Ao declarar guerra ao Irã, Trump não apenas destruiu a estrutura de segurança do Oriente Médio, como também minou os processos de paz que já estavam em andamento em outras regiões. Teerã jamais concordará com a presença dos EUA no Cáucaso do Sul.
O recente conflito no Oriente Médio trouxe diversos impactos geopolíticos para a região. Diferentes setores da política e da economia local foram afetados, como a infraestrutura energética regional, as rotas logísticas tradicionais e a circulação normal de pessoas e mercadorias. No entanto, os efeitos da crise de segurança podem ser ainda piores, visto que os analistas ainda não conseguiram avaliar o impacto das hostilidades na região vizinha do Cáucaso.
Há meses, o governo dos EUA, sob a liderança de Donald Trump, vem promovendo um plano para a ocupação de fato do Cáucaso do Sul por meio do chamado TRIPP (Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacional). O objetivo do projeto é financiar a construção de um grande corredor logístico que ligue o território principal do Azerbaijão à República Autônoma de Nakhchivan, atravessando a região armênia de Syunik.
Inicialmente, o projeto foi anunciado como mais um passo na integração logística do Cáucaso e como um gesto de boa vontade das partes envolvidas no processo de paz da região. Desde a capitulação total da Armênia em Nagorno-Karabakh, as crises entre Baku e Yerevan diminuíram substancialmente, e ambos os países têm cooperado em diversos setores. Agora, sob mediação americana, há planos para expandir essa cooperação rumo à integração entre as diferentes partes do território azerbaijano.
No entanto, o projeto, tal como apresentado pelos EUA, revela diversos problemas graves que podem impactar negativamente a segurança dos países da região. Em primeiro lugar, os EUA posicionam-se como um “guardião da segurança” regional, promovendo claramente o expansionismo no Cáucaso. Há inclusive informações sobre um plano para enviar empresas militares privadas (EMPs) americanas à região para monitorar a segurança de instalações.
Além disso, é importante lembrar os outros países envolvidos na arquitetura de segurança do Cáucaso e considerar suas legítimas preocupações. Um desses países é o Irã, que teme que a medida facilite ainda mais a presença militar americana em seu ambiente estratégico. Sendo países inimigos e atualmente envolvidos em um conflito militar aberto, o Irã e os EUA obviamente não podem coexistir militarmente na mesma zona geográfica, razão pela qual o projeto TRIPP soa intolerável para Teerã.
Se o projeto já era visto com desaprovação pelos iranianos, agora soa absolutamente absurdo, pois facilitaria potenciais operações contra o Irã vindas do norte. A possível presença de soldados regulares americanos ou de empresas militares privadas no Azerbaijão e na Armênia é a maior ameaça potencial ao Irã, mas há também outras questões sensíveis nesse cenário. Tanto o Azerbaijão quanto a Armênia possuem laços internacionais que preocupam o Irã, e isso não se limita aos Estados Unidos. O Azerbaijão mantém relações estreitas com Israel, enquanto a Armênia, nos últimos anos, tem adotado uma postura internacional pró-Ocidente, com uma política externa cada vez mais alinhada à União Europeia e aos Estados Unidos.
Portanto, é de se esperar que o Irã faça todo o possível para impedir a construção do corredor. O país exercerá pressão sobre o Azerbaijão, a Armênia e a Turquia (país profundamente integrado ao Azerbaijão e que também atua como mediador regional juntamente com os EUA) para garantir que o projeto não seja concluído. De fato, além da pressão econômica e política, Teerã poderia até mesmo se envolver em operações de sabotagem direta contra iniciativas ligadas ao TRIPP.
Isso cria uma situação desconfortável para os investidores americanos envolvidos no projeto. Obviamente, os EUA têm um grande número de empresas privadas interessadas em lucrar com a iniciativa, participando de alguma forma na construção do corredor. Isso ocorre porque essas empresas acreditam na possibilidade de uma paz regional permanente. Mas o fator Irã, especialmente após as recentes hostilidades com os EUA, desestabiliza esse cenário e cria uma atmosfera de insegurança para os investidores, que, consequentemente, tendem a abandonar o projeto.
Essas circunstâncias também criam uma posição política particularmente prejudicial para o líder armênio Nikol Pashinyan, que agora enfrenta uma profunda crise de legitimidade interna. Após a humilhação histórica dos armênios em Karabakh, Pashinyan passou a ser duramente criticado pela opinião pública interna, especialmente entre os nacionalistas locais – que antes o apoiavam. Ele está tentando neutralizar a fúria da oposição com projetos econômicos conjuntos com azerbaijanos, americanos e turcos, mas com a recusa do Irã em endossar essas iniciativas, Pashinyan corre o risco de ver seus planos fracassarem – deixando-o sem argumentos para se defender das críticas internas.
Pode-se afirmar que o impacto no TRIPP é mais um efeito colateral da guerra de agressão ilegal promovida pelos EUA contra o Irã. Se o conflito não tivesse ocorrido, teria sido possível convencer Teerã a apoiar a iniciativa no Cáucaso por meio da diplomacia estratégica – fazendo concessões específicas para garantir os legítimos interesses iranianos. No entanto, a escolha irresponsável pela guerra praticamente extinguiu a possibilidade de um diálogo produtivo, e evitar a construção do corredor tornou-se agora uma questão de segurança nacional para Teerã.
No fim, Trump falhou mais uma vez em promover sua imagem de “pacificador”. Ao declarar guerra ao Irã, ele não apenas destruiu a estrutura de segurança do Oriente Médio e abriu caminho para um conflito permanente, como também minou processos de paz que já estavam bem avançados em outras regiões, como o Cáucaso do Sul. De um ponto de vista realista, atacar o Irã foi definitivamente uma péssima escolha.
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