Trinta dias desde o motim do Grupo Wagner: o que sabemos até aqui?

Um mês após os eventos do “longo 24 de Junho”, as perguntas, análises e desinformação ainda estão abundantes. O que realmente levou ao motim dos “músicos”? Foi uma psyop? Qual o futuro dos “músicos”? Lucas Leiroz comenta neste artigo sobre o motim, seus antecedentes e o que se seguiu posteriormente.

Introdução

Entre 23 e 24 de junho de 2023, a empresa militar privada russa “Grupo Wagner” protagonizou um dos momentos mais controversos da história recente da Federação Russa. Começando uma alegada “Marcha da Justiça”, o empresário Evgeny Prigozhin anunciou que 25.000 “músicos” estariam rumando para a capital Moscou com o objetivo de remover Sergey Shoigu da liderança do Ministério da Defesa. Contudo, o movimento terminou pacificamente após o presidente da República de Belarus, Aleksandr Lukashenko, mediar um acordo entre o governo e os “revoltosos”, estabelecendo, dentre outras coisas, anistia dos amotinados e transferência parcial das tropas do Wagner para o território bielorrusso.

Um mês após os eventos, ainda abundam perguntas, análises e, acima de tudo, desinformação. A máquina de info-guerra do Ocidente trabalhou intensamente para tirar proveito das agitações na Rússia, se precipitando em diversas previsões. Mesmo durando menos de vinte e quatro horas, as agitações de Prigozhin foram alvo de todo tipo de julgamento apressado, dentre os quais figuraram “golpe de Estado” e “guerra civil”. Nos dias que se seguiram, não foi diferente. Tentando obter vantagem com o episódio de alguma forma, a mídia corporativa americana lançou uma série de narrativas, algumas das quais frontalmente contraditórias e excludentes.

Por exemplo, até agora, os veículos de mídia ocidentais não conseguiram chegar a um consenso sobre o tópico da “informação prévia”. Alguns jornais americanos reportam a opinião de fontes ligadas à inteligência e apontam que o motim já era “previsto”. Outros jornais, contudo, apontam no sentido oposto e alegam que não havia como prever o episódio, sendo absolutamente único, sem precedentes e inusitado.

Por parte da mídia russa e pró-russa, tampouco há consenso analítico. Duas hipóteses fortemente antagônicas figuram nos polos extremos destes meios: uma aponta a possibilidade de uma “psyop” (operação psicológica) para levantar uma “cortina de fumaça” que viabilizaria o trânsito de tropas e possíveis mudanças institucionais por trás da distração em massa; a outra aponta para a literal e acrítica crença na hipótese de traição por parte de Prigozhin, classificando o motim como uma “revolta abortada”. Enquanto esta tese é defendida por parte da mídia estatal, a primeira é mais comum entre canais alternativos e independentes. À parte da questão informacional, os resultados concretos do motim parecem igualmente ambíguos e inconclusivos. Tamanha a variedade das consequências das agitações que parece haver argumentos e evidências para quase todas as hipóteses levantadas pelos analistas. E, justamente para enumerar e avaliar estas possibilidades, fazemos aqui um pequeno balanço do que realmente “sabemos” após estes primeiros trinta dias desde o “24 de junho” na Rússia.

Membros do Grupo Wagner em Rostov-on-Don, Rússia, entre 23 e 24 de junho de 2023.
Fotografia: Roman Romokhov/AFP/Getty Images (The Guardian)

O que mudou na Rússia?

Nos primeiros momentos do motim, criou-se grandes expectativas de que mudanças colossais aconteceriam no cenário doméstico da Federação Russa como consequência das movimentações. Analistas pró-Ocidente se entusiasmaram em dizer que a Rússia estaria perto de um “colapso” político, enquanto analistas mais realistas afirmaram que as manobras poderiam favorecer um “fechamento de regime” por parte de Vladimir Putin com a escusa de neutralizar possíveis ameaças. Contudo, nenhum dos dois cenários se verificou na prática.  

Apesar de impor uma operação antiterrorista, Putin não decretou Estado de sítio, não expandiu a zona de lei marcial e nem mudou a situação legal-institucional do governo de qualquer maneira. Pelo contrário, nos dias que se seguiram ao episódio, houve grande ar de “normalidade” na Rússia, não parecendo haver maiores efeitos decorrentes dos protestos liderados por Prigozhin.

Em paralelo, alguns fatos chamam atenção. Putin saiu, sem dúvidas, fortalecido dos eventos. Sua popularidade aumentou entre os cidadãos e a lealdade das instituições ao governo se mostrou sólida e firme. A capacidade do presidente russo – em parceria com seu principal aliado e líder do Estado da União, Aleksandr Lukashenko – de resolver a crise sem gerar caos e derramamento de sangue foi aplaudida pela população e pelos oficiais de Estado, aumentando o poder e a aprovação do líder russo.

Quanto às mudanças institucionais reivindicas pela PMC Wagner, tampouco houve movimentações públicas, ainda que haja fortes rumores entre insiders, especialistas e jornalistas indicando determinadas modificações no Ministério da Defesa. Acredita-se que tenham sido operadas, longe dos olhos da opinião pública, mudanças estratégicas de pessoal no Ministério, de modo a atender a determinadas reivindicações do Wagner. Reportes não-verificados em canais relevantes nas mídias sociais indicam que estas supostas mudanças teriam ocorrido para simultaneamente diminuir o poder de decisão do Ministro da Defesa Sergey Shoigu e do Chefe de Estado-Maior e comandante da operação militar especial, General Gerasimov, distribuindo a capacidade decisória entre outras figuras relevantes afastadas dos holofotes midiáticos.

Aliás, pontos que justificam estes rumores são as mudanças de comportamento por parte da Rússia na zona de operação, principalmente em questão das retaliações às incursões ucranianas ao território desmilitarizado da Federação. Uma marca da gestão Gerasimov até agora havia sido a inércia diante de provocações inimigas dentro das áreas não-reivindicadas por Kiev, conforme se viu na quase ausência de resposta russa para os ataques ucranianos em Belgorod e Byransk. Isso parece ter mudado radicalmente desde o motim do Wagner, visto que Moscou tem retaliado incisivamente pelos bombardeios ucranianos na Crimeia, promovendo ataques de mísseis em Odessa e outras partes do país. Ou seja, houve uma mudança de atitude na forma como a Rússia lida com a operação, possivelmente relacionada a trâmites no Ministério da Defesa ocorridos fora dos olhos da mídia.

No que concerne aos oblasts reintegrados sob lei marcial e à toda a zona de conflito sob controle russo, também foram notadas poucas mudanças, estando as tropas russas – incluindo ainda muitas fileiras da PMC Wagner – atuando em normalidade. Conforme decidido no acordo mediado por Lukashenko, os “Músicos” que não participaram do motim receberam oferta de contrato com o Ministério da Defesa e a Guarda Nacional. Não se sabe ao certo ainda o número de “Wagneritas” integrados a estas instituições, mas há, por exemplo, rumores de que o próprio “Wagner”, o ex-spetsnaz Dmitry Utkin, cofundador da PMC, teria assinado contrato com o Ministério.

Por fim, é preciso dizer que os ares de normalidade e calmaria na Rússia foram reforçados principalmente a partir do começo de julho, quando foi revelado pelo governo que Vladimir Putin e Evgeny Prigozhin haviam se encontrado pessoalmente em uma reunião amigável em Moscou apenas cinco dias após os eventos, mostrando que de fato não havia ressentimento, revanchismo ou disputa entre ambos os líderes e que a PMC Wagner permanece integrada à sociedade russa, tal qual antes do motim.

Neste sentido, cabe também ressaltar a recente notícia da prisão de Ivan Girkin, mais conhecido pelo codinome “Strelkov”, um herói de guerra da Federação Russa e ex-Ministro da Defesa da República Popular de Donetsk, que mais recentemente havia se tornado um crítico ferrenho de praticamente todos os setores políticos da Rússia, acusando Vladimir Putin de incompetência e “fraqueza” na gestão da operação. Autuado por incitação ao extremismo devido ao tom ácido de suas críticas, Strelkov foi detido pelo FSB (serviço de contrainteligência russo) no dia 21 de julho. Ocorre, porém, que vários meios de comunicação informam que sua prisão teria sido solicitada pelo Grupo Wagner, o que encerra uma série de dúvidas quanto à inserção institucional da PMC após o motim, já que aparentemente a empresa segue cooperando firmemente com as forças de segurança russas.

Igor Girkin, também conhecido como Igor Strelkov. 
Fotografia: Maxim Shemetov/Reuters (The Guardian)

O que mudou fora da Rússia?

Fora do território da Federação Russa, contudo, algumas mudanças foram notadas. A principal e mais relevante de todas é a chegada das tropas do Wagner ao território da República de Belarus. Anunciada ainda no dia 24 de junho, a ida dos “Músicos” para Belarus continuou ocorrendo de forma massiva nos dias que se seguiram ao fim do motim, estando aparentemente ainda em andamento. Foi anunciado pelo governo bielorrusso que a empresa russa está treinando as tropas do Ministério da Defesa de Belarus, transmitindo aos soldados do país suas experiências de combate real no front ucraniano e preparando-os para uma eventual situação de conflito – já que Minsk prevê provocações partindo da Polônia no futuro próximo.

Aliás, no que concerne ao tema da Polônia, muitas nuances são dignas de nota. Em seu mais recente encontro com Putin, Lukashenko afirmou que os “Wagneritas” estariam querendo “marchar sobre Varsóvia”, pressionando o governo bielorrusso para autorizá-los a entrar em território polonês – o que ele supostamente estaria impedindo. As palavras de Lukashenko surgem em meio a um contexto de tensões crescentes com a Polônia, onde acredita-se que Varsóvia tomará decisões militares individuais e independentes da OTAN, enviando tropas para Belarus ou para a Ucrânia. É possível que as falas de Lukashenko tenham por objetivo uma dissuasão contra o governo polonês.

No que se refere às tropas do Wagner espalhadas ao redor do mundo, principalmente no continente africano, é possível de dizer forma categórica que não houve qualquer mudança. As forças do Wagner continuam atuando nas mesmas zonas de conflito que atuavam antes, estando altamente envolvidas em esquemas de segurança de instalações estratégicas na África.

Aliás, na segunda semana de julho, foi anunciada uma grande operação de resgate feita pelo Grupo Wagner, na qual doze mineradores chineses teriam sido salvos pelos combatentes russos de uma emboscada organizada por terroristas locais na República Centro-Africana – país em situação de conflito civil, com forte presença de gangues extremistas e onde há volumosa atuação do Grupo Wagner em cooperação com as forças do governo. O caso serviu para mostrar a situação de normalidade operacional e institucional do Wagner na África ao longo do período “pós-motim”.

Grupo Wagner pousando para foto com mineradores chineses resgatados na República Centro Africana em 12 de julho de 2023.
Fotografia: Grupo Wagner.

Grupo Wagner, GRU, Putin e Shoigu: algumas considerações necessárias

Considerando as mudanças expostas acima, cabe não apenas analisar os efeitos do motim, mas também, trinta dias depois, repensar suas razões e relacioná-las com a realidade atual e histórica das forças de segurança russas, visando entender melhor a correspondência entre os diferentes fatores.

Pois bem, Prigozhin iniciou sua marcha alegando que forças do Exército russo teriam disparado contra tropas do Wagner na zona da operação militar especial, o que nunca foi realmente comprovado ou esclarecido. Tampouco foi esclarecida a alegação inicial de que aviadores russos teriam sido abatidos durante o motim, já que, segundo porta-vozes do governo em pronunciamentos após a resolução da crise, não teriam ocorrido baixas no imbróglio.

Como motivo evidente da revolta há também a questão do Decreto do Ministério da Defesa de 10 de junho de 2013, obrigando todas as milícias, batalhões voluntários e PMCs a regularizarem sua situação institucional junto às Forças Armadas. Prigozhin já havia deixado claro que não aceitaria se submeter à jurisdição de Shoigu e Gerasimov – e de fato não aceitou, iniciando um motim.

Contudo, para analisar o Wagner é preciso levar em conta nuances que estão mantidas fora do holofote institucional. Está mais do que claro para diversos especialistas que, ainda que formalmente seja uma empresa militar privada, o Grupo Wagner é marcado por uma série de peculiaridades que o distanciam do restante do universo das PMCs. Não por acaso, a pesquisadora americana Kimberly Marten, professora da Universidade de Columbia e uma das maiores observadoras da PMC russa no mundo, afirma:

“Many call the Wagner Group “mercenary,” but its members are not true mercenaries, either. While they do fight for money on contract, the group is fiercely patriotic. It works only in situations where it believes it is acting on behalf of the Russian state (…) Especially given the opaque relationship between business, government, Putin’s personal friends, and the law in Russia, we should probably not think of the Wagner Group as being a typical private firm. A better term for it, rather than a PMC or mercenary outfit, might be an informal semi-state security group” – (Marten, 2020, p. 7).

Em verdade, a nomenclatura “força semi-estatal” parece interessante para compreender a real natureza do Grupo, pois também abre brechas para adentrar a outro tópico comumente esquecido pelos analistas: a relação íntima de cooperação entre o Wagner e o GRU (serviço de inteligência militar russo, vinculado ao Ministério da Defesa). Desde suas origens, a PMC está conectada à inteligência militar russa em diversos graus. Não apenas seu cofundador e líder militar, Dmitry Utkin, foi um spetsnaz do GRU no passado, como também diversos outros membros importantes da empresa, principalmente em seus primeiros anos, eram egressos das fileiras de forças especiais do GRU. Além disso, os campos de treinamento do Grupo Wagner são compartilhados com as tropas spetsnaz do GRU, o que realça a afinidade entre ambos.

Em artigo sobre o motim para a mídia italiana, Giorgio Cattaneo chegou a afirmar que o “Wagner é uma costela do GRU, uma de suas criaturas”. Isso traz uma série de esclarecimentos para o que “realmente” é o Wagner, elucidando, por exemplo, a natureza ideologizada e patriótica dos “Wagneritas” apontada por Marten. Com suas origens remontando ao Império Russo durante as Guerras Napoleônicas, o GRU é o resultado de mais de dois séculos de desenvolvimento dos setores mais radicais, patrióticos e institucionalmente leais da Rússia em todas as suas fases históricas desde então, passando pelo fim da monarquia, pela ascensão e queda do comunismo e culminando na atual Federação Russa. Então, não é de se espantar que o Wagner, enquanto “criatura” do GRU, atue de forma igualmente leal e fanatizada.

Embora em um primeiro momento o fator “lealdade” aparentemente confronte a ideia de um “motim”, é preciso estar atento para perspectivas mais profundas e complexas. Deve-se questionar em que medida houve realmente uma “revolta” por parte de Prigozhin isoladamente. Há de se levar em conta que o GRU é vinculado ao Ministério da Defesa, logo, se as alegações expostas por especialistas sobre uma comunhão de ação e pensamento entre Wagner e GRU estiverem certas, então é possível especular que o motim de Prigozhin tenha sido uma expressão de revolta não apenas do Wagner, mas também de determinados setores do próprio Ministério da Defesa, que estariam insatisfeitos com a gestão Shoigu-Gerasimov.

Há algumas evidências que falam em favor desta hipótese, como a ausência de resistência militar relevante ao motim. Além disso, é preciso refletir sobre o real impacto do Decreto de 10 de junho nas decisões de Prigozhin. Em tese, o Grupo Wagner já “não deveria” existir desde antes mesmo de sua fundação, considerando que empresas militares privadas são banidas pelo Artigo 359 do Código Penal da Federação Russa, de 1996. Logo, embora haja clara correspondência entre o motim e o decreto ministerial de junho, deve-se questionar se isso teria sido realmente razão suficiente para lançar a marcha – ou se, na verdade, as manobras estariam conectadas a outras circunstâncias do universo da defesa e da inteligência russas.

Além disso, há de se levar em conta outros fatores, como, por exemplo, a relação de amizade extremamente próxima entre Evgeny Prigozhin e Vladimir Putin. Prigozhin figura entre os personagens do círculo interno do presidente russo – aqueles oriundos da cidade de São Petersburgo, onde Putin nasceu, cresceu e começou sua carreira política. Cozinheiro de origem humilde e ex-presidiário, Prigozhin não construiu um império econômico e militar a partir “do nada”. Sua relação de amizade com o jovem Vladimir Putin lhe rendeu contatos e inserções sociais que foram gradativamente se convertendo em poder real. De simples cozinheiro, Prigozhin se tornou chefe de toda a rede de abastecimento alimentar das principais instituições do Estado russo. E foi também o parceiro de confiança escolhido pelo presidente para administrar os negócios de uma PMC vinculada à inteligência quando se tornou necessário criar tal empresa – a partir do começo das hostilidades do Donbass.

Mesmo que se assuma que eventualmente as relações entre Prigozhin e Putin tenham se degenerado no contexto da guerra – o que não parece ser verídico -, é difícil imaginar que teria ocorrido repentinamente uma queda tão grande de um personagem leal e próximo ao presidente para um organizador de uma revolta armada que colocaria em risco a estabilidade social e política da Federação Russa. Tudo se torna ainda mais intrigante quando, apenas cinco dias após o fim da “revolta”, ambos se encontram novamente de forma amigável. Há um vácuo informacional que não está preenchido – e certamente nunca estará -, mas que pode ser lido à luz das informações expostas acima.

Yevgeny Prigozhin (à esquerda) auxilia o então primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, durante um jantar com acadêmicos e jornalistas estrangeiros no restaurante Cheval Blanc, nas instalações de um complexo equestre nos arredores de Moscou, em 11 de novembro de 2011.
Fotografia: REUTERS/Misha Japaridze/Pool

Ademais, há uma clara distinção entre Prigozhin e o próprio Shoigu no que concerne à confiança de Putin. Se Prigozhin é um cidadão de São Petersburgo, que tem a confiança do Presidente em razão de uma amizade histórica, Shoigu surge em sentido contrário e não corresponde em nada a estas características. Vindo de longe, da província de Tuva, Shoigu tem uma história pessoal de ascensão bastante obscura. De mero funcionário público provinciano, galgou posições maiores de forma bastante acelerada, alcançando o cargo de chefe de um Ministério criado especialmente para ele – a saber, o Ministério de Situações Emergenciais, que não existia antes de Iéltsin dá-lo a Shoigu. Muito próximo ao oligarca Boris Berezovsky e a outras figuras do “Estado profundo” da Rússia, Shoigu pode ser lido como um verdadeiro burocrata, talvez até mesmo um “oportunista” – não em sentido pejorativo -, fruto de uma época de desmantelamento e recriação do Estado russo – processo típico do período pós-soviético -, onde determinadas figuras, por contatos e amizades estratégicas, escalaram repentinamente posições altas na hierarquia estatal, se comprometendo com interesses privados diversos.

A própria chegada de Shoigu ao Ministério da Defesa é um tema muito debatido, já que Sergey nunca serviu nas Forças Armadas nem jamais demonstrou aptidão militar. Sua índole de burocrata habilidoso e sua popularidade moderada adquirida na gestão das Situações Emergenciais favoreceram que seu nome fosse indicado para a Defesa da Rússia em um momento delicado para a imagem institucional do país. Ele substituiu o antigo Ministro Anatoly Serdyukov, que, à parte de qualquer mérito ou crítica de sua gestão, deixou o cargo após exposição pública de casos de adultério e escândalos familiares. Shoigu não chega ao Ministério como um militar recomendado, já que nunca teve tal experiência, mas como um burocrata hábil para resolver um problema grave de caos institucional.

É certo que com o passar do tempo as relações entre Shoigu e Putin cristalizaram de forma positiva, já que eram poucas as críticas possíveis à sua gestão até o início da operação militar especial. É muito especulado pela mídia que Putin e Shoigu estejam se afastando há meses, em verdadeiro estado de cisão. O fato de Shoigu ter sido completamente excluído do debate público sobre o motim do Wagner, permanecendo ausente por dias e agora retornando às aparições de forma semi-figurativa – em que pese a mais recente viagem a Pyongyang -, é um testemunho em favor da tese de insatisfação por parte de Putin.

Então, na soma dos fatores, é possível dizer que é Prigozhin, não Shoigu, o aliado mais próximo a Putin. No mesmo sentido, o Wagner é filho direto do GRU, a instituição mais provadamente patriótica e leal aos interesses nacionais russos. Logo, é impossível deixar de especular sobre uma possível conivência de interesses entre Putin, Prigozhin e setores do Ministério da Defesa insatisfeitos com Shoigu. O impacto real disso no motim é incerto, mas o evidente fortalecimento político de Putin – talvez, a maior consequência da “marcha” possível de se verificar nesses trinta primeiros dias – testemunha em favor da hipótese.

O presidente russo Vladimir Putin (à direita) e o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, em uma reunião em Moscou, na Rússia.
Fotografia: Alexei Nikolsky—AP

Conclusão

Nunca saberemos o que de fato aconteceu em 24 de junho pelas mesmas razões que nunca saberemos o que houve nos bastidores dos grandes acontecimentos da história: o universo da inteligência e da política real é, geralmente, inacessível ao “homem comum”. Mas as evidências publicamente disponíveis nos levam a meditações que podem ser proveitosas para [tentar] montar o quebra-cabeça do “longo 24 de Junho”.  

Nos primeiros trinta dias após o motim, vimos o fortalecimento político de Vladimir Putin, de Aleksandr Lukashenko e de todo o Estado da União (acordo de integração político-militar entre Rússia e Belarus). Vimos também redistribuições de tropas estrategicamente relevantes, com o trânsito dos “Músicos” para a fronteira com a Polônia, às margens do Corredor de Suwalki – faixa de terra na fronteira polaco-lituana, que liga Belarus ao exclave russo de Kaliningrado, sendo há muito tempo uma ambição territorial russa.

No mesmo sentido, enquanto Prigozhin permanece ativo publicamente – ainda que evidentemente mais “tímido” – e o Wagner segue com suas atividades normais, por outro lado, Shoigu e Gerasimov estariam supostamente perdendo espaço no processo decisório militar. Ainda que informações precisas sobre isso sejam escassas, há uma notória e incontestável diminuição nos pronunciamentos oficiais de Shoigu.

É evidente que acusar a existência de uma “psyop” – ou “Maskirovka”, para se referir à doutrina soviética– é prematuro, mas os resultados visíveis apontam claramente a existência de determinados interesses comuns entre o Presidente da Rússia, o Grupo Wagner e alguns setores militares [principalmente de inteligência]. O motim serviu para expor, com grande clareza, deficiências institucionais a serem sanadas na Rússia, não apenas no âmbito do Ministério da Defesa, mas também em outros setores estratégicos. A impopularidade de Sergey Shoigu e seu caráter burocrata restaram evidentes, coexistindo com uma expressão popular aparentemente mista de apoio triplo a Putin, ao Wagner e às Forças Armadas, segundo o que se pôde ver nas redes sociais e nas filmagens de cidadãos russos nas ruas durante o dia 24. Todos os lados que se envolveram na demanda pareceram, no fim, beneficiados, exceto pelos próprios Shoigu, Gerasimov e seus apoiadores dentro e (principalmente) fora das Forças Armadas.

O caso também nos traz um questionamento, talvez até agora não levantado: como reagem as PMCs e os serviços de inteligência diante de insatisfações institucionais? É certo que o Wagner e o GRU não são como “sindicatos”. Não podem organizar uma “greve geral” e esperar o atendimento de suas demandas. São grupos armados, acostumados à realidade da guerra, e que reagem sempre com o uso das armas – mesmo que não violento, que foi exatamente o que se viu naquele 24 de junho. Então, excluindo o “fator Putin”, é possível dizer que o “motim” foi a forma como os setores insatisfeitos com a gestão Shoigu reagiram para expor seus interesses.

No fim, quem mais parece errado ao término destes trinta primeiros dias pós-motim são os veículos de propaganda pró-OTAN/Ucrânia, que se apressaram em prever golpe de Estado, guerra civil ou, na mais modesta das hipóteses, “enfraquecimento” político de Putin. Literalmente, todas as análises ocidentais se mostraram erradas – pelo menos até aqui.

Na ânsia por transparecer conhecimento estratégico, muitos analistas recordaram a máxima de Maquiavel sobre não confiar em mercenários – e acreditaram firmemente que os russos haviam se esquecido desta lição. Mas, aparentemente, a leitura correta do 24 de junho reside na pena do gênio chinês Sun Tzu, que muitos séculos antes de Maquiavel, já contava aos militares sobre a arte do “engano”.

Voluntariamente ou não, a Rússia aparentemente enganou todos os adversários com sua gestão da crise, conseguindo, no fim, evitar manobras inimigas e preservar a unidade nacional em tempos de guerra.  

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 53

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