-se do “tráfego marítimo mundial”? Trata-se do tráfego marítimo americano ou europeu? Ou trata-se, talvez, do tráfego marítimo chinês?
Aqui está o grupo de reflexão CSIS, financiado pelo governo americano, que apresentou uma exposição completa sobre este assunto.

Pode-se ver aqui a importância das trocas comerciais que transitam pelo Mar da China Meridional.

Este ponto vermelho grande mostra que a maioria dos navios que passam pelo Mar da China Meridional vão e vêm da China. E, mais uma vez, todos estes países consideram a China como o seu maior parceiro comercial para exportações e importações. Portanto, todo o seu comércio passa pelo Mar da China Meridional para ir à China e voltar. É, portanto, sobretudo o tráfego marítimo chinês que atravessa o Mar da China Meridional.
Achamos realmente que os Estados Unidos estão presentes no Mar da China Meridional para proteger o tráfego marítimo chinês que atravessa este mar, ou estarão lá para o ameaçar e, a longo prazo, o perturbar, como já tentam abertamente fazer com as exportações energéticas russas? E de que ameaças militares estamos falando aqui?
“Dissuadir as ameaças militares”
(ESN, p. 23)
O objetivo é impedir a China de se defender contra a tática americana de a conter e estrangular progressivamente. Eis outra citação interessante:
“Construiremos um exército capaz de repelir qualquer agressão em qualquer lugar na primeira cadeia de ilhas”.
(ESN, p. 24)
Olhemos novamente para o mapa. “Em qualquer lugar na primeira cadeia de ilhas”. Eles referem-se a este local preciso, exatamente ao largo da costa chinesa.

É aqui que se encontra a primeira cadeia de ilhas. Bem ao largo da costa chinesa.
O que aconteceria se a China decidisse repelir a agressão americana bem ao largo da costa americana, enquanto o exército chinês tivesse cercado os Estados Unidos no hemisfério ocidental e tentasse apresentar qualquer tentativa americana de quebrar este cerco como uma agressão que deve ser repelida?
“Isto tem um impacto significativo na economia americana”, indica a ESN 2025. Que interesse teria a China em perturbar o transporte marítimo mundial (essencialmente chinês) no Mar da China Meridional, apenas para prejudicar a economia americana? Inversamente, se os Estados Unidos pudessem perturbar o transporte marítimo no Mar da China Meridional, isso ajudaria a economia americana, que é atualmente incapaz de competir com a China. Mais uma vez, enfraquecer a China é o único meio para os Estados Unidos continuarem a ser a nação mais poderosa do mundo.
É por isso que precisam de mais um trilião de dólares para a sua máquina de guerra.
“Mas o exército americano não pode, e não deveria ter de fazer isso sozinho. Os nossos aliados devem se mobilizar e gastar – e sobretudo agir – muito mais para a defesa coletiva”.
(ESN, p. 24)
Quando a Casa Branca fala destas despesas, significa que nenhuma infraestrutura será construída no Japão ou nas Filipinas. O dinheiro deve ser usado para comprar armas americanas para que possam agir como procuradores contra a China, tal como a Ucrânia o faz contra a Rússia. E continuam a chamar-lhe “defesa coletiva”. Mas, mais uma vez, é evidente que tudo isto visa apenas apoiar a hegemonia americana na Ásia.
“Os esforços diplomáticos dos Estados Unidos devem concentrar-se em pressionar os nossos aliados e parceiros da primeira cadeia de ilhas para que concedam ao exército americano um maior acesso aos seus portos e outras instalações, gastem mais na sua própria defesa e, sobretudo, invistam em capacidades destinadas a dissuadir qualquer agressão”.
(ESN, p. 24)
Uma última palavra sobre a Ásia antes de passarmos para a Europa:
“Tendo em conta a insistência do presidente Trump para que o Japão e a Coreia do Sul compartilhem mais o ónus, devemos exigir que estes países a aumentem as suas despesas de defesa, com ênfase nas capacidades, incluindo as novas capacidades, necessárias para dissuadir adversários e proteger a primeira cadeia de ilhas. Vamos também reforçar e consolidar a nossa presença militar no Pacífico ocidental, mantendo ao mesmo tempo a nossa retórica determinada sobre o aumento das despesas de defesa nas nossas relações com Taiwan e a Austrália”.
(ESN, p. 24)
Por que é que os Estados Unidos precisam de pressionar outros países a agirem assim? Se estas nações estivessem confrontadas com uma ameaça tão significativa, gastariam elas próprias por conta própria dinheiro na sua defesa. E como podem os Estados Unidos pressionar outros países para agirem assim sem violarem o seu próprio “princípio de soberania nacional”? Mais uma vez, trata-se simplesmente de manter a supremacia americana, de coagir e controlar outras nações. Como eu disse: a doutrina Wolfowitz revisitada.
Continua
A segunda parte desta análise tratou da retórica propagandístico da Casa Branca segundo a qual os Estados Unidos já não consideram a Rússia e, sobretudo, a China como inimigos, que renunciaram à sua dominação mundial e se retiram para o hemisfério ocidental. Na terceira parte que se segue, aprofundaremos a análise do texto da ESN 2025 e mostraremos como os Estados Unidos pretendem moldar as suas relações com a Europa, o Médio Oriente e a África no futuro.






