Qual é o papel desempenhado pelas seitas esotéricas e sociedades secretas nos conflitos políticos internacionais?


Poucas pessoas sabem, mas boa parte da saga de Perón no exílio e de seu retorno à Argentina teve como pano de fundo a atuação de uma sociedade secreta, a Loja Anael, a qual praticava um neo-hermetismo sincrético e que estaria intimamente envolvida, inclusive, na construção de certos elementos do peronismo desde o primeiro mandato.
Os membros da Anael teriam calculado astrologicamente o melhor momento para que Perón retornasse do exílio e ele o teria feito no momento indicado, inclusive. Mas essa história curiosa é incrementada pelo fato de que a Anael teria sido infiltrada por um elemento malicioso, López Rega, o qual teria, com a ajuda de Licio Gelli, iniciado Perón na maçonaria e passado a influenciá-lo. O Perón retornado já não era o mesmo de antes, havia perdido seu vigor e, segundo algumas fontes, era vítima do mesmerismo de López Rega.
O interessante sobre a Anael é que ela foi fundada, na verdade, no Brasil e dela fizeram parte figuras como Menotti Carnicelli, o famoso “feiticeiro” de Getúlio Vargas, bem como o famoso político paulista Adhemar de Barros. Segundo algumas fontes, o próprio Vargas teria sido membro da ordem que via Perón como “condutor cósmico” e que tinha em Evita algo como uma “sumo-sacerdotisa”.
Comento sobre essa curiosidade introdutoriamente porque ao longo dos últimos séculos temos visto teóricos tentando reduzir a história a “conflito entre classes” ou “conflito entre nações”, ou mesmo “conflito entre raças”, e ainda “conflito entre indivíduos”, mas ainda não se escreveu o suficiente sobre uma concepção da história como “conflito entre sociedades secretas”.
Dugin escreve na “Grande Guerra dos Continentes”, de maneira majoritariamente alegórica, mas com elementos reais, sobre a existência de um antigo conflito entre ordens secretas que remonta aos tempos romanos, uma dela vinculada aos princípios telurocráticos, a outra aos princípios talassocráticos. Ele chega a atribuir a esse conflito as disputas soviéticas entre a KGB e a GRU, com a GRU tendo em seu núcleo uma ordem hiperbórea e a KGB se organizando secretamente ao redor do atlantismo.
Julius Evola, quando escreve sobre a Revolução Francesa, aponta para inúmeras coincidências que indicariam um papel de herdeiros dos templários na execução dos eventos revolucionários e especialmente no assassinato de Luís XVI. O rei foi, por exemplo, curiosamente preso na antiga sede do Templo de Paris, em vez do local indicado pela Assembleia. O próprio termo “jacobino” se deveria, na verdade, ao nome de Jacques DeMolay, último grão-mestre dos templários.
Guénon, por sua vez, ressalta o papel de Blavatsky e da Sociedade Teosófica na colaboração de inteligência e no âmbito cultural com as autoridades britânicas na Índia. Em outra ocasião, em suas cartas, ele comenta sobre o teósofo Basil Zaharoff, traficante de armas que vendia armas para todos os lados nos conflitos balcânicos, além de financista ligado à inteligência britânica.
Jean Parvulesco, em uma de suas obras, comenta sobre o pertencimento de Rasputin a uma ordem tradicional sediada na Suécia. Uma série de indícios – que eu já explorei num vídeo – indica, aliás, que seu assassinato foi executado de forma ritualística por gente ligada simultaneamente a uma sociedade secreta e à inteligência britânica.
O assassinato de Francisco Ferdinando na Sérvia foi realizado por Gavrilo Princip, membro da “Mão Negra”, uma organização política secreta…que tinha por trás de si o Grande Oriente da França. Décadas depois, na Alemanha, o nacional-socialismo surgirá a partir também de uma sociedade secreta, a Thule. A queda do Império Otomano, por outro lado, seria a vingança dos dönmeh, descendentes dos sabateanos.
Notórias são, também, as teorias que narram sobre a influência de seitas e sociedades secretas na elite dos EUA. Repete-se sempre nomes como “Skull and Bones” e “Bohemian Grove”, mas não se pode também ignorar o Chabad, e as incontáveis seitas que encontraram popularidade naquele país.
Poderíamos estender a reflexão infinitamente, lançando mão de todos os tipos de exemplo, a “Sociedade do Dragão Negro”, na Ásia, o próprio papel da “P2” na Itália, e por aí vai.
O que me parece, para além da dimensão esotérica, é que confrarias secretas me parecem meios bastante eficientes de influenciar de forma discreta os rumos de um país e que, não raro, elas se deparam com a existência de estruturas análogas com objetivos contrapostos.
Simultaneamente, a própria natureza dessas sociedades as aproxima historicamente das agências de inteligência, de modo que são frequentes os casos de colaboração entre seitas, ordens, confrarias e os setores de inteligência de seu país (ou de um país estrangeiro.