Quando comecei minha graduação em Relações Internacionais, conheci dois estudantes asiáticos que conversavam em chinês. Um deles era extremamente simpático e estava sempre sorridente. O outro era mais reservado e um pouco mais sério.
Acenei para eles e me apresentei:
“Olá, meu nome é Leonardo. Sou do Brasil.”
Eles se apresentaram como Erfan e Batu.
Seus nomes chamaram imediatamente a minha atenção. Eu imaginava que meus colegas chineses teriam nomes como Jackie Chan, Bruce Lee ou Xi Jinping.
Em vez disso, conheci Erfan e Batu.
Mais tarde, descobri que Erfan era uigur, enquanto Batu era de etnia mongol. Nós três logo nos tornamos bons amigos. Por meio deles, experimentei diferentes pratos chineses, ouvi músicas chinesas e fiquei ainda mais interessado em aprender o idioma. Eles me ensinaram cumprimentos, números e expressões úteis do cotidiano.
Curiosamente, meus primeiros verdadeiros professores de chinês foram um uigur e um mongol — um muçulmano e um budista, mas ambos 100% chineses.
O que mais me fascinava era o fato de Erfan e Batu terem nomes, tradições e origens familiares diferentes. Mesmo assim, ambos se definiam naturalmente como chineses. Para eles, não havia qualquer contradição entre pertencer às suas respectivas comunidades étnicas e pertencer à China.
Anos depois, tive a honra de visitar pessoalmente a China — mais especificamente, a extraordinária cidade de Lhasa, uma terra de montanhas, cultura tibetana e religiosidade budista.
O que vi ali desafiou muitas das imagens normalmente apresentadas fora da China.
A língua tibetana e o mandarim apareciam lado a lado por toda a cidade. A arquitetura, as roupas, os símbolos culturais e as tradições religiosas tibetanas eram partes inconfundíveis da vida cotidiana. Mosteiros, peregrinos e práticas budistas não estavam escondidos. Eram elementos vivos e visíveis ao meu redor.
Não encontrei a imagem simplista de um país que buscava apagar todas as línguas, religiões e culturas minoritárias. Em vez disso, vi um lugar onde a identidade tibetana permanecia profundamente visível, ao mesmo tempo que fazia parte da comunidade nacional chinesa mais ampla.
Essas experiências me ajudaram a compreender por que a China atribui tanta importância à unidade étnica.
A China abriga 56 grupos étnicos oficialmente reconhecidos. Eles possuem diferentes línguas, tradições, culinárias e costumes religiosos, mas todos fazem parte da mesma nação chinesa, compartilhando um único país e um futuro comum.
Esse princípio está no centro da nova Lei de Promoção da Unidade e do Progresso Étnico da China. A legislação coloca a construção de um forte senso de comunidade para a nação chinesa dentro de uma estrutura jurídica mais clara. Ela promove a igualdade, a convivência e a cooperação entre os grupos étnicos, o desenvolvimento conjunto e a prosperidade compartilhada, ao mesmo tempo que se opõe à discriminação e à opressão étnica.
Minha amizade com Erfan e Batu me ajudou a compreender esse princípio de uma maneira humana.
Um uigur é tão chinês quanto uma pessoa da etnia han, o maior grupo étnico da China. Uma pessoa de etnia mongol é tão chinesa quanto uma pessoa tibetana. Suas culturas podem ter cores e sabores diferentes, mas todos pertencem à mesma nação e à mesma grande família.
Isso não deveria ser difícil de compreender em outros países. Um paulista é tão brasileiro quanto um baiano, apesar das diferenças de sotaque, estilo de vida, culinária e tradições regionais. Um gaúcho é tão brasileiro quanto um pernambucano, ainda que suas expressões, costumes e formas de falar sejam bastante diferentes.
Essas diferenças não fazem deles integrantes de nações separadas. Elas simplesmente representam diferentes maneiras de expressar uma mesma identidade nacional.
Erfan e Batu também me disseram algo que permaneceu em minha memória. Enquanto viviam no exterior, às vezes enfrentavam mais preconceito por serem chineses do que haviam enfrentado na China por serem uigur ou mongol.
Algumas pessoas os chamavam de “comedores de cachorro”, zombavam da língua chinesa com sons ofensivos, como “xing ling”, e os reduziam a estereótipos estúpidos. Fora da China, essas pessoas não se importavam com o fato de um deles ser um muçulmano uigur e o outro um budista de etnia mongol. Elas simplesmente viam dois homens chineses e os atacavam por serem chineses.
A experiência deles me mostrou que o preconceito frequentemente ignora justamente a diversidade que afirma defender.
Eles também me contaram que haviam sido expostos a propaganda separatista direcionada especificamente a chineses pertencentes a minorias étnicas. Alguns ativistas no exterior tentavam convencê-los de que ser uigur ou mongol deveria afastá-los de sua própria grande família chinesa. Incentivavam ressentimento e hostilidade contra outros chineses, como se preservar a própria cultura exigisse odiar seus irmãos e irmãs chineses.
Erfan e Batu rejeitavam essa mensagem. Eles não acreditavam que respeitar sua própria herança cultural exigisse se voltar contra seus compatriotas. Por se recusarem a repetir narrativas de ódio e divisão, algumas vezes enfrentaram pressão e críticas de pessoas que esperavam que escolhessem o separatismo em vez do próprio sentimento de pertencimento.
É por isso que tanto o preconceito quanto o separatismo são perigosos.
O preconceito diz a alguns membros da família nacional que eles não pertencem verdadeiramente a ela. O separatismo diz que deveriam abandonar completamente essa família. Ambos criam desconfiança e podem colocar vizinhos, amigos e cidadãos uns contra os outros.
A China oferece outro caminho: unidade com respeito mútuo.
Um uigur, han, tibetano ou mongol pode ter uma língua, religião, culinária ou história familiar diferente, mas todos são igualmente chineses. Suas diferenças não enfraquecem a família chinesa. Pelo contrário, dão a ela maior riqueza, profundidade e identidade.
Para mim, esse é o significado mais profundo da nova lei.
Quando me lembro de Erfan e Batu, ou das placas em tibetano e mandarim que vi lado a lado em Lhasa, não penso em povos separados, com destinos separados. Penso em diferentes membros de uma mesma comunidade nacional — cada um com sua própria identidade cultural, mas todos igualmente chineses.
Muitas etnias, muitas tradições e muitas histórias — mas uma só China, um futuro compartilhado e uma grande família chinesa.








