A Geopolítica Da Guerra Entre O Ansarullah E Israel

Enquanto a Resistência Palestina trava uma clássica guerra de guerrilha urbana contra a IDF e o Hezbollah empreende ações diversionistas no norte de Israel, com a finalidade de fixar parte das forças israelenses e desgastá-las, o Ansarullah iemenita (popularmente chamado de “houthis”) deve ser considerado como a força do Eixo da Resistência que tem desferido os golpes mais mortais ao Estado sionista.

E não por causa dos mísseis esporadicamente disparados pelos iemenitas na direção israelense – mas por causa da captura de 3 navios cargueiros e o ataque com drones a mais 1 navio cargueiro, todos essas operações realizadas tirando-se proveito do Bab-el-Mandeb, o Portão das Lágrimas, um dos pontos mais importantes para o comércio mundial.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Ansarullah, de fato, entende a geopolítica clássica.

Alfred Mahan, o oficial naval estadunidense considerado pai da geopolítica talassocrática, considerava que para que uma nação se elevasse a um status hegemônico ela deveria controlar as vias marítimas e os fluxos que fazem uso dessas vias.

Como um talassocrata típico, que considerava o comércio o centro da política, Mahan considerava que a função das Forças Armadas era servir à projeção econômica e comercial do Estado em sua busca por galgar os degraus do poder mundial.

Vendo os mares como “bens comuns”, ele afirmava o caráter estratégico do controle sobre pontos de estrangulamento por meio de bases navais e de uma grande marinha em atividade constante para, controlando rotas comerciais e linhas de comunicação, “privatizar” os mares.

Esses “pontos de estrangulamento” em questão seriam os estreitos, canais e cabos do mundo.

A lista é variável, mas a maioria considera que há 8 pontos de estrangulamento primários (Panamá, Suez, Gibraltar, Hormuz, Málaca, Bósforo/Dardanelos, Boa Esperança e Bab-el-Mandeb) e 7 pontos secundários (Tartária, Bering, Dover, Horn/Magalhães, Coreia, Skagerrak, Torres).

Bab-el-Mandeb, juridicamente sob controle do Iêmen e do Djibuti, é o estreito que ligando o Mar Vermelho ao Oceano Índico, representa o principal elo marítimo entre o Mediterrâneo (e, portanto, a Europa) e a Ásia. O Estreito adquiriu esse status apenas após a abertura do Canal de Suez no século XIX, de modo que é impossível dissociar Suez e Bab-el-Mandeb. Problemas em uma das pontas do Mar Vermelho afetam drasticamente os fluxos da outra ponta.

50 milhões de toneladas de produtos agrícolas e quase 2 bilhões de barris de petróleo passam pelo Portão das Lágrimas todos os anos, o que dá uns 10% de todo o comércio naval de petróleo e derivados. A região também tem a sua importância no comércio de gás natural liquefeito, estando na passagem de também 10% do comércio mundial de GNL. A importância do Estreito para o GNL, aliás, tenderia a aumentar por causa da Guerra da Ucrânia.

Veja-se que não foi casual que a primeira base militar estadunidense no exterior foi posicionada precisamente no Djibuti.

Mas se Bab-el-Mandeb é relevante para a China, o é ainda mais para Israel.

98% do comércio internacional israelense, tanto exportação quanto importação, se dá pelo mar. Apesar de Israel ter um porto diretamente no Mar Vermelho, em Eilat, como ele está longe do centro do país e não é ligado ao resto de Israel por ferrovias, é pouco usado. A maior parte do comércio asiático de Israel ainda passa pelo Canal de Suez.

E não é pouca coisa, já que aproximadamente 30% do comércio internacional israelense envolve os países asiáticos e todo esse comércio passa por Bab-el-Mandeb.

Israel já era consciente desses riscos. Por isso que os Acordos de Abraão envolviam a cooperação militar entre Israel e EAU para garantir a Israel a possibilidade de construir bases militares no Mar Vermelho ou de usar a Base Naval de Assab, usada pelos EAU na intervenção militar contra o Iêmen. Os EAU, recorde-se, são inimigos do Irã mais até do que a Arábia Saudita e são também o país árabe que menos se pronunciou favoravelmente à Palestina no conflito atual.

O cargueiro atacado em 19 de novembro, o Galaxy Leader, pertencia à Ray Shipping, especializada em transporte de carros. A Ray Shipping pertence a Abraham Ungar, o 22º homem mais rico de Israel.

O navio atacado com drone em 24 de novembro e o capturado hoje pertenciam a membros da família Ofer, o de 24 pertence à Eastern Pacific Shipping, de Eyal Ofer, e o de hoje pertence à Zodiac Maritime, de Idan Ofer. Eyal Ofer é o 3º homem mais rico de Israel, Idan é o 9º.

O ataque do dia 25 de novembro, por sua vez, foi a captura de um navio da Zim, que também pertence à família Ofer.

Ou seja, os alvos do Ansarullah são o comércio israelense e os meios de vida dos bilionários israelenses. Com 3 navios capturados, os preços de seguros vão disparar, especialmente para navios israelenses.

Israel, por sua vez, terá que circum-navegar a África para alcançar os mercados asiáticos e receber deles suas importações.

Somando-se com os outros custos e prejuízos da guerra, quanto tempo a economia israelense consegue aguentar esses prejuízos?

Fonte: Geopolitica.ru.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 53

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