Ucrânia: O Momento da Verdade

O sinal da “Foreign Affairs” e o reposicionamento ocidental

Em 26 de fevereiro de 2026, a “Foreign Affairs” publicou um artigo destinado a marcar um ponto de viragem no debate ocidental sobre a guerra na Ucrânia. O título, Ukraine Is Losing the War, não deixa espaço para ambiguidades. O subtítulo é ainda mais explícito: With Moscow Pressing Its Advantage, Kyiv Should Trade Land for Peace[1].

O autor, Michael C. Desch, professor de Relações Internacionais na Universidade de Notre Dame e diretor do O’Brien Notre Dame International Security Center, não é uma voz marginal nem um comentador estemporâneo. Pelo contrário, Desch é um académico reconduzível à tradição realista da política internacional e dirige-se a um público composto prevalentemente por decisores, analistas estratégicos e funcionários governamentais.

No seu artigo, Desch parte de uma constatação clara: após quatro anos de guerra em larga escala, a Rússia está progressivamente a impor a sua superioridade no campo. Moscovo, escreve, transformou o conflito numa guerra de desgaste que a Ucrânia dificilmente pode sustentar a longo prazo. Perante esta realidade, o autor sustenta que Kiev deveria considerar concessões territoriais dolorosas mas definitivas como preço para uma paz negociada, em vez de continuar uma guerra que arrisca piorar ainda mais a sua posição estratégica.

O artigo insere-se além disso num contexto político preciso. A administração norte-americana, segundo o que foi noticiado pela Axios já em novembro anterior, teria avançado com um projeto de acordo que prevê o reconhecimento de facto do controlo russo sobre a Crimeia, sobre Donetsk e Lugansk, e sobre a posse das porções de Kherson e Zaporizhzhia atualmente ocupadas[2]. A recusa do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em aceitar qualquer solução que viole a integridade territorial do país é apresentada por Desch como politicamente compreensível, mas estrategicamente cada vez mais difícil de sustentar à luz da evolução do conflito.

O que torna esta intervenção particularmente significativa não é apenas o conteúdo, mas o local onde é publicada. A Foreign Affairs não é uma revista qualquer e não desempenha uma função de comentário jornalístico contingente: não se dirige à opinião pública generalista, nem segue o ciclo da informação imediata, mas é lida por diplomatas, analistas dos serviços de informação, planeadores militares, responsáveis pela elaboração das políticas públicas e funcionários governamentais. Precisamente por isso, frequentemente antecipa ou reflete debates já em curso no interior das classes dirigentes ocidentais, em vez de se limitar a registar o que já se tornou património do senso comum. Quando a Foreign Affairs publica uma análise deste tipo, não se limita a descrever a realidade, mas contribui para tornar politicamente legítima uma diferente interpretação dela. O seu papel não é sustentar uma linha partidária, mas delimitar o campo das opções consideradas racionais e praticáveis no processo decisório ocidental; se uma certa hipótese entra no espaço discursivo da Foreign Affairs, significa que já foi avaliada como politicamente apresentável.

A mensagem que emerge da análise é relativamente clara. Se a Ucrânia não aceitar a perda de territórios que estão agora, de facto, comprometidos, a Rússia tenderá a completar a sua conquista. Moscovo controla estabilmente a totalidade do oblast de Lugansk e quotas amplas e maioritárias de outros territórios orientais e meridionais da Ucrânia: cerca de 78% de Donetsk, 73% de Kherson e 76% de Zaporizhzhia. Na ausência de um acordo de paz, a prossecução do conflito não congela o status quo territorial, mas tende a favorecer um avanço russo adicional nas áreas ainda contestadas[3]. Neste quadro, não é irracional hipotetizar que, uma vez completada a tomada dos oblast já parcialmente ocupados, a atenção possa progressivamente deslocar-se para Odessa e outros nós estratégicos, sobretudo se a guerra se prolongar sem uma clara trajetória negocial.

É este o sentido profundo do sinal lançado pela Foreign Affairs. Uma parte das classes dirigentes ocidentais está a começar a considerar a contenção das perdas como um objetivo prioritário em relação à maximização de fins agora dificilmente alcançáveis. Não se trata de uma avaliação de ordem moral, mas de um realinhamento tardio às condições efetivas do confronto. Quando uma revista deste tipo abre um espaço discursivo de tal envergadura, não antecipa a opinião pública, mas reflete um repensar já amadurecido nos níveis decisórios.

2014: a queda de Yanukovych e a rutura do equilíbrio estratégico

Em 2014, a Ucrânia atravessa uma crise política que marca uma descontinuidade estrutural nas relações com a Federação Russa. A destituição do presidente Viktor Yanukovych, na sequência das protestos de rua e do colapso do seu apoio político, não é interpretada em Moscovo como uma normal alternância de poder, mas como um evento que põe em causa o ordenamento pós-soviético construído nas duas décadas anteriores.

Do ponto de vista russo, Yanukovych representava uma figura funcional à manutenção de um equilíbrio ambíguo: uma Ucrânia soberana, mas não plenamente alinhada com os blocos ocidentais e, precisamente por isso, considerada compatível com as exigências de segurança de Moscovo. A sua queda é, por sua vez, lida como o resultado de uma dinâmica interna favorecida, se não diretamente apoiada, por atores ocidentais interessados em deslocar estabilmente Kiev para fora da órbita russa.

Nesta chave interpretativa, os eventos de 2014 assumem uma valência que vai além da dimensão política interna ucraniana. A formação de um novo ordenamento institucional orientado para a integração euro-atlântica é percecionada como uma perda estratégica de longo prazo, sobretudo na ausência de garantias vinculativas sobre a neutralidade militar do país. A perspetiva de uma Ucrânia progressivamente integrada nas estruturas políticas, económicas e de segurança ocidentais é considerada incompatível com a profundidade estratégica russa ao longo da sua fronteira ocidental.

É neste contexto que, em Moscovo, amadurece a convicção de que o quadro negocial anterior se desfez. Não se trata ainda de uma decisão operacional, mas de uma redefinição do problema estratégico: a Ucrânia já não é um espaço de mediação, mas sim um território disputado no plano do equilíbrio de segurança regional. A crise de 2014 é, portanto, interpretada como um precedente que modifica estruturalmente as expectativas russas sobre as futuras trajetórias políticas de Kiev.

A partir deste momento, no interior dos aparelhos estatais russos, começa-se a pensar em termos de opções alternativas, na consciência de que a manutenção do status quo já não está garantida. A queda de Yanukovych marca assim a abertura de uma fase nova, caracterizada pela incerteza estratégica e pela progressiva erosão dos mecanismos de confiança que haviam regulado as relações russo-ucranianas no período anterior.

A operação na Crimeia e a alternativa de uma intervenção direta limitada

A resposta imediata da Federação Russa à crise política ucraniana de 2014 concentra-se num objetivo específico e circunscrito: a Crimeia. Do ponto de vista de Moscovo, a península apresenta uma combinação de fatores que a tornam um caso distinto em relação ao resto do território ucraniano. Trata-se de uma área de relevância estratégica primária, sede da Frota do Mar Negro, já fortemente integrada sob o perfil militar e logístico com a Federação Russa, e caracterizada por uma composição demográfica considerada em larga parte favorável ou não hostil.

A operação é concebida e conduzida como uma intervenção de risco controlado. O emprego da força é limitado, a ação é rápida e a sequência decisória parece orientada a reduzir ao mínimo tanto o atrito militar como a exposição política internacional. Em termos operacionais, a tomada da Crimeia não requer um destacamento massivo de tropas nem a abertura de linhas logísticas extensas: a presença militar russa pré-existente e o controlo das infraestruturas chave permitem neutralizar as capacidades ucranianas locais sem recorrer a combates em larga escala.

Do ponto de vista dos custos, a operação apresenta para Moscovo um perfil relativamente favorável. O ónus militar direto resulta contido, assim como o impacto político imediato. As primeiras medidas sancionatórias ocidentais, embora significativas no plano simbólico, não determinam uma rutura estrutural das relações económicas entre a Rússia e a União Europeia. Nesta fase, o Kremlin pode ainda considerar gerível o impacto global da ação, sobretudo em relação ao valor estratégico do objetivo alcançado.

Paralelamente, importa considerar a alternativa teórica de uma intervenção direta limitada no resto da Ucrânia, frequentemente comparada retrospetivamente ao modelo da intervenção russa no Cazaquistão em 2022. Do ponto de vista estritamente militar, em 2014 uma operação deste tipo teria sido tecnicamente possível. As forças armadas ucranianas da época eram caracterizadas por graves carências em termos de treino, equipamento e capacidade de comando e controlo. Uma intervenção rápida e circunscrita poderia ter sido sustentada com números relativamente limitados em comparação com os empregues nos anos seguintes.

No entanto, ao contrário do Cazaquistão, o contexto político e internacional da Ucrânia apresentava vínculos radicalmente diferentes. Uma intervenção direta, mesmo limitada, teria com toda a probabilidade desencadeado uma resposta ocidental muito mais severa, acelerando a adoção de sanções extensas e comprometendo de modo estrutural as relações económicas entre Moscovo e a Europa. Em 2014, a Federação Russa encontrava-se ainda fortemente integrada nos circuitos financeiros ocidentais: uma quota relevante das suas reservas era detida em moedas e instrumentos financeiros expostos a potenciais congelamentos, o acesso aos mercados de capitais europeus e norte-americanos permanecia essencial para o financiamento de grandes empresas energéticas e industriais, e o sistema bancário ainda não tinha sido reorientado para canais alternativos.

No plano comercial e energético, a dependência do mercado europeu era então significativamente superior à atual. A União Europeia absorvia a parte preponderante das exportações russas de gás natural e uma quota relevante das exportações petrolíferas, enquanto as infraestruturas de exportação para a Ásia se encontravam ainda parciais ou em fase de projeto. Uma interrupção brusca destes fluxos teria tido efeitos imediatos nas contas públicas russas e na capacidade do Estado de sustentar uma projeção militar prolongada.

Neste quadro, uma intervenção direta na Ucrânia em 2014 teria implicado não só um custo militar adicional, mas um risco sistémico para o equilíbrio económico global da Federação Russa. A falta de mecanismos consolidados de substituição das importações, a limitada diversificação dos parceiros comerciais e a ausência de uma plena autonomia nos sistemas de pagamento internacionais reduziam sensivelmente a margem de absorção de um choque sancionatório de amplo alcance.

A escolha de limitar a ação à Crimeia reflete, portanto, uma avaliação custo-benefício precisa. Por um lado, a intervenção permite colocar em segurança um ativo estratégico fundamental e enviar um sinal político claro sobre a não aceitabilidade do novo rumo ucraniano; por outro, evita ultrapassar um limiar que teria tornado inevitável um confronto direto e prolongado com o Ocidente. A operação na Crimeia não representa, pois, um primeiro passo para uma invasão generalizada, mas uma solução circunscrita a um problema imediato, concebida para maximizar os resultados reduzindo ao mínimo os riscos sistémicos.

Nesta fase, o objetivo de Moscovo não é a ocupação da Ucrânia nem a sua transformação forçada, mas o restabelecimento de uma margem de segurança estratégica num quadro agora percebido como instável. A Crimeia torna-se assim o ponto de equilíbrio temporário entre a necessidade de reagir à crise de 2014 e a vontade de evitar uma escalada que, naquele momento, seria contraproducente.

Envolvimento indireto, acordos de Minsk e preparação do cenário sancionatório

Após 2014, a Federação Russa opta por uma estratégia de envolvimento indireto no conflito ucraniano oriental, evitando o destacamento formal das suas forças armadas em larga escala. Esta escolha responde a uma dupla exigência: por um lado, manter a pressão militar sobre Kiev sem ultrapassar o limiar de um confronto direto com o Ocidente; por outro, preservar um espaço negocial que permita estabilizar o quadro político-militar sem uma rutura irreversível.

No Donbass, o peso operativo das hostilidades é sustentado principalmente pelas forças separatistas locais, com um apoio russo seletivo em termos de consultoria militar, inteligência, equipamento e coordenação logística. Esta orientação permite a Moscovo exercer uma influência determinante sobre a evolução do conflito, mantendo ao mesmo tempo uma certa ambiguidade no plano jurídico e político. O conflito assume assim a forma de uma guerra de baixa intensidade, caracterizada por fases alternadas de escalada e congelação, funcional a impedir uma plena normalização da situação ucraniana.

É neste contexto que se inserem os acordos de Minsk de 2014 e de 2015, concebidos como instrumentos de gestão do conflito mais do que como soluções definitivas. Do ponto de vista russo, Minsk representa uma tentativa de institucionalizar o status quo através de um quadro negocial que reconheça uma forma de autonomia às regiões orientais da Ucrânia, mantendo-as formalmente dentro do Estado ucraniano mas dotadas de suficientes margens de veto sobre as escolhas estratégicas de Kiev. O objetivo implícito é duplo: impedir uma integração plena da Ucrânia nas estruturas político-militares ocidentais e reduzir a probabilidade de uma escalada direta.

O progressivo desgaste do processo de Minsk, marcado por interpretações divergentes das cláusulas políticas e de segurança, reforça, no entanto, em Moscovo a perceção de que o quadro negocial é frágil e potencialmente reversível. A não implementação substancial dos acordos é lida não só como um fracasso diplomático, mas como um sinal da incapacidade — ou da falta de vontade — das partes ocidentais de impor a Kiev um compromisso estrutural.

Paralelamente à gestão indireta do conflito, a Federação Russa inicia uma série de medidas preventivas destinadas a reduzir a vulnerabilidade do país a um futuro agravamento das sanções. No plano financeiro, são reforçadas as reservas estatais, reduzida progressivamente a exposição à dívida externa e iniciada uma parcial reorganização do sistema bancário para limitar a sua dependência dos mercados de capitais ocidentais. No plano monetário, intensificam-se os esforços para diminuir o uso de moedas ocidentais nas transações estratégicas e para desenvolver circuitos de pagamento alternativos.

No âmbito económico e industrial, Moscovo promove políticas de substituição das importações, em particular nos setores considerados sensíveis sob o perfil militar, tecnológico e energético. Concomitantemente, inicia-se uma gradual diversificação das relações comerciais, com uma crescente orientação para parceiros extraeuropeus, sobretudo na Ásia. Embora estes processos sejam incompletos e desomogéneos no curto prazo, eles refletem uma clara consciência da necessidade de se preparar para um cenário de confronto prolongado.

No seu conjunto, a fase 2014–2021 pode ser interpretada como um período de gestão controlada da instabilidade, em que a Rússia tenta conter o conflito ucraniano dentro de limites considerados sustentáveis, mantendo aberta a via negocial e, ao mesmo tempo, reforçando progressivamente a sua capacidade de absorver pressões externas. O envolvimento indireto e as negociações de Minsk não representam, pois, uma alternativa à preparação de cenários mais duros, mas parte integrante de uma estratégia a vários níveis, orientada a preservar flexibilidade e margens de manobra.

O ponto de não retorno: cooperação militar, Sea Breeze e o encerramento do espaço negocial

Entre 2019 e 2021, o quadro estratégico ucraniano sofre uma transformação qualitativa. Já não se trata apenas de um conflito congelado de baixa intensidade, nem de um processo negocial inacabado, mas de uma progressiva redefinição do status militar da Ucrânia no sistema de segurança europeu. Do ponto de vista russo, esta fase marca a erosão definitiva da hipótese de uma neutralidade de facto de Kiev.

Um elemento central desta dinâmica é o reforço da cooperação militar entre a Ucrânia e os países ocidentais, em particular no âmbito das exercitações conjuntas e da interoperabilidade das forças armadas. As manobras navais e aeronavais no Mar Negro, incluindo as exercitações Sea Breeze, assumem um significado que vai além do treino tático. Elas são interpretadas em Moscovo como um sinal político-militar de integração progressiva da Ucrânia nos dispositivos operativos ocidentais, independentemente da ausência de uma adesão formal à NATO.

Do ponto de vista russo, o problema não é tanto a dimensão numérica das forças envolvidas, mas a normalização da presença militar ocidental num espaço considerado sensível sob o perfil da segurança nacional. O aumento da frequência e da complexidade das exercitações, o acesso a infraestruturas portuárias e aeroportuárias, e a melhoria das capacidades de comando e controlo ucranianas são lidos como indicadores de uma trajetória agora dificilmente reversível.

Paralelamente, intensifica-se a cooperação em matéria de treino, inteligência e fornecimentos militares. Também neste caso, a questão central não diz respeito ao volume imediato das ajudas, mas à sua qualidade e à sua integração num quadro estratégico de médio prazo. A adequação das doutrinas operativas ucranianas aos padrões ocidentais e a crescente interoperabilidade com as forças da NATO reduzem, na perceção russa, o valor de eventuais garantias políticas informais sobre a não adesão.

Neste contexto, o processo negocial iniciado com os acordos de Minsk perde progressivamente relevância. Do ponto de vista de Moscovo, Minsk pressupunha uma Ucrânia politicamente unitária mas estrategicamente neutra, em que as regiões orientais teriam desempenhado uma função de contrapeso interno. A transformação militar do país torna esta arquitetura cada vez menos plausível. A não implementação das componentes políticas dos acordos é assim interpretada não como um simples impasse negocial, mas como o sinal de uma mudança estrutural dos objetivos ucranianos e ocidentais.

Em 2021, a perceção russa é de que o espaço de compromisso se reduziu ao mínimo. A Ucrânia parece encaminhada para uma colocação estratégica incompatível com as exigências de segurança de Moscovo, enquanto os instrumentos diplomáticos disponíveis já não parecem capazes de inverter esta tendência. Nesta fase, a questão ucraniana deixa de ser gerida como um problema de estabilização regional e é progressivamente reconduzida a uma questão de segurança estrutural, com implicações diretas para o equilíbrio militar ao longo da fronteira ocidental russa.

O ponto de não retorno não coincide, portanto, com um único evento, mas com a acumulação de sinais que, no seu conjunto, indicam o encerramento do espaço negocial. A cooperação militar crescente, a normalização da presença ocidental e a erosão dos pressupostos dos acordos de Minsk contribuem para redefinir o quadro em que, pouco depois, será tomada uma decisão de envergadura qualitativamente diferente.

A operação militar de 2022: objetivos reais, emprego das forças e lógica operacional

Uma leitura distanciada do início da operação militar russa em fevereiro de 2022 permite redimensionar desde o início algumas interpretações que dominaram o discurso público ocidental. Em particular, a hipótese de uma estratégia de tipo blitzkrieg finalizada à rápida decapitação do vértice político ucraniano e à ocupação relâmpago de todo o país não é coerente nem com a doutrina militar russa nem com os meios efetivamente empregues.

No momento do início das operações, as forças russas destacadas ascendiam a cerca de 180.000 efetivos. Trata-se de um número insuficiente para sustentar uma ocupação estável de um país das dimensões e da população da Ucrânia, sobretudo na ausência de uma mobilização geral e de um aparelho administrativo predisposto ao controlo territorial extenso. Uma operação de ocupação integral teria requerido forças de envergadura muito superior, com custos políticos e militares que não encontram correspondência nas escolhas iniciais de Moscovo.

Neste quadro, o objetivo da operação parece mais circunscrito: o controlo dos nós logísticos, infraestruturais e territoriais fundamentais, em vez da conquista de todo o território ucraniano. A atenção concentra-se desde o início nas diretrizes meridionais e orientais, onde a tomada de cidades como Kherson, Melitopol e Berdyansk ocorre com uma resistência inicial limitada. Estes centros revestem uma importância estratégica primária na medida em que ligam o Donbass à Crimeia e permitem o controlo das linhas de comunicação terrestres e do acesso ao Mar de Azov.

A operação no setor setentrional, incluindo a pressão sobre Kiev e sobre a área de Hostomel, deve ser lida nesta perspetiva como um dispositivo de fixação. A ameaça sobre Kiev força as forças ucranianas a concentrar recursos significativos na defesa da capital, reduzindo a sua capacidade de intervir eficazmente nos setores meridionais e orientais, onde se jogam os objetivos estratégicos principais. Neste sentido, a frente setentrional desempenha uma função prevalentemente diversiva, mais do que constituir o fulcro da operação.

Também alguns elementos da comunicação política russa dos primeiros dias — em particular os apelos públicos dirigidos aos vértices militares ucranianos — são dificilmente compatíveis com uma real expectativa de colapso imediato do Estado ucraniano. Tais intervenções parecem, antes, uma construção comunicativa deliberada, funcional a uma estratégia de distração. A linguagem empregue, insolitamente simplificada e atípica em relação aos registos habitualmente utilizados por Vladimir Putin, parece orientada a reforçar uma representação enganosa das intenções russas, alimentando externamente a hipótese de uma operação finalizada à decapitação política de Kiev. Neste sentido, a comunicação não reflete os objetivos operativos efetivos, mas contribui para os dissimular, enquanto no terreno a ação permanece concentrada no controlo de diretrizes territoriais e nós logísticos estratégicos.

Um ulterior indicador dos objetivos limitados da operação inicial é representado pela ausência, nas áreas temporariamente ocupadas no norte, de medidas típicas de uma anexação ou de um controlo duradouro: não são introduzidos o rublo, nem iniciados programas sistemáticos de passaportização ou de construção de novas administrações civis. Pelo contrário, tais instrumentos são aplicados de forma seletiva nos territórios que, numa fase sucessiva, serão formalmente integrados pela Federação Russa através de procedimentos políticos unilaterais.

No seu conjunto, a operação de 2022 parece, pois, concebida como uma ação de objetivos delimitados, orientada a modificar de modo irreversível o equilíbrio territorial e estratégico da Ucrânia, em vez de destruir o Estado ucraniano na sua inteireza. A discrepância entre os fins atribuídos retrospetivamente à operação e os meios efetivamente empregues sugere que muitas leituras iniciais projetaram categorias interpretativas estranhas à lógica operacional russa, contribuindo para uma compreensão distorcida das intenções e dos vínculos reais em jogo.

Do maximalismo à contenção do dano: o reemergir do realismo estratégico

A evolução do conflito no seu conjunto sugere que a fase inicial, caracterizada por objetivos maximalistas implicitamente atribuídos a uma ou a outra parte, foi progressivamente reentrando em coordenadas mais restritas. A guerra não produziu uma rápida resolução nem um colapso decisivo de um dos contendores; pelo contrário, favoreceu uma dinâmica de desgaste que tende a premiar o ator dotado de maior profundidade estratégica, capacidade industrial e continuidade operativa.

É neste contexto que deve ser lido o sinal lançado pela Foreign Affairs. A abertura de um espaço discursivo em que a hipótese de concessões territoriais por parte ucraniana é tratada como uma opção racional indica um deslocamento das prioridades no interior das classes dirigentes ocidentais. O objetivo já não é a maximização dos resultados políticos inicialmente declarados, mas a limitação dos custos globais de um conflito que arrisca prolongar-se sem uma clara perspetiva de inversão.

Esta reconsideração não emerge no vazio. Já em 2019, um relatório da RAND Corporation sublinhava como o apoio militar à Ucrânia poderia aumentar os custos para a Rússia, mas advertia explicitamente que uma escalada descontrolada favoreceria Moscovo em virtude da proximidade geográfica e da sua capacidade de concentrar forças e recursos no teatro de guerra[4]. A análise indicava a necessidade de calibrar cuidadosamente cada iniciativa para evitar um conflito mais amplo em que a Rússia gozaria de vantagens estruturais. A distância de anos, muitas das dinâmicas então hipotetizadas parecem ter-se materializado.

No plano geopolítico de longo prazo, a trajetória do conflito confirma uma lógica já identificada por Zbigniew Brzezinski no final dos anos Noventa em A Grande Tabuleiro de Xadrez. Naquele quadro, a Ucrânia é definida explicitamente como um “eixo geopolítico” do espaço euroasiático: um Estado cuja importância não deriva tanto da sua potência intrínseca, quanto do facto de que a sua colocação estratégica condiciona de modo decisivo o equilíbrio entre as grandes potências.

Brzezinski observa que sem a Ucrânia a Rússia deixa de ser um império euroasiático, enquanto o seu regresso sob a influência de Moscovo lhe permitiria recuperar uma projeção continental em vasta escala[5]. O ponto central da sua análise não é a soberania formal de Kiev, mas a função geopolítica do território ucraniano como multiplicador de poder ou, pelo contrário, como fator de contenção estrutural da Rússia. Neste sentido, a Ucrânia representa uma variável chave não só para a segurança russa, mas para o ordenamento global do espaço euro-atlântico.

Um aspeto frequentemente simplificado na receção da argumentação de Brzezinski diz respeito às modalidades através das quais tal neutralização estratégica pode ser perseguida. No seu esquema, a perda da Ucrânia como eixo não implica necessariamente a sua ocupação integral. O que conta é o controlo das alavancas decisivas da sua autonomia real: a base industrial, as infraestruturas estratégicas, os corredores logísticos e o acesso aos mares quentes. A capacidade de um Estado agir como sujeito geopolítico autónomo depende, com efeito, segundo Brzezinski, da combinação de recursos económicos, colocação geográfica e acesso às redes de troca.

Nesta perspetiva, uma Ucrânia privada das suas regiões industriais orientais e do acesso ao Mar Negro continuaria a existir como entidade estatal, mas veria drasticamente reduzida a sua capacidade de escolha estratégica. Formalmente independente, resultaria na prática subordinada aos vínculos impostos pelo equilíbrio de poder regional. É neste hiato entre soberania jurídica e autonomia substancial que se coloca o núcleo da análise brzezinskiana: a geopolítica não se mede com base nas fronteiras reconhecidas, mas na capacidade efetiva de um Estado de incidir sobre o seu ambiente estratégico.

Lida nesta chave, a evolução do conflito ucraniano não aparece como um desvio súbito da ordem anterior, mas como a atualização de uma dinâmica estrutural já identificada antecipadamente: o controlo da Ucrânia, mesmo parcial, permanece um dos principais fatores de redefinição do equilíbrio de poder no espaço euroasiático.

A crescente disponibilidade, no interior do debate ocidental, para discutir soluções fundadas na contenção das perdas sinaliza, portanto, um realinhamento tardio às condições efetivas do confronto. Não se trata de uma revisão retrospetiva das responsabilidades políticas, nem de uma avaliação moral do conflito, mas de uma adaptação pragmática às relações de força emergidas no terreno. Neste sentido, a Foreign Affairs não antecipa a opinião pública, mas torna visível um repensar já avançado nos níveis decisórios, indicando que uma fase do conflito se está a fechar e que as opções consideradas realistas se estão progressivamente a restringir.

Notas

[1] Desch, Michael C. (26 febbraio 2026), Ukraine Is Losing the War. With Moscow Pressing Its Advantage, Kyiv Should Trade Land for Peace, Foreign Affairs, pubblicato da Council on Foreign Relations, Inc., New York.

[2] Axios (19 novembre 2025), Trump plan asks Ukraine to cede additional territory for security guarantees, Axios, Washington D.C.

[3] Il Fatto Quotidiano (24 febbraio 2026), Ucraina, Jeffrey Sachs: “La pace è nelle mani di Macron, Meloni e Merz”, Il Fatto Quotidiano, Milano.

[4] RAND Corporation (2019), Overextending and Unbalancing Russia: Assessing the Impact of Cost-Imposing Options, RAND Corporation, Santa Monica (CA).

[5] Brzezinski, Zbigniew (2025), La grande scacchiera. Il mondo e la politica nell’era della supremazia americana, Visione Edizioni, Milano, p. 72 (ed. orig. The Grand Chessboard, 1997).

Fonte: Eurasia Rivista

Gabriele Repaci
Gabriele Repaci

Colaborador da "Eurasia. Rivista di studi geopolitici". Escreve para a revista científica "Das Andere - L'Altro"; já colaborou com a Associação Político-Cultural Marx XXI e com a Arianna Editrice.

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