As ruas venezuelanas desmentem a “popularidade esmagadora” de González

Convenhamos que se o González tivesse realmente vencido com 80% (!) dos votos, como estavam anunciando na internet, nem mesmo com militares nas ruas seria possível impedir uma onda de comemoração popular pelo sequestro do Maduro.

Mesmo que os militares reprimissem depois, no primeiro dia certamente haveria tentativas de organizar comemorações em massa, ou haveria mesmo erupções espontâneas de alegria e de “sentimento de libertação”.

Vejam que o Irã é um país com estruturas de poder bem mais consolidadas e, ainda assim, ocasionalmente estouram protestos que a polícia tem algum trabalho pra reprimir. Agora mesmo, há aproximadamente 1 semana e meia têm havido protestos diários. As estatísticas dão conta de que, em cada manifestação, não passam de umas poucas centenas, e ainda assim a polícia leva um tempo pra conter.

Imaginem se os opositores do “regime chavista” na Venezuela fossem, realmente, mais de 20 milhões como estavam tentando nos convencer.

A realidade é que mesmo Trump e Rubio já descartaram isso com base na falta de apoio institucional e popular do González e Corina. Em outras palavras, é como se fosse uma admissão de que ninguém crê, realmente, na vitória “avassaladora” do González nas eleições.

Em alguma medida, o timing do sequestro é ruim para a oposição venezuelana porque todos os índices internos do país têm melhorado desde a pandemia. Inflação caiu de 1.700.000% pra 85%, IDH voltou a crescer, saindo de 0.660 para 0.705, taxa de desemprego caiu de 33% pra 6%, crescimento do PIB de 6.5% (de 9% apenas no terceiro trimestre) e assim por diante. A Venezuela está, de fato, em uma maré de recuperação que vem já de 4 anos ininterruptos.

Talvez isso explique a cautela inclusive daqueles venezuelanos que votaram no González.

Com a situação melhorando pelo menos um pouco, o humor interno se afastou da busca por mudanças radicais e, provavelmente, o governo dos EUA – na medida em que viu que não houve levante, não houve ruptura entre facções do governo – entendeu e aceitou o status quo. Trump, inclusive, atribuiu o “milagre econômico” venezuelano à Delcy Rodríguez, presidente interina com quem Washington estaria negociando.

Em parte é verdade. A Rodríguez desempenhava inúmeras funções no governo venezuelano, inclusive junto à PDVSA. Mas também é verdade que tudo isso se deu sob a condução e com decisões do Nicolás Maduro.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 54

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