Se o Islã é, de modo geral, como demonstrou Julius Evola, uma religião de guerreiros, então os persas elevaram a natureza guerreira do Islã até seu ápice de intensidade e refinamento. É fundamentalmente fruto da contribuição persa, por exemplo, a elaboração formal da futuwwah, a “ética da cavalaria” islâmica, análoga e dialógica em relação à cavalaria europeia cristã.
Na essência guerreira do Islã jaz o conceito de jihad, constantemente distorcido e falsificado por propagandistas ocidentais, e usurpado por salafistas vulgares. A jihad, conceitualmente, é uma metáfora militar utilizada para designar o esforço espiritual. O fiel, no caminho do sagrado, entra em guerra com o pecado, com seus demônios interiores, com os desejos, os vícios, etc. O Anticristo, o Dajjal, jaz no interior de cada homem. Ele também é, obviamente, uma personalidade escatológica, exterior, mas o fiel trava a sua jihad, fundamentalmente, contra o Dajjal que habita o coração de todo homem. É por isso que o Islã é, de fato, uma religião de guerra total e permanente, mas essa guerra é travada fundamentalmente pelo espírito do fiel contra, em primeiro lugar, o ego, assento da cegueira espiritual.
A jihad exterior é o reflexo menor e imperfeito, mas ocasionalmente necessário (se legítimo) da jihad interior travada contra o Dajjal e sua influência sutil.
Nesse sentido, Ali Hossein Khamenei foi um guerreiro completo, um autêntico cavaleiro islâmico persa engajado numa guerra permanente contra o Dajjal interior e o Dajjal exterior.
Educado na teologia, filosofia e mística islâmica, Khamenei se apoiava no pensamento de Mulá Sadra, e através da lente de Sadra, responsável pelo renascimento cultural-religioso persa no século XVII, acessava a metafísica da iluminação de Suhrawardi, o neoplatonismo de Al-Farabi, etc. Mas Khamenei era, também, um poeta (inclusive clandestinamente, com pseudônimo) e um amante do idioma persa. Uma vez, num laivo heideggeriano, ele disse que “a poesia deve ser a vanguarda da caravana da revolução”. Em outras palavras, a Revolução como refundação do modo de um povo específico se relacionar com o Ser poderia instaurar-se com a poesia como sua principal ferramenta.
As palavras e textos de Khamenei expressavam uma alma sensível, romântica, poética e eminentemente pacífica – e isso não está em contradição sobre o que eu já disse antes, sobre Khamenei ter sido um guerreiro completo.
Em primeiro lugar, Khamenei conheceu o horror da guerra exterior em primeira mão, na luta contra o Iraque, onde Khamenei não apenas liderou politicamente o país, mas dirigiu operações militares a partir da linha de frente. Ele conheceu, também, o horror da guerra terrorista, tendo sido vítima de uma bomba plantada pelos comunistas pró-Ocidente do MeK que o deixou deficiente.
Precisamente por isso, talvez, Khamenei enquanto Líder Supremo sempre tenha preferido a negociação, o diálogo e o desarmamento à guerra. Enquanto ele conduzia seu povo para travar a jihad interior, bem como as múltiplas jihads políticas e culturais contra a miríade de tentações, ilusões e vícios que cercavam o Irã, no plano externo pregava a desnuclearização e o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear.
Enfim, a coroa suprema da jihad é o martírio, a mors triumphalis que apenas os mui abençoados podem alcançar como supremo testemunho de coragem pessoal e desprendimento em relação às potências da matéria.
E em imitação ao Imam Ali, em pleno Ramadã, o Aiatolá Khamenei conscientemente foi martirizado pelas chamas, alcançando o objetivo supremo de todo autêntico místico islâmico. Foi uma escolha objetiva. Alertado pela inteligência de um ataque inevitável das forças do Dajjal exterior (EUA e Israel), as autoridades iranianas insistiram para que Khamenei fosse levado a um bunker, o que ele recusou peremptoriamente.
Sabendo da inevitabilidade de um confronto, Khamenei decidiu pelo próprio martírio como um sacrifício necessário para deflagrar a jihad exterior e oferecer ao seu povo não apenas o exemplo de conduta, mas a plena justificação de sua causa.
Assim, concluiu-se em glória e honra o percurso apoteótico de Ali Hussein Khamenei, Suprema Autoridade da República Islâmica do Irã, efígie contemporânea do rei-filósofo.








