Aleksandr Dugin e Oswald Spengler são dois dos maiores críticos do Ocidente. As suas visões são díspares, mas complementares.


Estamos a apodrecer. Mas na podridão, algo diferente se insinua. Oswald Spengler olhava para a Europa e via uma velha senhora, os lábios pintados para esconder as fissuras. Aleksandr Dugin olha para o mundo e vê um campo de batalha, linhas traçadas em sangue. O homem faustiano, aquele que vai além, o construtor de catedrais, o engenheiro do apocalipse — ele construiu demais, foi longe demais, e agora está se afogando no próprio oceano que buscava conquistar. O que resta? Uma nova guerra, não apenas uma guerra das nações, mas uma guerra dentro do próprio Ser. A Quarta Teoria Política não chora pelo Ocidente como fez Spengler. Ela ri. Afia sua faca. Declara as velhas ideologias mortas e joga seus cadáveres na lama. Chama por algo novo, algo que vai além do liberalismo, do comunismo, do fascismo — um retorno, mas não à tradição como peça de museu. À tradição como arma.
Spengler sabia. Ele sabia que as civilizações, como os homens, envelhecem, enfraquecem, desmoronam sob seu próprio peso. Mas o que acontece quando um velho se recusa a morrer? Olhe para a Europa: um continente no estágio final da consumação, que assobia slogans vazios evocando “democracia” e “direitos humanos” enquanto suas cidades queimam e suas fronteiras se dissolvem. O homem faustiano, preso em sua própria criação, incapaz de se libertar, agarrando-se ao sonho de um progresso eterno enquanto afunda no vazio. Mas Dugin não fala de declínio, ele fala de guerra. A era dos Césares de Spengler, não como um fenômeno que pede um lamento, mas como um fenômeno que exige uma profecia. Os grandes homens voltarão, mas não serão europeus. A Europa esqueceu como gerar conquistadores. Os novos Césares virão de outro lugar, de civilizações ainda jovens o suficiente para acreditar no destino.
Pseudomorfose: a bela palavra de Spengler para designar o sufocamento de uma jovem civilização pelo cadáver de uma antiga. A Europa estrangulou a Rússia por séculos, forçando-a a vestir suas roupas, a falar sua língua, a fingir ser o que não era. Mas a Rússia nunca foi faustiana. Ela nunca precisou ser. A Terceira Roma sempre esperou, esperou sua hora, observou a Europa se dilacerar no altar de seu orgulho. E agora? A pseudomorfose racha, se fissura. A Rússia se livra de sua pele ocidental, volta-se para suas próprias raízes — eurasianas, ortodoxas, nascidas nas estepes. É isso que Dugin compreende: a Rússia é jovem. A Rússia tem fome. Ela não respeita as regras da ordem antiga e moribunda. Ela constrói uma nova, com a espada na mão, onde o Ocidente outrora conduzia sua corte com caneta e papel, hoje afogado em sua própria tinta.
E a América? Um colosso, sim, mas construído sobre ar. Uma experiência faustiana tardia, toda de tecnocracia e velocidade, mas sem alma. A Quarta Teoria Política não se curva a ela. A visão de Dugin não é americana, nem globalista, nem universal. Spengler via a América como a extensão inevitável da vontade de poder faustiana: o capitalismo como metafísica, a publicidade como filosofia, a máquina como deus. Dugin vê algo diferente — um império que se esqueceu, que nem sabe que é um império, devorando a si mesmo em um sonho febril de decadência liberal. O César americano virá, mas herdará apenas cinzas.
A Europa já foi bela. Sua tragédia é que nunca soube parar. A alma faustiana estava destinada a criar, a construir, a se expandir, mas sempre houve um preço a pagar. Spengler viu isso: a expansão infinita, a ambição infinita, o sonho do ilimitado — até que o sonho se quebra e os construtores se tornam invasores de suas próprias ruínas. O lado negativo do espírito faustiano é sua recusa em aceitar limites, em saber quando morrer. É assim que ele persiste, mecanizado, burocratizado, automatizado, governado por homens que não têm passado nem futuro, apenas o zumbido entediante da administração. A pós-modernidade é apenas outra palavra para a rigidez cadavérica.
Mas o Ocidente ainda tem poder. O ciclo de Spengler ainda não terminou, e mesmo na decadência há momentos de terrível beleza. Os últimos guerreiros da ordem antiga — aqueles que se lembram, que ainda têm fogo no sangue — observam, esperam. A era dos Césares não será suave. O homem faustiano, mesmo em sua queda, se desencadeará. Dugin não acredita na sobrevivência do Ocidente, mas acredita em sua capacidade de lutar, de se desencadear mesmo ao cair. A questão é quem manejará essa fúria. Os globalistas, os gerentes, os covardes que venderam sua herança por conforto? Ou aqueles que ainda ouvem o eco distante dos campanários góticos, os hinos da batalha, o rugido de algo primitivo e esquecido?
A multipolaridade não é apenas uma realidade política. É uma mudança metafísica. Spengler sugeriu isso, Dugin o proclama. A era de uma civilização dominando todas as outras acabou. O homem faustiano queria o mundo inteiro, mas o mundo não o quer mais. A China se ergue, ilesa, não afetada pela doença do Ocidente. O Islã se lembra. A Índia acorda. A Rússia ruge. Este mundo não é o das valores universais, dos direitos humanos, da democracia no sentido ocidental. É um mundo de civilizações, de destino, de vontade. O Ocidente faustiano é apenas mais um ator no palco, não mais o diretor.
E, no entanto, alguns não aceitam isso. Os fantasmas do império persistem. O velho mundo se agarra a seus mitos, recusando-se a ver que o vento já mudou. A OTAN se expande, as sanções se acumulam cada vez mais, uma torre de despeito frágil que desmorona à medida que se eleva, mas nada disso detém o lento desgaste. Os líderes europeus são sonâmbulos. O mundo que governam é uma ficção. Spengler os viu chegar — a classe burocrática, os papeleiros, os funcionários encarregados de uma civilização moribunda. Eles confundem sua posição com poder. O verdadeiro poder está em outro lugar, movendo-se para o leste, para o sul, para aqueles que ainda acreditam em algo maior do que crescimento econômico e arcabouços jurídicos.
Dugin e Spengler, portanto, não se opõem. Eles são os lados de uma mesma visão: a morte do antigo e o nascimento do novo. Spengler lamentou. Dugin não lamenta. Ele se prepara. A Quarta Teoria Política não busca reviver o Ocidente. Ela busca substituí-lo. Por quê? Isso não está claro, mas clareza é para tempos de paz. A hora é de batalha, de guerra, não apenas nas ruas da Ucrânia, de Gaza ou da próxima frente, mas na mente, na alma, no próprio tecido da civilização.
Estamos apodrecendo. Mas nessa podridão, algo diferente se insinua. O Ocidente está morrendo, mas não morre tranquilamente. Ele se desencadeia, luta, recusa-se a aceitar seu destino. Spengler nos diz que isso é inevitável. Dugin nos diz para escolher um lado. A única questão que resta é: quem segurará a faca?
Fonte: Eurosiberia